domingo, 15 de maio de 2011

NÃO SE ESTUDA A CIVILIZAÇÃO SEM TOPAR COM ÁRABES

Amigos, este texto foi extraído da Revista Fenae Agora, edição nº 68, ano 14, abril/maio 2011. A autoria é de Mylton Severiano, jornalista e escritor, espero que apreciem!

"De repente as atenções se voltam para a região do mundo que, em muitas cabeças, era o reino das mil e uma noites. A mídia colonizada em inglês e escrita em português se apressa em carimbar os árabes como potenciais inimigos. Deixemos de lado a motivação do Império, de assegurar seu suprimento de petróleo (digo Império sem ironia, refiro-me à 'capacidade de comandar', de imperar). Falemos dos árabes.
Quando a revolta começou na passagem para 2011, alguém comentou: vai piorar, vão tomar o poder muçulmanos fundamentalistas, eles querem acabar com a 'civilização ocidental'. Mas ora, será que imaginam quanto deve a civilização ocidental aos árabes?
Fiz bons amigos de origem árabe, e grandes humanistas: José Carlos Marão (Mahrun originalmente), Georges Bourdoukan, Narciso Kalili. Com eles aprendi que árabe é gente finíssima.
Eles não surgiram com o islamismo, judaísmo ou cristianismo. Historicamente são anteriores ao conceito de Deus e ao monoteísmo. Constituem uma diversidade de povos com unidade linguística. Descendem dos faraós, dos fenícios, assírios, sumérios, cananeus, babilônios, palestinos. Do ponto de vista religioso, descendem de Ismael, filho mais velho de Abraão, nascido em Ur, no atual Iraque.
Devemos aos árabes o primeiro alfabeto; o primeiro código; a primeira lei; as primeiras navegações. São antepassados deles Ramsés, Nabucodonosor, Hamurabi, Talião. O 'velho continente' deve seu nome a Europa, filha do rei Agenor da Fenícia que, na mitologia, foi raptada por Zeus e com ele gerou filhos. O 'continente negro' deve seu nome a Ifriq, antigo nome da Tunísia ora rebelada.
Deve-se aos árabes o islamismo, a mais tolerante das religiões monoteístas, ao contrário do que nos querem fazer crer os interessados em demonizar povos que enfim se revoltam contra tiranos.
Quanto a nós, latino-americanos, saibamos que o primeiro não-índio a pisar em nosso solo foi um muçulmano que acompanhava Cristóvão Colombo. E no Brasil, a influência a gente sente em tudo, a começar pelas centenas de palavras usadas no dia a dia, pelas comidas. Um muçulmano lutou ao lado de Zumbi no Quilombo dos Palmares. Muçulmanos malês em 1835 promoveram grande revolta na Bahia contra a escravidão. Impossível viajar pela história e pela cultura universais sem topar com árabes.
A história não segue em linha reta. Coleia como o rio em seus meandros, por vezes até volta atrás, depois retoma o rumo. Há mil anos, o Afeganistão era um pomar paradisíaco e a futura América, terra de silvícolas. Agora, povos árabes que outrora mandavam na Europa ocidental se rebelam contra o despotismo em suas velhas pátrias. Não sou adivinho. Mas é certo que vão deixar, mais uma vez, indelével marca no curso da história da civilização."

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