Em primeiro lugar, a dança
do ventre surgiu espontaneamente, não foi criada pelo homem, com regras e
vestimentas próprias, como no caso do balé clássico. A mulher dançava com as
suas roupas normais. Só mais tarde, quando a dança começa a se profissionalizar,
é que vamos falar em figurinos próprios para a dança do ventre.
Um problema é que não temos
desenhos, pinturas ou esculturas antigas que mostrem como eram as primeiras
dançarinas. Aliás, não se sabe nem ao certo quando surgiu a dança do ventre, como
já falamos anteriormente. E por que não temos representação visual?
É porque na arte muçulmana existe uma restrição para se retratar a figura humana. Um exemplo é o interior
das mesquitas, que são decoradas com arabescos e palavras do Alcorão. A única
exceção a essa restrição é a arte safávida. Os safávidas dominaram o Irã a
partir de 1501, e existem inúmeras ilustrações de figuras humanas. A respeito
dessa época, sugiro a leitura do texto “Breve história da moda no Irã”, que
você vai encontrar no link abaixo:
Já leu o texto sobre o Irã?
Então, vamos continuar. Em 1798, Napoleão Bonaparte invadiu o Egito, e levou para
lá muitos cientistas e artistas. Esses artistas retrataram os prédios, as
ruínas, as pessoas, os instrumentos, etc. Surgiu daí a enciclopédia "Descrição do Egito". Quando você tiver um tempo sobrando,
acesse a Biblioteca Digital Mundial, e veja os volumes originais,
digitalizados. Foi um trabalho colossal! O link para os volumes está em:
Tenho aqui dois exemplos das dançarinas retratadas pelos artistas de Napoleão:
Após a chegada dos invasores
franceses, os ocidentais “descobriram” o Egito, uma terra que para eles era
extremamente exótica. Daí começa a arte orientalista, que nada mais é que o
olhar ocidental sobre a cultura oriental. Esse olhar, muitas vezes, era cheio
de preconceitos. Por exemplo: quando se fala em harém, o que vem à sua cabeça?
Ora, aquilo que os pintores orientalistas imaginaram - mulheres nuas, em
atitude ociosa, dentro do harém. Só que a palavra harém quer dizer “proibido”.
Se era proibida a entrada para os estranhos, como um homem ocidental poderia
entrar lá, para retratar o ambiente e as pessoas? Muita coisa era pura
imaginação do pintor. Nasceu daí a figura da odalisca, mulher sedutora, que
vivia ociosa e despida.
Deixando de lado os quadros
de harém, vamos mostrar três exemplos de arte orientalista, onde podemos ver
os trajes das dançarinas da época. Você vai notar que elas geralmente usam
muita roupa, com saias volumosas, e uma faixa para marcar os quadris.
Segundo
Ward (2013), o traje das ghawazee de fins do século XIX ao início do século XX
era composto de “saia, saia de cartola com fitas longas, camisa transparente,
colete, sapatos de salto – (e ) parece ter evoluído do traje anterior
do Ghawazee, que em si era essencialmente uma elaboração
das roupas cotidianas usadas pelas mulheres comuns na privacidade
dos hareem , ou aposentos femininos, da casa”. A fotografia
abaixo mostra como era esse traje:
A partir dos anos 1920, a
dança começa a se profissionalizar. Já falei sobre Badia Masabni, que foi
proprietária de várias casas de show no Egito. Nessa época, provavelmente por
uma influência dos filmes de Hollywood, as bailarinas da Badia começam a usar o
traje tradicional de dança do ventre: top, cinturão e saia. Como exemplo,
separei fotografias de Tahya Karioka, Samia Gamal e Nayma Akef. São fotos de
filmes em que elas dançaram. Os trajes são todos bordados com pedrarias,
possuem franjas ou detalhes com moedas, e as saias são de tecidos luxuosos.
É
lógico que para cada filme e dança, o figurino precisava mudar. Quando a Tahya
Karioka executava uma dança folclórica, é óbvio que o figurino mudava
radicalmente. Outro exemplo é a Samia Gamal, fazendo uma performance com colete
bordado e calça com elástico nos tornozelos. A partir dessa época, a criatividade
era o único limite para os inúmeros trajes inventados.
É claro que a moda evolui, e
o que é bonito hoje amanhã estará ultrapassado. Quando eu comecei a fazer aulas
de dança do ventre, os trajes eram de lantejoulas, moedas e vitrilhos. Hoje em
dia, praticamente não se usam esses materiais, e está em alta o uso de
pedrarias e cristais. Existem inúmeros estilistas talentosos, no Brasil e no
exterior, além da possibilidade da dançarina criar o seu próprio traje. Usam-se
todos os tipos de tecido, todas as modelagens de saias, tops e cinturões. Vou
deixar dois exemplos de figurinos atuais feitos para mim. O verde é de autoria
da grife BellyStars Costumes, e o rosa é do Ateliê Bahira, com saia da Layla Costure.
Espero que a postagem tenha
sido útil, e agradeço novas sugestões. Uma feliz dança para todos nós!













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