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quarta-feira, 27 de maio de 2020

DIFICULDADE DE IMPROVISAR


Amigos, esta postagem foi uma sugestão da Cláudia Futz, e é sobre um assunto muito especial para mim, por se tratar de um grande desafio para a minha dança. Obrigada pela sugestão, Cláudia!

Originalmente, a dança do ventre era improvisada. O baladi tradicional era improvisado, bem como o folclore árabe. Somente a partir do século XX, com o surgimento das casas de shows egípcias, é que as apresentações de dança oriental começaram a ser coreografadas. A respeito disso, favor ler o texto “A importância de Badia Masabni”, postado em 15 de outubro de 2019.

Algumas bailarinas preferem improvisar, outras gostam mais de coreografar. Eu, pessoalmente, me sinto mais segura quando faço uma coreografia. Sempre tive MUITA dificuldade com o improviso, e só saí da minha zona de conforto após muita insistência da minha professora, Linda Hathor. É um processo fácil? Não, não é mesmo. Posso afirmar isso com convicção, pois estou nesse processo há alguns anos, e no começo foi MUITO difícil. É uma coisa impossível? Claro que não. Do mesmo modo que aprendemos a coreografar, podemos aprender a improvisar.

O improviso pede entrega, e isso pode ser bem difícil para quem quer sempre estar no controle da situação (ou seja, eu – rs). Além disso, as pessoas mais racionais também têm mais dificuldade para improvisar que as pessoas emotivas. Quando coreografamos, temos o controle de todo o processo, usamos bastante o raciocínio. Sabemos em quais momentos vamos deslocar, acelerar, desacelerar, quando existe mudança de ritmo, etc. Já nos improvisos, o controle cede lugar à entrega e à espontaneidade. Precisamos usar mais a emoção, porque não dá tempo de racionalizar, é tudo muito rápido, a resposta do corpo à música precisa ser imediata.

Dito tudo isso, vamos a algumas dicas de como podemos facilitar esse processo? Vou falar sobre o meu processo pessoal, se você tiver mais algumas sugestões, fique à vontade para incluir seus comentários.

- Em primeiro lugar, se você for professora, evite usar o improviso para as apresentações de grupo. Se as suas alunas irão se apresentar em algum festival, elas precisam ter uma coreografia para estudar e fazer com que ela fique harmoniosa. Isso é impossível com o improviso.

- Para os primeiros improvisos, sugiro uma coisa muito simples: escolha um ritmo lento e dance sem compromisso, apenas sinta a música. Depois, faça o mesmo com um ritmo cadenciado. Por último, com um ritmo rápido.

- Aconselho que você sempre filme os seus improvisos. Após dançar, assista e veja em quais momentos você e a música falavam a mesma linguagem, e também quando você estava adiantada ou atrasada em relação à música. Esse é um olhar crítico, mas não se martirize. Tente olhar criticamente, mas à distância, entende? Se você tiver computador ou notebook, salve em uma pasta todos os seus improvisos gravados, com a data registrada. Você verá que, à medida que vai praticando o improviso, vai começar a gostar mais do resultado.

- Treine seu ouvido: estude ritmos árabes, isso vai ajudar muito no seu improviso (na aba “ritmos árabes” do meu blog você pode estudar diversos ritmos). Aprenda a distinguir os instrumentos de percussão e melódicos (favor acessar a aba “sobre os instrumentos árabes”). Pense qual tipo de movimento combina com cada instrumento. Escute músicas árabes e analise em qual momento a música fica mais rápida, mais lenta, muda de ritmo, de intensidade, quando entra um solo melódico, e em qual hora a orquestra toda começa a tocar.

- É muito importante escutar a música. Não adianta fazer sequências aleatórias, que não vai combinar. Imagine só: a música entra em um momento bem lento, bem introspectivo, e você está fazendo aquelas sequências complicadas, com giros rápidos, deslocamentos com quadril, braços enérgicos. Calma! Escute a melodia.

- Depois de fazer pequenos improvisos com ritmos, treinar o ouvido e escutar músicas árabes, é hora de fazer um improviso estudado com uma música. Sugiro que comece com uma árabe moderna, pois é um tipo de música com poucas variações. Escolha uma árabe moderna, escute uma vez (ou mais, se quiser), prestando atenção no ritmo e na melodia. Só então faça o seu improviso, sempre gravando, e em seguida assista ao seu improviso. O que ficou bom? O que pode ser melhorado?

- O outro estágio é o improviso total: você coloca uma música aleatória, e começa a dançar. Eu estou nesse estágio. Coloco a minha câmera para gravar, seleciono uma música e vamos embora! Depois eu assisto e faço uma análise do que ficou correto e do que não combinou com a música. Vejo a minha postura, também. Alguns improvisos não ficam bons, mas ultimamente a maioria já me agrada.  

- No começo, eu só improvisava músicas clássicas (justo as mais desafiadoras – hehehe), mas descobri que é melhor improvisar músicas dos mais diferentes estilos. Exemplos: taksim baladi, clássicas, instrumentais, lentas, árabes modernas, solos de derbake, tareb e tradicionais. Se você quiser, também pode improvisar com músicas ocidentais, o que é um outro desafio.

E aí, gostou da postagem? Se quiser falar sobre a sua experiência em improviso, mande aqui o seu comentário.

Para finalizar, quero indicar um livro muito bom para aprimorar a sua dança: “Direção e preparação artística”, de Jorge Sabongi e Débora Sabongi, Edição dos autores, 2010. À página 161 desse livro, os autores escrevem que:

O improviso favorece e dá margem à criatividade. Desinibe e permite que ocorra a maturidade artística. A audição torna-se apurada, a fantasia é estimulada, cria desenvoltura, eliminando bloqueios. Inviabiliza o tédio e a constância, estimulando a atividade criativa que é gerada intimamente. Quebra a monotonia e coloca a bailarina diante de seu interior para que ela seja plena quando dança.

Improvisar permite uma constante busca, encontro e realização com nosso ‘eu desconhecido’. Nunca sabemos que tipo de encanto diferenciado iremos criar.

Isso não é imitação de arte. Pelo contrário: é arte pura.”




2 comentários:

Cl@u disse...

Muito bom amiga! Quando a gente já conhece a música até fica mais fácil, mas em muitos momentos em sala de aula confesso que parece que “dá um branco” e que minha vontade era de sair correndo. Por outro lado, já me apresentei em algumas festas de amigos apenas conhecendo a música, e foi bem como vc falou: foi tranquilo porque pude dançar “com entrega”, algumas vezes, por ansiedade o movimento pode até não ter ficado completo ou tão fluido, mas o fato de “dançar com a alma” fez toda a diferença! Obrigada pelas dicas, bjos 😘

Aziza Mahaila disse...

Não tem de que, querida, bjs!