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segunda-feira, 27 de abril de 2020

OS FIGURINOS NAS DIVERSAS ÉPOCAS

O texto de hoje é uma sugestão da Camila Nickel e da Marilis Silva. Elas me pediram para falar sobre a moda dos trajes de dança do ventre. Vou deixar de lado a questão dos figurinos de folclore, para a postagem não ficar muito longa.

Em primeiro lugar, a dança do ventre surgiu espontaneamente, não foi criada pelo homem, com regras e vestimentas próprias, como no caso do balé clássico. A mulher dançava com as suas roupas normais. Só mais tarde, quando a dança começa a se profissionalizar, é que vamos falar em figurinos próprios para a dança do ventre.

Um problema é que não temos desenhos, pinturas ou esculturas antigas que mostrem como eram as primeiras dançarinas. Aliás, não se sabe nem ao certo quando surgiu a dança do ventre, como já falamos anteriormente. E por que não temos representação visual?

É porque na arte muçulmana existe uma restrição para se retratar a figura humana. Um exemplo é o interior das mesquitas, que são decoradas com arabescos e palavras do Alcorão. A única exceção a essa restrição é a arte safávida. Os safávidas dominaram o Irã a partir de 1501, e existem inúmeras ilustrações de figuras humanas. A respeito dessa época, sugiro a leitura do texto “Breve história da moda no Irã”, que você vai encontrar no link abaixo:


Já leu o texto sobre o Irã? Então, vamos continuar. Em 1798, Napoleão Bonaparte invadiu o Egito, e levou para lá muitos cientistas e artistas. Esses artistas retrataram os prédios, as ruínas, as pessoas, os instrumentos, etc. Surgiu daí a enciclopédia "Descrição do Egito". Quando você tiver um tempo sobrando, acesse a Biblioteca Digital Mundial, e veja os volumes originais, digitalizados. Foi um trabalho colossal! O link para os volumes está em:


Tenho aqui dois exemplos das dançarinas retratadas pelos artistas de Napoleão:





Após a chegada dos invasores franceses, os ocidentais “descobriram” o Egito, uma terra que para eles era extremamente exótica. Daí começa a arte orientalista, que nada mais é que o olhar ocidental sobre a cultura oriental. Esse olhar, muitas vezes, era cheio de preconceitos. Por exemplo: quando se fala em harém, o que vem à sua cabeça? Ora, aquilo que os pintores orientalistas imaginaram - mulheres nuas, em atitude ociosa, dentro do harém. Só que a palavra harém quer dizer “proibido”. Se era proibida a entrada para os estranhos, como um homem ocidental poderia entrar lá, para retratar o ambiente e as pessoas? Muita coisa era pura imaginação do pintor. Nasceu daí a figura da odalisca, mulher sedutora, que vivia ociosa e despida.

Deixando de lado os quadros de harém, vamos mostrar três exemplos de arte orientalista, onde podemos ver os trajes das dançarinas da época. Você vai notar que elas geralmente usam muita roupa, com saias volumosas, e uma faixa para marcar os quadris.






Segundo Ward (2013), o traje das ghawazee de fins do século XIX ao início do século XX era composto de “saia, saia de cartola com fitas longas, camisa transparente, colete, sapatos de salto – (e ) parece ter evoluído do traje anterior do  Ghawazee,  que em si era essencialmente uma elaboração das roupas cotidianas usadas pelas mulheres comuns na privacidade dos  hareem , ou aposentos femininos, da casa”. A fotografia abaixo mostra como era esse traje:


A partir dos anos 1920, a dança começa a se profissionalizar. Já falei sobre Badia Masabni, que foi proprietária de várias casas de show no Egito. Nessa época, provavelmente por uma influência dos filmes de Hollywood, as bailarinas da Badia começam a usar o traje tradicional de dança do ventre: top, cinturão e saia. Como exemplo, separei fotografias de Tahya Karioka, Samia Gamal e Nayma Akef. São fotos de filmes em que elas dançaram. Os trajes são todos bordados com pedrarias, possuem franjas ou detalhes com moedas, e as saias são de tecidos luxuosos. 






É lógico que para cada filme e dança, o figurino precisava mudar. Quando a Tahya Karioka executava uma dança folclórica, é óbvio que o figurino mudava radicalmente. Outro exemplo é a Samia Gamal, fazendo uma performance com colete bordado e calça com elástico nos tornozelos. A partir dessa época, a criatividade era o único limite para os inúmeros trajes inventados.




É claro que a moda evolui, e o que é bonito hoje amanhã estará ultrapassado. Quando eu comecei a fazer aulas de dança do ventre, os trajes eram de lantejoulas, moedas e vitrilhos. Hoje em dia, praticamente não se usam esses materiais, e está em alta o uso de pedrarias e cristais. Existem inúmeros estilistas talentosos, no Brasil e no exterior, além da possibilidade da dançarina criar o seu próprio traje. Usam-se todos os tipos de tecido, todas as modelagens de saias, tops e cinturões. Vou deixar dois exemplos de figurinos atuais feitos para mim. O verde é de autoria da grife BellyStars Costumes, e o rosa é do Ateliê Bahira, com saia da Layla Costure.




Espero que a postagem tenha sido útil, e agradeço novas sugestões. Uma feliz dança para todos nós!



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