Amigos, esta postagem foi
uma sugestão da Cláudia Futz, e é sobre um assunto muito especial para mim, por
se tratar de um grande desafio para a minha dança. Obrigada pela sugestão,
Cláudia!
Originalmente, a dança do
ventre era improvisada. O baladi tradicional era improvisado, bem como o
folclore árabe. Somente a partir do século XX, com o surgimento das casas de shows
egípcias, é que as apresentações de dança oriental começaram a ser
coreografadas. A respeito disso, favor ler o texto “A importância de Badia
Masabni”, postado em 15 de outubro de 2019.
Algumas bailarinas preferem
improvisar, outras gostam mais de coreografar. Eu, pessoalmente, me sinto mais
segura quando faço uma coreografia. Sempre tive MUITA dificuldade com o
improviso, e só saí da minha zona de conforto após muita insistência da minha
professora, Linda Hathor. É um processo fácil? Não, não é mesmo. Posso afirmar
isso com convicção, pois estou nesse processo há alguns anos, e no começo foi
MUITO difícil. É uma coisa impossível? Claro que não. Do mesmo modo que
aprendemos a coreografar, podemos aprender a improvisar.
O improviso pede entrega, e
isso pode ser bem difícil para quem quer sempre estar no controle da situação (ou
seja, eu – rs). Além disso, as pessoas mais racionais também têm mais
dificuldade para improvisar que as pessoas emotivas. Quando coreografamos,
temos o controle de todo o processo, usamos bastante o raciocínio. Sabemos em
quais momentos vamos deslocar, acelerar, desacelerar, quando existe mudança de
ritmo, etc. Já nos improvisos, o controle cede lugar à entrega e à
espontaneidade. Precisamos usar mais a emoção, porque não dá tempo de racionalizar,
é tudo muito rápido, a resposta do corpo à música precisa ser imediata.
Dito tudo isso, vamos a
algumas dicas de como podemos facilitar esse processo? Vou falar sobre o meu
processo pessoal, se você tiver mais algumas sugestões, fique à vontade para
incluir seus comentários.
- Em primeiro lugar, se você
for professora, evite usar o improviso para as apresentações de grupo. Se as
suas alunas irão se apresentar em algum festival, elas precisam ter uma
coreografia para estudar e fazer com que ela fique harmoniosa. Isso é
impossível com o improviso.
- Para os primeiros
improvisos, sugiro uma coisa muito simples: escolha um ritmo lento e dance sem
compromisso, apenas sinta a música. Depois, faça o mesmo com um ritmo
cadenciado. Por último, com um ritmo rápido.
- Aconselho que você sempre
filme os seus improvisos. Após dançar, assista e veja em quais momentos você e
a música falavam a mesma linguagem, e também quando você estava adiantada ou
atrasada em relação à música. Esse é um olhar crítico, mas não se martirize.
Tente olhar criticamente, mas à distância, entende? Se você tiver computador ou
notebook, salve em uma pasta todos os seus improvisos gravados, com a data
registrada. Você verá que, à medida que vai praticando o improviso, vai começar
a gostar mais do resultado.
- Treine seu ouvido: estude
ritmos árabes, isso vai ajudar muito no seu improviso (na aba “ritmos árabes”
do meu blog você pode estudar diversos ritmos). Aprenda a distinguir os
instrumentos de percussão e melódicos (favor acessar a aba “sobre os
instrumentos árabes”). Pense qual tipo de movimento combina com cada
instrumento. Escute músicas árabes e analise em qual momento a música fica mais
rápida, mais lenta, muda de ritmo, de intensidade, quando entra um solo melódico,
e em qual hora a orquestra toda começa a tocar.
- É muito importante escutar
a música. Não adianta fazer sequências aleatórias, que não vai combinar.
Imagine só: a música entra em um momento bem lento, bem introspectivo, e você
está fazendo aquelas sequências complicadas, com giros rápidos, deslocamentos
com quadril, braços enérgicos. Calma! Escute a melodia.
- Depois de fazer pequenos
improvisos com ritmos, treinar o ouvido e escutar músicas árabes, é hora de fazer um improviso estudado com uma música. Sugiro que comece com uma árabe moderna, pois é um
tipo de música com poucas variações. Escolha uma árabe moderna, escute uma vez
(ou mais, se quiser), prestando atenção no ritmo e na melodia. Só então faça o
seu improviso, sempre gravando, e em seguida assista ao seu improviso. O que
ficou bom? O que pode ser melhorado?
- O outro estágio é o
improviso total: você coloca uma música aleatória, e começa a dançar. Eu estou
nesse estágio. Coloco a minha câmera para gravar, seleciono uma música e vamos
embora! Depois eu assisto e faço uma análise do que ficou correto e do que não
combinou com a música. Vejo a minha postura, também. Alguns improvisos não
ficam bons, mas ultimamente a maioria já me agrada.
- No começo, eu só
improvisava músicas clássicas (justo as mais desafiadoras – hehehe), mas
descobri que é melhor improvisar músicas dos mais diferentes estilos. Exemplos:
taksim baladi, clássicas, instrumentais, lentas, árabes modernas, solos de
derbake, tareb e tradicionais. Se você quiser, também pode improvisar com
músicas ocidentais, o que é um outro desafio.
E aí, gostou da postagem? Se
quiser falar sobre a sua experiência em improviso, mande aqui o seu comentário.
Para finalizar, quero
indicar um livro muito bom para aprimorar a sua dança: “Direção e preparação
artística”, de Jorge Sabongi e Débora Sabongi, Edição dos autores, 2010. À
página 161 desse livro, os autores escrevem que:
“O improviso favorece e dá margem à criatividade. Desinibe e permite
que ocorra a maturidade artística. A audição torna-se apurada, a fantasia é
estimulada, cria desenvoltura, eliminando bloqueios. Inviabiliza o tédio e a
constância, estimulando a atividade criativa que é gerada intimamente. Quebra a
monotonia e coloca a bailarina diante de seu interior para que ela seja plena
quando dança.
Improvisar permite uma
constante busca, encontro e realização com nosso ‘eu desconhecido’. Nunca
sabemos que tipo de encanto diferenciado iremos criar.
Isso não é imitação de arte.
Pelo contrário: é arte pura.”





