Como alunas ou professoras
de dança do ventre e folclore árabe, nós sabemos que a nossa ferramenta é o
nosso corpo, não é mesmo? Mas, além do nosso corpo, nós temos outra ferramenta
muitíssimo importante: a música. Se o nosso corpo está dizendo uma coisa completamente
desconectada da música, então algo está errado.
Vamos a um exemplo prático:
por algum motivo, escolhemos executar um solo de derbake. Ora, este é um
trabalho de percussão, concordam? Para se dançar um solo de derbake, é
necessário usar movimentos como tremidos, batidas, etc. Ficaria muito estranho
fazer uma apresentação de solo de derbake só com movimentos sinuosos. A música,
neste caso, está pedindo batida de quadril, shimmies – ou seja, coisas fortes e
bem marcadas.
Outro exemplo: existem
aquelas sequências coringa, que muita gente conhece, não é mesmo? Mas será que
essas sequências podem ser utilizadas indiscriminadamente em qualquer música?
Obviamente que não. Você tentaria encaixar uma sequência clássica, repleta de
chassês, giros, arabesques, em uma música própria para saidi? Pode até fazer,
mas não vai dar certo.
Existe um texto muito bom do
músico Hossam Ramzy, no qual ele diz:
“Percebi que a bailarina é o
INSTRUMENTO MUSICAL FINAL DA ORQUESTRA. Ela é um instrumento que traduz o som
musical num movimento tridimensional.”
A propósito, vale a pena ler
o texto inteiro, pois além de explicar detalhadamente como funciona uma
orquestra árabe, o Hossam Ramzy dá vários exercícios práticos para fazer uma
leitura musical. O link do artigo segue abaixo:
https://www.hossamramzy.com/pt/articles/you-are-a-musical-instrument/
Recomendo também a leitura
deste outro texto do Hossam:
https://www.hossamramzy.com/pt/articles/been-there-done-that/
Bem, até agora eu falei
sobre LEITURA MUSICAL, ou seja, quando a bailarina consegue traduzir – através
dos movimentos do corpo - o que a música está dizendo. Cada bailarina é única,
então cada leitura musical é única. Mesmo assim, o público nota o que está
condizente com a música e o que não está (a não ser que o público seja
extremamente leigo). Se o público é conhecedor de dança do ventre, aí fica mais evidente para
ele se a bailarina está realmente dançando aquela música, ou não.
Vou falar agora sobre a
ESCOLHA DA MÚSICA. Geralmente, escolhemos uma música por nossa afinidade com
ela, porque nos apaixonamos por aquela música específica. Outras vezes, precisamos
garimpar alguma música com determinadas características (exemplo: vamos
concorrer com uma coreografia de dança khaleege, então é necessário descobrir
uma música própria para esse folclore). O importante é que a gente ame a música
que vamos coreografar ou improvisar, porque se não gostarmos dela fica difícil.
Bem, agora você já escolheu
a sua música. Está certa de que escolheu a música apropriada? Um erro muito
comum é dançar folclore saidi (também conhecida como dança do bastão ou da
bengala), mas com música que não é do ritmo saidi. Outra pergunta: você vai
usar acessórios? Neste caso, os acessórios combinam com a música escolhida? Um
exemplo de erro que nunca vi, mas ficaria estranho: música própria para solo de derbake e véu de seda não
combinam. E assim por diante...
Continuando: você já sabe
que a sua música é apropriada para a dança que você tem em mente. O que mais
você pode fazer? Descubra o nome da música, do artista e, se possível, a
tradução (se for cantada). Se você não conseguir, de forma alguma, a tradução,
talvez valha a pena contratar um tradutor. Se for extremamente impossível, e
você não consiga nem a tradução da música, nem pagar alguém para traduzir,
escute-a com atenção, e veja quais sentimentos ela desperta em você.
Outra coisa importante é ver
quais ritmos são utilizados na música, e também quais instrumentos são usados.
Se você tem dificuldade com ritmos árabes, recomendo que comece a estudar os
ritmos principais, e aos poucos vá acrescentando novos ritmos. Quanto aos
instrumentos, saber distingui-los é fundamental, pois os movimentos da
bailarina estão diretamente ligados ao instrumento que está tocando. Lembre-se
que a música árabe tem ritmo, melodia, harmonia e arranjos da orquestra. A música escolhida precisa ser destrinchada, de forma a entender cada parte dela.
O entendimento da música
árabe vem com muitos anos de estudo, não é da noite para o dia que você vai
aprender tudo. Felizmente, hoje em dia existe muito material sobre o assunto, é
só questão de pesquisar. E, se for necessário, peça ajuda a quem sabe mais que
você. Com certeza, essa pessoa ficará feliz em ajudar.
Para finalizar esta matéria: escolha uma música que você ame de paixão, e essa paixão vai transparecer na sua dança!







