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terça-feira, 21 de julho de 2020

A HISTÓRIA DA DANÇA DO VENTRE NO BRASIL


Esta postagem foi inspirada por uma dúvida da minha aluna Eliane Kreusch. Ela me enviou um vídeo da novela “O Clone”, perguntando se a bailarina era a  Shahrazad, e se de fato era ela quem tinha trazido a dança do ventre para o Brasil. Como base para esta postagem, vou me utilizar de uma palestra proferida pela querida Shalimar Mattar em 2009, bem como outras fontes.

Segundo Shalimar, a primeira apresentação de dança do ventre no Brasil foi em 1954, em São Paulo. A dançarina tinha 14 anos, era bailarina clássica e seu nome era Zuleika Pinho. Até a década de 1970, foi a única bailarina de dança do ventre no Brasil. A própria Zuleika disse:

“Me perguntaram se poderia apresentar uma dança oriental, não tinha ideia do que era, mas aceitei.”

No volume I de seu livro “Os pilares da profissionalização em dança do ventre”, na página 57, a bailarina Brysa Mahaila fala sobre a Zuleika:

“Outra bailarina, Zuleika Pinho apresentou-se com a dança do ventre em 1954, aos 14 anos, no clube Holms, em São Paulo, e foi reconhecida como ‘rainha da dança do ventre’ pelos principais jornais da época.”



                                             (Zuleika Pinho)

Embora Zuleika Pinho tenha feito a primeira dança no Brasil, a maioria das fontes cita a Shahrazad como a pioneira da dança no país. Ela dançava desde criança, veio para o Brasil em 1957, mas aqui ela só voltou a dançar profissionalmente em 1979. Criou sua própria metodologia de ensino e lançou diversos livros sobre o assunto.

Na página 57 do seu livro, Brysa Mahaila diz:

“A bailarina palestina Shahrazad, Shahid Sharkey, que chegou ao Brasil em 1957, é considerada uma das precursoras da dança do ventre. Ela se apresentou em um programa de televisão nacional com sucesso. Os espectadores puderam, então, entrar em contato com a arte de uma cultura tão distante e milenar como a do Egito. Shahrazad, falecida em 2014, foi a pioneira da dança do ventre no Brasil, deixando um importante legado para essa dança e suas sucessoras.”


                               
Em sua palestra, Shalimar Mattar disse que, na década de 1970, começaram a surgir as casas de show e restaurantes árabes. Faziam shows com música ao vivo, e só depois surgiram os LPs. Eram três dançarinas: Rita Bianchi, Aziza (era a chacrete Deisi Cristal) e Magda. A professora Samira Samia, mãe da Shalimar, e a Scherazade vieram um pouco depois.

Na Central Dança do Ventre, fala-se sobre essas bailarinas:

“Um pouco depois, na década de 80, surgiram as primeiras bailarinas de Dança do Ventre brasileiras, que podem ser consideradas como a primeira geração de bailarinas no Brasil. Foram elas: Shahrazad, Samira, Rita, Selma, Mileidy e Zeina.

No site de Vitor Abud Hiar, ele cita as seguintes bailarinas:

“A primeira geração de bailarinas árabes do Brasil, segundo consta nos registros históricos, surgiu somente na década dos anos 70, e era formada por: Shahrazad Sharkey (pioneira, que trouxe a arte técnica para o Brasil), Mileidy, Rita, Selma, Samira, Aziza, Sandra, Magda, Vera e Zeina, todas importantes precursoras na difusão da Dança do Ventre neste país.”

Então, são essas as precursoras (em ordem alfabética, para facilitar): Aziza, Magda, Mileidy, Rita, Samira, Sandra, Selma, Shahrazad, Vera e Zeina.

Shalimar disse que sua mãe Samira foi a primeira professora do Brasil, depois a Shahrazad começou a dar aulas também, tudo isso na década de 1980. Quando a Casa de Chá Khan el Khalili foi aberta, Samira foi a primeira professora da casa.

No livro “Direção e preparação artística”, de Jorge Sabongi e Débora Sabongi, na página 17, eles falam sobre os primórdios:

“À frente de uma casa temática, a Khan el Khalili – Casa de Chá Egípcia, desde 1982, tive a oportunidade de conviver com centenas de bailarinas (dança do ventre – belly dance), acompanhando muitas desde o início de suas carreiras.

Por volta do início da década de 1980, a dança do ventre praticamente não existia no Brasil. As pouquíssimas bailarinas geralmente se apresentavam para um público estritamente árabe. O aprendizado dessas profissionais se limitava ao que assistiam em filmes e na própria intuição. Os movimentos não tinham uma técnica apurada. Utilizavam a dança de forma comercial e faziam aparições em dois restaurantes, Bier Maza e Porta Aberta, considerados reduto de famílias árabes na Cidade de São Paulo.”

Outro restaurante dessa época, citado no livro da Brysa Mahaila, é o Semíramis, também em São Paulo. Não achei imagens dos restaurantes Bier Maza, Porta Aberta e Semíramis, pois eles não existem mais. Abaixo, tem uma foto do interior da Khan el Khalili, um lugar maravilhoso para conhecer.



Na página 56 do livro “Direção e preparação artística”, Jorge Sabongi diz que:

“Naquela época, não existia muita disponibilidade de músicas árabes, mas eu havia constituído um bom acervo, contando com a preciosa colaboração de um amigo, piloto de aviação, que me trazia long-plays da Europa e EUA.”

Bem diferente de hoje, que podemos baixar músicas com toda facilidade, não é mesmo? A bailarina Brysa Mahaila fala sobre as dificuldades desse período, também na página 57 de seu livro:

“Mesmo no centro do país, nos anos 1980, era difícil conseguir informações precisas a respeito do assunto para realizar um trabalho mais profissional em dança do ventre. Não existiam publicações em língua portuguesa, e vídeos e músicas gravadas para shows e aulas eram escassos. A maioria das bailarinas que se arriscavam nesse mercado era de amadoras com poucas informações para realizarem um bom trabalho em dança do ventre, contanto somente com o contato de alguns músicos árabes que as ajudavam.”

Segundo a Central Dança do Ventre, o primeiro livro brasileiro sobre o assunto foi escrito pela bailarina Málika em 1998, com o título “Dança do ventre – uma arte milenar”. Observação: eu ainda acho que existem pouquíssimos livros em língua portuguesa sobre a dança do ventre, o que é muito triste.

O primeiro DVD didático nacional foi feito pela Lulu from Brazil (anteriormente, Lulu Sabongi), em 1993. A Lulu estudou com Shahrazad, e a partir de 1985 passou a se apresentar na Khan el Khalili. Precisamos valorizar muito o trabalho da Lulu, pois com seus diversos DVDs didáticos, bem como seu trabalho de professora na Khan el Khalili, ela formou muitas alunas. Eu pessoalmente, estudei muito com os DVDs da Lulu.

                             (Lulu)

A Shalimar também falou que as bailarinas do Brasil não tinham conhecimento técnico, e que isso só aconteceu quando a grande bailarina norte-americana Tamalyn Dallal esteve por algum tempo em São Paulo. Foi feito um vídeo didático com aulas da Tamalyn, mas aparentemente esse vídeo não foi lançado.

No seu livro, Brysa Mahaila cita outros três fatos importantes para a difusão da dança do ventre no Brasil:

- O músico sírio Tony Mouzayek e seus irmãos, que vieram para o Brasil na década de 1970 e a partir do final da década de 1990, começaram a gravar CDs com música árabe.

- Os grandes festivais, tais como Mercado Persa e Festival Luxor, que começaram a surgir entre 1990 e 2000. O Mercado Persa, inclusive, é um dos maiores festivais de dança do ventre do mundo.

- A novela “O Clone”, de 2002, que fez com que muitas mulheres começassem a praticar a dança do ventre, bem como possibilitou a diversos músicos e bailarinas que mostrassem a sua arte, em horário nobre da televisão. A bailarina Claudia Cenci foi a responsável por coreografar as atrizes e os atores da novela.

Achei uma foto do volume I do selo “Belly Dance Orient”, da família Mouzayek. À direita, eu vejo a Claudia Cenci, mas não sei quem é a bailarina loira à esquerda. Se alguém souber, por favor me avise. Nota: o José Haroldo descobriu o nome da bailarina, é Amar. Obrigada pela ajuda!


Atualmente, existem inúmeras bailarinas e bailarinos de dança do ventre no nosso país, e muitos deles são inclusive reconhecidos internacionalmente. O Brasil é um dos países com mais praticantes dessa modalidade no mundo. Embora seja um nicho sem patrocínio oficial, é um mercado em expansão, dando emprego a diversos profissionais, e possibilitando aos seus praticantes que tenham saúde física e mental.

E aí, gostou da postagem? Se quiser saber mais, acesse os quatro links que coloquei abaixo. São bem legais! 


Fontes consultadas:

- Palestra feita por Shalimar Mattar em 06/06/2009.

- Os pilares da profissionalização em dança do ventre”, volume I, Brysa Mahaila, Kaleidoscópio de Ideias, São Paulo, 2016.

- Direção e preparação artística”, Jorge Sabongi e Débora Sabongi, Ed. dos Autores, São Paulo, 2010.






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