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quarta-feira, 30 de junho de 2021

ESCOLHA DA MÚSICA E LEITURA MUSICAL

Como alunas ou professoras de dança do ventre e folclore árabe, nós sabemos que a nossa ferramenta é o nosso corpo, não é mesmo? Mas, além do nosso corpo, nós temos outra ferramenta muitíssimo importante: a música. Se o nosso corpo está dizendo uma coisa completamente desconectada da música, então algo está errado.

Vamos a um exemplo prático: por algum motivo, escolhemos executar um solo de derbake. Ora, este é um trabalho de percussão, concordam? Para se dançar um solo de derbake, é necessário usar movimentos como tremidos, batidas, etc. Ficaria muito estranho fazer uma apresentação de solo de derbake só com movimentos sinuosos. A música, neste caso, está pedindo batida de quadril, shimmies – ou seja, coisas fortes e bem marcadas.

Outro exemplo: existem aquelas sequências coringa, que muita gente conhece, não é mesmo? Mas será que essas sequências podem ser utilizadas indiscriminadamente em qualquer música? Obviamente que não. Você tentaria encaixar uma sequência clássica, repleta de chassês, giros, arabesques, em uma música própria para saidi? Pode até fazer, mas não vai dar certo.

Existe um texto muito bom do músico Hossam Ramzy, no qual ele diz:

“Percebi que a bailarina é o INSTRUMENTO MUSICAL FINAL DA ORQUESTRA. Ela é um instrumento que traduz o som musical num movimento tridimensional.”

A propósito, vale a pena ler o texto inteiro, pois além de explicar detalhadamente como funciona uma orquestra árabe, o Hossam Ramzy dá vários exercícios práticos para fazer uma leitura musical. O link do artigo segue abaixo:

https://www.hossamramzy.com/pt/articles/you-are-a-musical-instrument/

Recomendo também a leitura deste outro texto do Hossam:

https://www.hossamramzy.com/pt/articles/been-there-done-that/

Bem, até agora eu falei sobre LEITURA MUSICAL, ou seja, quando a bailarina consegue traduzir – através dos movimentos do corpo - o que a música está dizendo. Cada bailarina é única, então cada leitura musical é única. Mesmo assim, o público nota o que está condizente com a música e o que não está (a não ser que o público seja extremamente leigo). Se o público é conhecedor de  dança do ventre, aí fica mais evidente para ele se a bailarina está realmente dançando aquela música, ou não.

Vou falar agora sobre a ESCOLHA DA MÚSICA. Geralmente, escolhemos uma música por nossa afinidade com ela, porque nos apaixonamos por aquela música específica. Outras vezes, precisamos garimpar alguma música com determinadas características (exemplo: vamos concorrer com uma coreografia de dança khaleege, então é necessário descobrir uma música própria para esse folclore). O importante é que a gente ame a música que vamos coreografar ou improvisar, porque se não gostarmos dela fica difícil.

Bem, agora você já escolheu a sua música. Está certa de que escolheu a música apropriada? Um erro muito comum é dançar folclore saidi (também conhecida como dança do bastão ou da bengala), mas com música que não é do ritmo saidi. Outra pergunta: você vai usar acessórios? Neste caso, os acessórios combinam com a música escolhida? Um exemplo de erro que nunca vi, mas ficaria estranho: música própria para solo de derbake e véu de seda não combinam. E assim por diante...

Continuando: você já sabe que a sua música é apropriada para a dança que você tem em mente. O que mais você pode fazer? Descubra o nome da música, do artista e, se possível, a tradução (se for cantada). Se você não conseguir, de forma alguma, a tradução, talvez valha a pena contratar um tradutor. Se for extremamente impossível, e você não consiga nem a tradução da música, nem pagar alguém para traduzir, escute-a com atenção, e veja quais sentimentos ela desperta em você.

Outra coisa importante é ver quais ritmos são utilizados na música, e também quais instrumentos são usados. Se você tem dificuldade com ritmos árabes, recomendo que comece a estudar os ritmos principais, e aos poucos vá acrescentando novos ritmos. Quanto aos instrumentos, saber distingui-los é fundamental, pois os movimentos da bailarina estão diretamente ligados ao instrumento que está tocando. Lembre-se que a música árabe tem ritmo, melodia, harmonia e arranjos da orquestra. A música escolhida precisa ser destrinchada, de forma a entender cada parte dela. 

O entendimento da música árabe vem com muitos anos de estudo, não é da noite para o dia que você vai aprender tudo. Felizmente, hoje em dia existe muito material sobre o assunto, é só questão de pesquisar. E, se for necessário, peça ajuda a quem sabe mais que você. Com certeza, essa pessoa ficará feliz em ajudar.

Para finalizar esta matéria: escolha uma música que você ame de paixão, e essa paixão vai transparecer na sua dança! 



quinta-feira, 24 de junho de 2021

RUDOLF LABAN (1879-1958)

Rudolf Laban

Coreógrafo, bailarino, teatrólogo, considerado o maior teórico da dança do século XX, criador da “dança-teatro”. Era formado em Arquitetura, mas dedicou sua vida à dança. Pessoalmente, foi influenciado pela Teosofia, Sufismo e Hermetismo, e essas influências espirituais foram repassadas à sua teoria da dança. Laban procurava a forma natural como as pessoas se movem, e a sua dança tinha como objetivo a expressão das emoções humanas.

Segundo a Wikipedia, a importância da obra de Laban vai muito além da dança:

“As concepções expressas por Laban sobre o movimento humano causaram grande impacto e passaram a influenciar os trabalhos desenvolvidos em áreas tão diversas como Educação, Psicologia, Fonoaudiologia, Teatro, Dança, Música, Artes e Educação Física.”

E mais uma vez citando as palavras da Wikipedia:

“Suas teorias sobre o movimento e a coreografia estão entre os fundamentos principais da Dança Moderna e fazem parte de todas as abordagens contemporâneas da dança.

De acordo com o site Dança Movimento Terapia, mais uma vez constatamos a importância do trabalho de Laban:

“Todos os trabalhos que desenvolveu foram sobre os elementos que constituem o movimento e a sua utilização, dando ênfase aos aspectos psíquicos e fisiológicos que levam o ser humano ao movimento. A metodologia e a profundidade do seu estudo ajuda-nos a perceber o ser humano através do movimento nos mais diversos aspectos e pode ser aplicada nos diferentes setores da atividade humana, artes, educação, trabalho, psicologia, sociologia, etc.

Foi através do seu sistema de Análise do Movimento que muitos dos seus seguidores começaram a introduzir a Dança em contextos terapêuticos e Dança Educativa.”

Laban foi o autor de diversos livros: “Domínio do movimento”, “Corêutica” e “Dança educativa moderna”, e muitos outros. Conforme o site Slide Share, no livro Corêutica, Laban falou sobre a:

“... teoria da harmonia do espaço, uso do movimento/tempo no espaço, uso das dinâmicas do movimento. Na Corêutica, desenvolveu uma espécie de escala de movimentos. Nos exercícios da Corêutica, o dançarino pode praticar o movimento em 12 direções, assim como músicos praticam as notas musicais. As doze direções são definidas ao se dividir o espaço ao redor do dançarino em três planos: o plano vertical (ou plano da porta), o plano horizontal (ou plano da mesa) e o plano sagital (plano da roda). Quando os doze ângulos desses 3 planos imaginários são conectados com linhas, outros 20 pequenos triângulos são formados. Eles formam o Icosaedro.”

Os planos e as direções

Outro conceito importante na teoria de Laban é a Kinesfera. Conforme o Site da Secretaria de Educação do Paraná, a Kinesfera:

“... é tudo que podemos alcançar com todas as partes do corpo, perto ou longe, grande ou pequeno, com movimentos rápidos ou lentos etc. A Kinesfera ou Cinesfera é a esfera que delimita o limite natural do espaço pessoal, no entorno do corpo do ser movente. Esta esfera cerca o corpo esteja ele em movimento ou em imobilidade, e se mantém constante em relação ao corpo, sendo ‘carregada’ pelo corpo quando este se move.”

Segundo a Wikipedia:

“Laban utiliza as figuras geométricas para dar suporte à movimentação do ator-dançarino. Ele propõe a escala dimensional, respeitando a relação entre altura, largura e comprimento das figuras geométricas como o cubo, o tetraedro, o octaedro, o icosaedro e o dodecaedro; tais representações geométricas viabilizavam movimentos pl (vertical), (horizontal), (sagital)e nos níveis alto, médio e baixo. Dessa forma, ações dramáticas podem ser realizadas nas posições das vértices dessas figuras, bem como em suas diagonais, de forma que o ator atua ampliando a sua kinesfera, buscando uma limpeza gestual e organicidade, assim, ele também amplia seu espaço cênico.

Laban e a Kinesfera

Laban foi o criador da “Labonotação”, um método de notação coreográfica, utilizado até hoje no mundo inteiro. Segundo ele, o movimento era formado por quatro fatores: peso, fluxo, tempo e espaço. Nas palavras de Ciane Fernandes, a Labonotação:

“Descreve padrões de colocação de peso, mudanças em nível e direção no espaço, duração do movimento (tempo e ritmo), padrões de toque, orientação e padrões desenhados no chão. Em outras palavras, a Labonotação registra Jane colocando seus pés à sua frente no chão, gradualmente transferindo seu peso de sua pélvis para seus pés, colocando suas mãos na cadeira, elevando o torso, e as direções espaciais exatas e a duração de seu movimento.”

Além da Labonotação, outra contribuição da Laban foi a Labanálise, abaixo explicada por Ciane Fernandes:

“Expressividade/Forma é um método sistemático de observação, registro e análise dos aspectos qualitativos do movimento corporal. A qualidade do movimento pode ser pensada em termos de ‘como’ um movimento é realizado. Responde a questões do tipo: Como Jane saiu da cadeira? Ela foi rápida e forte em sua qualidade de movimento? Talvez ela tenha se jogado para  fora da cadeira com uma qualidade pesada? Veio de um impulso central ou com contratensões espaciais nos membros?(...) O movimento começou no torso que é a área central do corpo? O movimento começou nas mãos que é uma área periférica do corpo?”

Laban ensinando

Ainda sobre a Labanálise, a bailarina Brysa Mahaila, em seu livro “Os pilares da profissionalização em dança do ventre – volume II – Música, dramaticidade e expressão”, às páginas 98 e 99, cita os elementos da composição coreográfica:

“Espaço (onde)

A partir da noção de amplitude máxima do espaço cênico, ou global, a bailarina pode trazer linhas para a execução de figuras impressas nos movimentos. A noção de centro permite que sejam explorados diferentes direcionamentos (frente e trás, laterais direita e esquerda, diagonais frente e trás) e trajetórias (retilíneas ou curvilíneas). Ciente disso, a bailarina consegue explorar as possibilidades de espaço cênico de forma a melhor adaptar-se a ele. Isso propicia, por sua vez, a criação de figuras interessantes que valorizam o estilo de dança e a coreografia.

Corpo (que)

O corpo é a ferramenta em que as técnicas e as práticas corporais específicas se dão mediante treinamento na construção de um determinado vocabulário escolhido ou múltiplo. Portanto, pensar corpo sugere a aplicação dos mecanismos físico-funcionais e de expressividade que devem atuar juntos no estilo de dança ao qual a bailarina está se dedicando. Laban sugere empregar múltiplas possibilidades do movimento locomotor (simétricos e assimétricos, variações de eixos e poses) e, assim, explorar ao máximo o espaço cênico, movidos pela percepção da amplitude dos movimentos se dá pela cinesfera, assim como as trajetórias partem do corpo para o espaço.

Dinâmica (como)

A dinâmica está associada à qualidade do movimento, expressividade e fluência. Ela trata da energia, do esforço, dos impulsos para o mover-se em cena e subdivide-se, segundo estudos de laboanálise, em peso, foco, tempo, fluência. Esses elementos, por sua vez, possuem dois contrastes, forte e fraco. Importante também é lembrar que entre opostos existem infinidades de graduações.”

As direções que podem ser utilizadas no palco

Para finalizar esta postagem, deixo as palavras de Laban:

“Enquanto que os movimentos dos animais são instintivos e basicamente realizados em resposta à estimulação exterior, os do homem encontram-se caracterizados por qualidades humanas; por intermédio deles o homem se expressa e comunica algo de seu interior. Tem ele a faculdade de tomar consciência dos padrões que seus impulsos criam e de aprender a desenvolvê-los, remodela-los e usá-los.”

Laban e sua teoria


  

Fontes utilizadas:

Mahaila, Brysa. Os pilares da profissionalização em dança do ventre: música, dramaticidade e expressão, volume 2, 1ª edição. São Paulo: Kaleidoscópio de Ideias, 2017.

http://www.wikidanca.net/wiki/index.php/Rudolf_von_Laban

https://pt.wikipedia.org/wiki/Rudolf_Laban

https://dancoterapia.wordpress.com/dancoterapeutas/rudolf-laban/

https://pt.slideshare.net/tollens/rudolf-von-laban

http://www.arte.seed.pr.gov.br/modules/conteudo/conteudo.php?conteudo=262

http://www.wikidanca.net/wiki/index.php/Sistema_Laban/Bartenieff

 

  

quarta-feira, 16 de junho de 2021

A IMPORTÂNCIA DA RESILIÊNCIA

Aparentemente, o texto de hoje não tem nada a ver com dança do ventre, não é? Pois tem tudo a ver. Vamos, em primeiro lugar, às definições e explicações sobre resiliência, e em seguida explicarei em que contexto este tema é vital para a nossa arte. 

De acordo com o dicionário, a resiliência é a “capacidade de se recobrar facilmente ou se adaptar à má sorte ou às mudanças”. Segundo o site  Significados.com.br:

“Para definir o comportamento resiliente, é preciso levar em conta dois fatores: crise e superação. Diante de uma situação crítica ou adversa, pessoas podem manifestar diversos tipos de comportamento. A pessoa resiliente é aquela que compreende o problema que está diante dela e mobiliza recursos para superá-lo.

Isso não significa que o indivíduo resiliente seja invulnerável ou blindado. Não se trata de sempre sair ileso de uma situação crítica, mas de desenvolver a capacidade de lidar com a crise de forma eficiente, de modo a sair dela fortalecido.”

Conforme o site IBCcoaching.com.br, a forma com que lidamos com os problemas podem nos tornar pessoas melhores, se soubermos tirar as lições necessárias do que aconteceu:

“A resiliência demonstra se uma pessoa sabe ou não trabalhar bem sob pressão. É mais que educação, experiência, treinamento. O nível de resiliência de um indivíduo determina quem terá sucesso e quem se perderá pelo caminho. Quanto mais resiliente é alguém, mais forte e preparado ele estará para lidar com as adversidades da vida.

O sucesso é resultado de inúmeras quedas e derrotas, que o indivíduo pode ver como oportunidade de aprendizado e crescimento. E a resiliência é resultado de aprendizagens de vida, o que torna possível qualquer um desenvolvê-la. Indivíduos que se tornam resilientes possuem, ainda, a capacidade de acreditar em si mesmos e são mais confiantes para lidar com os desafios que surgem ao longo do caminho.”

Ainda segundo o site IBCcoaching.com.br, as pessoas muito resilientes têm as seguintes características: autoconfiança, persistência, otimismo, empatia, criatividade, flexibilidade e sabem lidar com as emoções

Já as pessoas pouco resilientes têm como características: dificuldade em tomar decisões, perda da autoconfiança, pouca criatividade, baixa inteligência emocional, pessimismo, emoções conflituosas e dificuldade nas relações sociais.

E existe uma forma de desenvolver a nossa resiliência? De acordo com o site Vittude, existem várias estratégias para isso, vou citar algumas: 

- Manter-se flexível.

- Ter atitude positiva.

- Fazer alguma atividade que libere a tensão (um exemplo: dança).

- Ter um senso de propósito.

- Manter hábitos saudáveis (um exemplo: fazer atividades físicas).

- Acreditar em si mesmo.

- Sorrir.

Para quem está começando ou já tem uma trajetória na dança do ventre, ser resiliente é muitíssimo importante. Para as iniciantes, a resiliência ajuda a perseverar diante das dificuldades encontradas em sala de aula, a enfrentar possíveis atritos com as colegas, a aceitar as críticas que a professora faz para melhorar a sua dança, etc. Já para quem tem um caminho percorrido na dança, a resiliência auxilia quando ocorrem as famosas “puxadas de tapete”, a não desanimar quando nos comparamos com outras dançarinas, a persistir quando vemos o quanto os gastos com a dança são altos, a enfrentar o preconceito que acompanha a nossa arte, etc.

Infelizmente, nestes muitos anos estudando e ensinando dança, passei por muitas situações tristes (quem nunca, não é mesmo?). Da mesma maneira, vi inúmeros episódios desagradáveis que ocorreram com outras bailarinas e professoras, e que levaram algumas delas a deixarem a dança – e eu sempre lamento quando alguém desiste de dançar. São tantos anos, sonhos, dinheiro investido! Por isso é que a resiliência é imprescindível: para que enfrentemos os problemas e aprendamos com eles. As dificuldades nunca deixarão de existir, mas se soubermos lidar com elas, nos tornaremos pessoas melhores, com toda certeza.

Para concluir, vou citar a frase de Augusto Cury:

“Se alguém lhe bloquear a porta, não gaste energia com o confronto. Procure as janelas.”

Fontes utilizadas:

https://www.significados.com.br/resiliencia/

https://www.ibccoaching.com.br/portal/artigos/o-que-e-resiliencia/

https://www.vittude.com/blog/resiliencia/