Em
15 de outubro de 2019, fiz uma postagem sobre a grande artista Badia Masabni
(se você não leu, por favor leia, antes de prosseguir com a postagem abaixo).
Badia foi extremamente importante para a dança do ventre, e hoje quero falar de
outras três artistas de expressão, anteriores a ela: Shooq, Shafiqa El-Copta e
Bamba Kashar.
Para
relembrar: as ghawazee eram as ciganas que viviam no Egito, e dançavam
profissionalmente em feiras, praças e nas festas religiosas, para ganhar o seu
sustento. Já as awalim eram mulheres eruditas que cantavam, dançavam e
declamavam poesias, e se apresentavam nas festas particulares das famílias
ricas. Segundo Khaled Emam, à página 147 de seu livro:
“As
Awalim viviam no Cairo entre 1850 e 1920. Muitas fugiram das suas cidades,
especificamente para a Rua Mohamed Ali, local onde moravam e trabalhavam todas
as Awalim.”
Shooq é considerada a primeira bailarina de
dança do ventre do Egito, mas infelizmente não consegui dados sobre quando
nasceu e morreu, e também nenhuma imagem dela. Ela se apresentava nas festas
das famílias ricas, e quando o Canal de Suez foi aberto, em 1869, se apresentou
na cerimônia de inauguração. Em certa ocasião, Shooq foi contratada para dançar em
uma festa de casamento de uma família cristã copta, e lá viu uma menina muito
talentosa, chamada Shafiqa. Shooq se ofereceu para ensinar a menina a dançar,
mas a família de Shafiqa não gostou, pois achavam que a dança era uma atividade
das classes inferiores. Mesmo assim, ela conseguiu dar aulas a Shafiqa. Não
tenho mais informações sobre Shooq, o que é uma pena.
Shafiqa El-Copta nasceu em 1851 e faleceu em 1926. A
sua família era da religião copta, e por este motivo Shafiqa assumiu o nome "El-Copta", quando começou sua carreira. Após Shafiqa conhecer Shooq, ela começou a
fazer aulas escondida com a bailarina, com a desculpa de que ia à igreja. Mais
tarde, ela desapareceu por seis meses, deixando sua família desesperada. Quando
a família descobriu que Shafiqa estava dançando em um festival, disseram a ela que
deixasse a dança. Como Shafiqa não aceitou a ordem, a família renegou-a. Shafiqa
voltou a estudar com Shooq, que morreu logo em seguida. Logo Shafiqa também perdeu
os pais e começou a sua carreira, a princípio em festivais folclóricos e depois
em casas noturnas. Um tempo depois, já tinha seu próprio grupo de músicos e bailarinas.
Segundo
Brysa Mahaila, à página 41 de seu livro, Shafiqa:
“...
é considerada uma das primeiras bailarinas de dança do ventre a adquirir fama e
fortuna. Convidada por um empresário francês, ela se apresentou em um evento em
Paris e foi premiada por sua dança.
“Conforme
Mohamed (1996), ‘Shafiqa la Copa foi a primeira dançarina que atuou na Primeira
Feira Internacional realizada em Paris, em 1917, e ganhou o primeiro prêmio.
Dançou com sapatos cujos saltos eram de ouro e brilhantes.’ Somente as
bailarinas mais famosas, tais como Shafiqa,
contavam com prestígio e participavam dos eventos da restrita classe
aristocrática egípcia, demonstrando que a aceitação da dança por essa sociedade
dependia do status que a artista conseguia alcançar em sua carreira.”
Foi
a fundadora da casa noturna “Alf Leyla”, também chamada de “1001 noites”. Ela é
muito lembrada por ter introduzido acessórios de equilíbrio na dança do ventre,
tais como o candelabro e a bandeja. Shafiqa era uma verdadeira celebridade, e
os homens faziam loucuras para demonstrar seu apreço por ela. Uma coisa
interessante é que Shafiqa tinha um coração muito grande, e nunca se negou a
ajudar quem precisasse.
Shafiqa
tornou-se muito rica e famosa, mas gastava demais e acabou vendendo a sua casa
noturna. Como queria muito ser mãe e não conseguia, adotou um menino, chamado
Zaki. Mimou demais a criança, que veio a tornar-se alcóolatra e viciado em
drogas, o que acarretou a sua morte prematura. Shafiqa ficou devastada. Com a
idade, começou a perder seus fãs, bem como seus recursos financeiros, vindo a
falecer em 1926. Em 1963 foi feito um filme sobre a sua vida, intitulado Shafiqa el Copta.
(Shafiqa El-Copta)
Bamba Kashar nasceu em 1860 e faleceu em 1930. Era
de família rica, e veio a perder o pai quando tinha 14 anos. Após o falecimento
de seu pai, sua mãe se casou novamente, mas Bamba e seus irmãos não aceitaram o
casamento e se separaram da mãe. A partir daí, Bamba e seus irmãos passaram a
residir com uma artista turca muito famosa chamada Salem, e ela entra para o
ramo artístico. Antes de completar 20 anos, Bamba deixa Salem e passa a ter seu
próprio grupo. Bamba casou-se sete vezes, e teve duas filhas, Hosn e Khadiga.
Segundo
Farouk Yousuf Eskandar, ela reinou por quase meio século, e era uma adversária
feroz de Shafiqa El-Copta. Ao contrário da sua concorrente, não dançava em
locais públicos, apenas em eventos particulares das classes altas. Ela
idealizou o primeiro festival de dança, intitulado The Zar Concerts, que foi
realizado por muitos anos. Além disso, atuou em dois filmes: Leyla, de 1927 e Filha do Nilo, de 1929. Após os filmes, ela ficou doente, vindo a
falecer em 1930. Em 1974, a atriz Nadia El Gendy produziu e atuou em um filme,
intitulado Bamba Kashar, que conta a
história dessa grande bailarina.
Fontes:
“A
dança da libertação”, Claudia Cenci. São Paulo, Editora Vitória Régia, 2001.
“Egito
– tradição e arte”, Khaled Emam. Maringá, Editora Viseu, 2018.
“Os
pilares da profissionalização em dança do ventre – volume I – História e
Folclore”, Brysa Mahaila. São Paulo, Editora Kaleidoscópio de Ideias.
Texto
de Farouk Yousuf Eskandar, que consta no site http://www.shira.net/about/bamba-kashar-alkahira.htm



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