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domingo, 17 de maio de 2020

DANÇARINAS PRECURSORAS


Em 15 de outubro de 2019, fiz uma postagem sobre a grande artista Badia Masabni (se você não leu, por favor leia, antes de prosseguir com a postagem abaixo). Badia foi extremamente importante para a dança do ventre, e hoje quero falar de outras três artistas de expressão, anteriores a ela: Shooq, Shafiqa El-Copta e Bamba Kashar.

Para relembrar: as ghawazee eram as ciganas que viviam no Egito, e dançavam profissionalmente em feiras, praças e nas festas religiosas, para ganhar o seu sustento. Já as awalim eram mulheres eruditas que cantavam, dançavam e declamavam poesias, e se apresentavam nas festas particulares das famílias ricas. Segundo Khaled Emam, à página 147 de seu livro:

“As Awalim viviam no Cairo entre 1850 e 1920. Muitas fugiram das suas cidades, especificamente para a Rua Mohamed Ali, local onde moravam e trabalhavam todas as Awalim.”

Shooq é considerada a primeira bailarina de dança do ventre do Egito, mas infelizmente não consegui dados sobre quando nasceu e morreu, e também nenhuma imagem dela. Ela se apresentava nas festas das famílias ricas, e quando o Canal de Suez foi aberto, em 1869, se apresentou na cerimônia de inauguração. Em certa ocasião, Shooq foi contratada para dançar em uma festa de casamento de uma família cristã copta, e lá viu uma menina muito talentosa, chamada Shafiqa. Shooq se ofereceu para ensinar a menina a dançar, mas a família de Shafiqa não gostou, pois achavam que a dança era uma atividade das classes inferiores. Mesmo assim, ela conseguiu dar aulas a Shafiqa. Não tenho mais informações sobre Shooq, o que é uma pena.

Shafiqa El-Copta nasceu em 1851 e faleceu em 1926. A sua família era da religião copta, e por este motivo Shafiqa assumiu o nome "El-Copta", quando começou sua carreira. Após Shafiqa conhecer Shooq, ela começou a fazer aulas escondida com a bailarina, com a desculpa de que ia à igreja. Mais tarde, ela desapareceu por seis meses, deixando sua família desesperada. Quando a família descobriu que Shafiqa estava dançando em um festival, disseram a ela que deixasse a dança. Como Shafiqa não aceitou a ordem, a família renegou-a. Shafiqa voltou a estudar com Shooq, que morreu logo em seguida. Logo Shafiqa também perdeu os pais e começou a sua carreira, a princípio em festivais folclóricos e depois em casas noturnas. Um tempo depois, já tinha seu próprio grupo de músicos e bailarinas.

Segundo Brysa Mahaila, à página 41 de seu livro, Shafiqa:

“... é considerada uma das primeiras bailarinas de dança do ventre a adquirir fama e fortuna. Convidada por um empresário francês, ela se apresentou em um evento em Paris e foi premiada por sua dança.
“Conforme Mohamed (1996), ‘Shafiqa la Copa foi a primeira dançarina que atuou na Primeira Feira Internacional realizada em Paris, em 1917, e ganhou o primeiro prêmio. Dançou com sapatos cujos saltos eram de ouro e brilhantes.’ Somente as bailarinas mais famosas, tais como Shafiqa, contavam com prestígio e participavam dos eventos da restrita classe aristocrática egípcia, demonstrando que a aceitação da dança por essa sociedade dependia do status que a artista conseguia alcançar em sua carreira.”

Foi a fundadora da casa noturna “Alf Leyla”, também chamada de “1001 noites”. Ela é muito lembrada por ter introduzido acessórios de equilíbrio na dança do ventre, tais como o candelabro e a bandeja. Shafiqa era uma verdadeira celebridade, e os homens faziam loucuras para demonstrar seu apreço por ela. Uma coisa interessante é que Shafiqa tinha um coração muito grande, e nunca se negou a ajudar quem precisasse.

Shafiqa tornou-se muito rica e famosa, mas gastava demais e acabou vendendo a sua casa noturna. Como queria muito ser mãe e não conseguia, adotou um menino, chamado Zaki. Mimou demais a criança, que veio a tornar-se alcóolatra e viciado em drogas, o que acarretou a sua morte prematura. Shafiqa ficou devastada. Com a idade, começou a perder seus fãs, bem como seus recursos financeiros, vindo a falecer em 1926. Em 1963 foi feito um filme sobre a sua vida, intitulado Shafiqa el Copta.

                                                        
                                               (Shafiqa El-Copta)


Bamba Kashar nasceu em 1860 e faleceu em 1930. Era de família rica, e veio a perder o pai quando tinha 14 anos. Após o falecimento de seu pai, sua mãe se casou novamente, mas Bamba e seus irmãos não aceitaram o casamento e se separaram da mãe. A partir daí, Bamba e seus irmãos passaram a residir com uma artista turca muito famosa chamada Salem, e ela entra para o ramo artístico. Antes de completar 20 anos, Bamba deixa Salem e passa a ter seu próprio grupo. Bamba casou-se sete vezes, e teve duas filhas, Hosn e Khadiga.

Segundo Farouk Yousuf Eskandar, ela reinou por quase meio século, e era uma adversária feroz de Shafiqa El-Copta. Ao contrário da sua concorrente, não dançava em locais públicos, apenas em eventos particulares das classes altas. Ela idealizou o primeiro festival de dança, intitulado The Zar Concerts, que foi realizado por muitos anos. Além disso, atuou em dois filmes: Leyla, de 1927 e Filha do Nilo, de 1929. Após os filmes, ela ficou doente, vindo a falecer em 1930. Em 1974, a atriz Nadia El Gendy produziu e atuou em um filme, intitulado Bamba Kashar, que conta a história dessa grande bailarina.



                                          (Bamba Kashar)


Fontes:

“A dança da libertação”, Claudia Cenci. São Paulo, Editora Vitória Régia, 2001.
“Egito – tradição e arte”, Khaled Emam. Maringá, Editora Viseu, 2018.
“Os pilares da profissionalização em dança do ventre – volume I – História e Folclore”, Brysa Mahaila. São Paulo, Editora Kaleidoscópio de Ideias.
Texto de Farouk Yousuf Eskandar, que consta no site http://www.shira.net/about/bamba-kashar-alkahira.htm

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