Esta postagem foi inspirada
por uma dúvida da minha aluna Eliane Kreusch. Ela me enviou um vídeo da novela “O
Clone”, perguntando se a bailarina era a Shahrazad, e se de fato era ela quem tinha trazido a dança
do ventre para o Brasil. Como base para esta postagem, vou me utilizar de uma
palestra proferida pela querida Shalimar Mattar em 2009, bem como outras fontes.
Segundo Shalimar, a primeira
apresentação de dança do ventre no Brasil foi em 1954, em São Paulo. A
dançarina tinha 14 anos, era bailarina clássica e seu nome era Zuleika Pinho.
Até a década de 1970, foi a única bailarina de dança do ventre no Brasil. A
própria Zuleika disse:
“Me perguntaram se poderia
apresentar uma dança oriental, não tinha ideia do que era, mas aceitei.”
No volume I de seu livro “Os
pilares da profissionalização em dança do ventre”, na página 57, a bailarina
Brysa Mahaila fala sobre a Zuleika:
“Outra bailarina, Zuleika
Pinho apresentou-se com a dança do ventre em 1954, aos 14 anos, no clube Holms,
em São Paulo, e foi reconhecida como ‘rainha da dança do ventre’ pelos
principais jornais da época.”
(Zuleika Pinho)
Embora Zuleika Pinho tenha
feito a primeira dança no Brasil, a maioria das fontes cita a Shahrazad como a
pioneira da dança no país. Ela dançava desde criança, veio para o Brasil em
1957, mas aqui ela só voltou a dançar profissionalmente em 1979. Criou sua
própria metodologia de ensino e lançou diversos livros sobre o assunto.
Na página 57 do seu livro,
Brysa Mahaila diz:
“A bailarina palestina
Shahrazad, Shahid Sharkey, que chegou ao Brasil em 1957, é considerada uma das
precursoras da dança do ventre. Ela se apresentou em um programa de televisão
nacional com sucesso. Os espectadores puderam, então, entrar em contato com a
arte de uma cultura tão distante e milenar como a do Egito. Shahrazad, falecida
em 2014, foi a pioneira da dança do ventre no Brasil, deixando um importante
legado para essa dança e suas sucessoras.”
Em sua palestra, Shalimar
Mattar disse que, na década de 1970, começaram a surgir as casas de show e
restaurantes árabes. Faziam shows com música ao vivo, e só depois surgiram os
LPs. Eram três dançarinas: Rita Bianchi, Aziza (era a chacrete Deisi Cristal) e
Magda. A professora Samira Samia, mãe da Shalimar, e a Scherazade vieram um
pouco depois.
Na Central Dança do Ventre, fala-se
sobre essas bailarinas:
“Um pouco depois, na década de 80, surgiram as primeiras bailarinas de
Dança do Ventre brasileiras, que podem ser consideradas como a primeira geração
de bailarinas no Brasil. Foram elas: Shahrazad, Samira, Rita, Selma, Mileidy e
Zeina.”
No site de Vitor Abud Hiar, ele cita as seguintes bailarinas:
“A primeira geração de bailarinas árabes do Brasil, segundo consta nos
registros históricos, surgiu somente na década dos anos 70, e era formada por:
Shahrazad Sharkey (pioneira, que trouxe a arte técnica para o Brasil), Mileidy,
Rita, Selma, Samira, Aziza, Sandra, Magda, Vera e Zeina, todas importantes
precursoras na difusão da Dança do Ventre neste país.”
Então, são essas as precursoras (em ordem alfabética, para facilitar):
Aziza, Magda, Mileidy, Rita, Samira, Sandra, Selma, Shahrazad, Vera e Zeina.
Shalimar disse que sua mãe Samira
foi a primeira professora do Brasil, depois a Shahrazad começou a dar aulas
também, tudo isso na década de 1980. Quando a Casa de Chá Khan el Khalili foi
aberta, Samira foi a primeira professora da casa.
No livro “Direção e
preparação artística”, de Jorge Sabongi e Débora Sabongi, na página 17, eles
falam sobre os primórdios:
“À frente de uma casa
temática, a Khan el Khalili – Casa de Chá Egípcia, desde 1982, tive a
oportunidade de conviver com centenas de bailarinas (dança do ventre – belly dance),
acompanhando muitas desde o início de suas carreiras.
Por volta do início da
década de 1980, a dança do ventre praticamente não existia no Brasil. As
pouquíssimas bailarinas geralmente se apresentavam para um público estritamente
árabe. O aprendizado dessas profissionais se limitava ao que assistiam em
filmes e na própria intuição. Os movimentos não tinham uma técnica apurada.
Utilizavam a dança de forma comercial e faziam aparições em dois restaurantes,
Bier Maza e Porta Aberta, considerados reduto de famílias árabes na Cidade de
São Paulo.”
Outro restaurante dessa época,
citado no livro da Brysa Mahaila, é o Semíramis, também em São Paulo. Não achei
imagens dos restaurantes Bier Maza, Porta Aberta e Semíramis, pois eles não existem
mais. Abaixo, tem uma foto do interior da Khan el Khalili, um lugar maravilhoso
para conhecer.
Na página 56 do livro “Direção
e preparação artística”, Jorge Sabongi diz que:
“Naquela época, não existia
muita disponibilidade de músicas árabes, mas eu havia constituído um bom
acervo, contando com a preciosa colaboração de um amigo, piloto de aviação, que
me trazia long-plays da Europa e EUA.”
Bem diferente de hoje, que
podemos baixar músicas com toda facilidade, não é mesmo? A bailarina Brysa
Mahaila fala sobre as dificuldades desse período, também na página 57 de seu
livro:
“Mesmo no centro do país,
nos anos 1980, era difícil conseguir informações precisas a respeito do assunto
para realizar um trabalho mais profissional em dança do ventre. Não existiam
publicações em língua portuguesa, e vídeos e músicas gravadas para shows e
aulas eram escassos. A maioria das bailarinas que se arriscavam nesse mercado
era de amadoras com poucas informações para realizarem um bom trabalho em dança
do ventre, contanto somente com o contato de alguns músicos árabes que as
ajudavam.”
Segundo a Central Dança do
Ventre, o primeiro livro brasileiro sobre o assunto foi escrito pela bailarina
Málika em 1998, com o título “Dança do ventre – uma arte milenar”. Observação: eu ainda acho que
existem pouquíssimos livros em língua portuguesa sobre a dança do ventre, o que
é muito triste.
O primeiro DVD didático nacional
foi feito pela Lulu from Brazil (anteriormente, Lulu Sabongi), em 1993. A Lulu
estudou com Shahrazad, e a partir de 1985 passou a se apresentar na Khan el
Khalili. Precisamos valorizar muito o trabalho da Lulu, pois com seus diversos
DVDs didáticos, bem como seu trabalho de professora na Khan el Khalili, ela
formou muitas alunas. Eu pessoalmente, estudei muito com os DVDs da Lulu.
(Lulu)
A Shalimar também falou que
as bailarinas do Brasil não tinham conhecimento técnico, e que isso só aconteceu
quando a grande bailarina norte-americana Tamalyn Dallal esteve por algum tempo
em São Paulo. Foi feito um vídeo didático com aulas da Tamalyn, mas
aparentemente esse vídeo não foi lançado.
No seu livro, Brysa Mahaila
cita outros três fatos importantes para a difusão da dança do ventre no Brasil:
- O músico sírio Tony
Mouzayek e seus irmãos, que vieram para o Brasil na década de 1970 e a partir
do final da década de 1990, começaram a gravar CDs com música árabe.
- Os grandes festivais, tais
como Mercado Persa e Festival Luxor, que começaram a surgir entre 1990 e 2000.
O Mercado Persa, inclusive, é um dos maiores festivais de dança do ventre do
mundo.
- A novela “O Clone”, de
2002, que fez com que muitas mulheres começassem a praticar a dança do ventre,
bem como possibilitou a diversos músicos e bailarinas que mostrassem a sua
arte, em horário nobre da televisão. A bailarina Claudia Cenci foi a
responsável por coreografar as atrizes e os atores da novela.
Achei uma foto do volume I
do selo “Belly Dance Orient”, da família Mouzayek. À direita, eu vejo a Claudia
Cenci, mas não sei quem é a bailarina loira à esquerda. Se alguém souber, por
favor me avise. Nota: o José Haroldo descobriu o nome da bailarina, é Amar. Obrigada pela ajuda!
Atualmente, existem inúmeras
bailarinas e bailarinos de dança do ventre no nosso país, e muitos deles são
inclusive reconhecidos internacionalmente. O Brasil é um dos países com mais
praticantes dessa modalidade no mundo. Embora seja um nicho sem patrocínio
oficial, é um mercado em expansão, dando emprego a diversos profissionais, e possibilitando aos seus praticantes que
tenham saúde física e mental.
E aí, gostou da postagem? Se quiser saber mais, acesse os quatro links que coloquei abaixo. São bem legais!
Fontes consultadas:
- Palestra feita por
Shalimar Mattar em 06/06/2009.
- Os pilares da
profissionalização em dança do ventre”, volume I, Brysa Mahaila, Kaleidoscópio
de Ideias, São Paulo, 2016.
- Direção e preparação artística”,
Jorge Sabongi e Débora Sabongi, Ed. dos Autores, São Paulo, 2010.




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