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domingo, 28 de junho de 2020

A ORIGEM DA DANÇA DA ESPADA


Hoje vou falar sobre um assunto cercado de muitas informações incorretas: a origem da dança da espada. Existem diversas teses sobre o assunto, e não vou perder tempo com as hipóteses fantasiosas que existem por aí.

No site Shira.net (que é muito confiável), ela diz que é uma lenda pensar que a dança da espada “vem das mulheres que acompanharam os homens em guerras e os divertiram em suas tendas à noite”, e explica:

“Não há dança generalizada no Oriente Médio envolvendo o equilíbrio de uma espada na cabeça de uma dançarina. A principal evidência histórica que levou as dançarinas modernas a tratar a espada como um suporte folclórico vem de uma maravilhosa pintura do artista orientalista Jean-Léon Gérôme, estimada em 1876. Essa pintura inspirou muitos dançarinos modernos do mundo todo a equilibrar espadas em suas cabeças. Segundo pesquisas de Yasmin Henkesh, Gérôme criou várias pinturas com danças de espadas semelhantes. Pelo menos duas dançarinas nos EUA (Leona Wood e Jamila Salimpour) afirmam ter “inventado” a dança com uma espada, inspiradas nesta pintura. Outras relataram que foram inspiradas a fazer o balanceamento com base no conhecimento dessa pintura, sem perceber que outras dançarinas dos Estados Unidos estavam fazendo o mesmo.”


A Shira também diz que provavelmente alguma dançarina de fato executou essa dança da espada e foi retratada por Gérôme, mas é bom lembrar que estamos falando de pintura orientalista, que era um misto de realidade e ficção. Ou vocês acham que os pintores ocidentais tinham liberdade para entrar nos haréns e retratar as mulheres, como está retratado em algumas pinturas orientalistas?

Consegui localizar 3 trabalhos do Gerome com dançarinas e espada, sendo uma pintura, uma gravura e um desenho:


   ("Sabre dance in a cafe", 1875)


   ("The sword dance at a Pacha's", 1881)

  Se vocês prestarem atenção, verão que as duas bailarinas das imagens acima são iguais, e provavelmente surgiram a partir do esboço abaixo:


Na maior parte das postagens disponíveis na internet, é mais frequentemente citada a Jamila Salimpour (a criadora da dança tribal) como a primeira a dançar com a espada, e quase não falam sobre a Leona Wood.

No site da Shaina Nur, ela escreve que:

“Inicialmente, a versão feminina tinha a finalidade, por meio do equilíbrio da espada na cabeça, de chamar a atenção das pessoas e atraí-las para comprar suas mercadorias. Mais tarde, desenvolveu-se um estilo predominantemente clássico de dança que teve sua origem nos Estados Unidos através da famosa bailarina Jamila. Conta-se que um árabe muito rico, em uma visita à Califórnia, ficou encantado ao ver sua dança e a presenteou com uma espada de ouro. Solicitou então que fizesse uma apresentação para ele envolvendo o objeto. Jamila realizou um número muito bonito que mesclava equilíbrio com a espada e diversos movimentos sinuosos e de suspense. Ela realizou um cambrê apoiando a espada no chão e, ao retornar, o instrumento ficou preso ao piso de madeira. Perante os olhos do público, tudo fora planejado em sua dança e nesse dia, Jamila foi ovacionada. Desde então, a Dança da Espada tornou-se um sucesso entre as bailarinas americanas invadindo o mundo árabe por volta dos anos 60.”





                                    (Jamila Salimpour)


Vale a pena lembrar de outra dançarina famosa, Shafiqa El-Copta, que introduziu acessórios de equilíbrio na dança. Sobre ela, postei um texto em 17 de maio de 2020, intitulado “Dançarinas precursoras”. A propósito, existem várias danças de equilíbrio, como a dança do jarro (Raks al Balaas), a dança da bandeja marroquina (Raks al Seniyya) e a dança do candelabro (Raks al Shamadan).

A dança da espada é uma das mais apreciadas pelo público, pois a bailarina pode demonstrar toda a sua habilidade e controle. Pode ser usada qualquer música, desde as lentas até as ocidentais. A bailarina pode entrar com uma, duas e até três espadas. Outra possibilidade é entrar com um véu escondendo a espada, dançar com o véu e só depois continuar com a espada.

Pontos de equilíbrio: a espada pode ser equilibrada sobre a cabeça (o ponto mais desafiador), o queixo, o ombro, o antebraço, a mão, o punho, o busto, as laterais da cintura, o abdômen, atrás da cintura, a perna e o pé.

Se você gosta desse acessório, aconselho o estudo de dois DVDs didáticos, muito bons: um da Shalimar Mattar e outro da Ju Marconato . Gostou desta postagem? Deixe aqui seu comentário. Um grande abraço a todos!

segunda-feira, 22 de junho de 2020

RESPONDENDO A TRÊS PERGUNTAS

A postagem de hoje é uma sugestão da Paula Oliveira. Ela me pediu para falar sobre três coisas:

1 ) O início da carreira das bailarinas.
2 ) O medo de não aprender.
3 ) Quando elas descobriram que dançavam bem. 

Bastante coisa, não é mesmo? Bem, para responder a um assunto tão vasto, conversei bastante com a minha professora, Linda Hathor, e ela me deu vários esclarecimentos importantes. Obrigada, Linda, pela ajuda! E agradeço à Paula pela sugestão.

Antes de tudo, peço a você que leia as postagens abaixo, pois elas têm muito a ver com o assunto:

- “O que te limita?” – de 24/10/2019.
- “Todas dizem a mesma coisa: ‘eu sou muito dura’” – de 04/11/2019.
- “Você quer resultados? Então dedique-se” – de 01/03/2020.
- “Desafio é igual a crescimento” – de 19/03/2020.
- “A dança após os 40” – de 06/06/2020.

Já leu as postagens? Então, vamos lá. Vou falar rapidamente sobre as duas primeiras perguntas, e explicar mais detalhadamente a terceira. 

1 ) O início da carreira das bailarinas - Se conversarmos com as profissionais da dança do ventre, veremos que elas começaram a fazer aulas por diversos motivos: pelo amor à dança do ventre, pela busca da saúde e qualidade de vida, para resgatar a autoestima e a feminilidade, e muitas outras razões. No meu caso em particular, eu fui aconselhada a fazer uma atividade física, e optei pela dança, pois não tinha interesse em fazer musculação. Ao lado do meu trabalho, existia uma academia, e fui atraída pela faixa “aulas de dança do ventre”. E tudo começou assim...

2 ) O medo de não aprender - Quem nunca passou por isso? Todo mundo!!! Eu tenho uma frase que falo sempre para as minhas alunas:

“Técnica pode ser ensinada e aprendida”. A técnica é um dos tripés da dança do ventre. Se a professora conhece a técnica e sabe transmitir, e a aluna está disposta a aprender, o resultado virá, com certeza. Cada aluna aprende no seu ritmo, isso é normal, e não adianta tentar queimar etapas. Enquanto você aprende, curta o caminho que está traçando na dança.

3 ) Quando elas descobriram que dançavam bem - Como se faz para saber se alguém dança bem? Bem, uma bailarina perfeita é aquela que se destaca nas três áreas cruciais:

- Qualidade técnica;
- Expressividade;
- Leitura musical.

(Nota: preste atenção que eu não falei que a boa bailarina é aquela mais linda, mais jovem ou mais magra. Isso é aparência exterior. O artista é pura essência interior.)

Bem, não é toda bailarina que se destaca na qualidade, expressividade e leitura musical. Às vezes, ela é mais expressiva que possuidora de uma técnica apurada. Mesmo assim, você pode gostar daquela dançarina. É aí que entram duas coisas interessantes:

A ) O estilo pessoal da dançarina – Às vezes você gosta de determinada bailarina, porque aprecia o estilo dela. Na minha opinião, existem duas bailarinas brasileiras com um estilo único. Uma é Esmeralda Colabone, a outra é Maíse Ribeiro. Elas criaram seus estilos próprios, e isso é muito bacana.

B ) O gosto de cada um – Todas as pessoas têm suas preferências e suas aversões. Uma disputa bem acirrada, atualmente, no mundo bellydance, é aquela questão da “verdadeira dança do ventre”. Tem bailarina (e  até mesmo músico) criticando algumas dançarinas, com o argumento de que elas não dançam, só batem cabelo e fazem cambrês violentos. Eu acho que tem espaço para todo mundo, desde quem busca as raízes da dança do ventre, através de uma pesquisa bem fundamentada (aqui vale a pena citar o trabalho muito bonito da Luciana Midlej e da Melinda James), até quem traz algo novo para a nossa dança.

Ainda sobre o conceito de “dançar bem”. Dançar bem para quem? Para quem você dança, afinal?

- Se for só para você, para o seu bem-estar, para o seu crescimento pessoal: então fique tranquila. A única pessoa a quem você deve satisfação é você mesma. Agora, se você quer verdadeiramente que a sua dança evolua, vai ter de aceitar feedback da sua professora.

- Você dança para sua família, amigos: provavelmente, eles vão achar tudo lindo e maravilhoso.

- Seu interesse é a profissionalização, dançar em eventos, se apresentar em festivais, conseguir um certificado, etc. Isso significa que você vai precisar estudar muito, por vários anos. E é muito bom, porque a sua dança vai crescer bastante. Quanto mais a gente estuda, melhor ficam a nossa técnica, expressividade e leitura musical. Você vai ter de aceitar inúmeros feedbacks, alguns podem até magoar um pouco, mas pense que os profissionais que irão avaliar você fazem isso com o objetivo de ajudar no seu crescimento como artista.

- Você quer uma carreira internacional? A exigência será ainda maior, e você vai precisar lutar mais para se manter em evidência.

Qualquer que seja o seu objetivo (ser dançarina amadora ou profissional), nunca deixe de se divertir e se encantar com a dança que você escolheu. Isso não quer dizer que tudo vai ser do seu jeito. A professora chamou a sua atenção na aula? Ela está fazendo o trabalho dela. Você participou de um campeonato e não se classificou? Calma, haverá uma próxima vez. As pessoas criticam você por não seguir um padrão artístico ou estético? Mostre a sua verdade, independente do que as outras pessoas possam dizer. O seu caminho não precisa necessariamente ser igual ao caminho do outro. 

Para finalizar, quero citar duas frases de Louis L’Amour:

“A melhor de todas as coisas é aprender. O dinheiro pode ser perdido ou roubado, a saúde e força podem falhar, mas o que você dedicou à mente é seu para sempre.”

“O caminho é o que importa, não o seu fim. Se viajar depressa demais, vai perder aquilo que o fez viajar.”


segunda-feira, 15 de junho de 2020

A IMPORTÂNCIA DO AQUECIMENTO NO FRIO

O texto de hoje foi sugerido pela Maria Cristina do Amaral. Obrigada pela sugestão, querida! Ela pediu que eu falasse sobre a importância do aquecimento no frio. Vamos lá?

Para quem faz atividade física, é um grande desafio não deixar a peteca cair na época do frio. Muitas pessoas abandonam os exercícios no outono/inverno, esquecendo que o nosso corpo precisa se mexer o ano inteiro. Além disso, na época do frio, a maioria das pessoas acaba engordando, porque o nosso organismo precisa de mais calorias. Se você passar o outono/inverno sem se exercitar e só comendo, o resultado será previsível: quilos extras na balança. Daí chega o verão e todo mundo corre para a academia.

Tendo dito tudo isso, acho que está claro que a dança também é para ser feita durante o outono e o inverno, não está? Então, nesta época, precisamos ter um cuidado extra na hora de nos exercitarmos, para não adquirirmos uma lesão. Não podemos começar a nos exercitar se o nosso corpo não estiver preparado, e as ferramentas usadas para isso são o aquecimento e o alongamento, e existe uma diferença entre elas.

O aquecimento tem por objetivo preparar o corpo para a atividade física, através do aumento da temperatura corporal e da ativação dos sistemas cardiovascular e pulmonar. Se o corpo estiver frio, ele pode se machucar, dependendo do tipo de movimento. O aquecimento evita e previne as lesões. Existem dois tipos de aquecimento, o geral (a ser feito primeiro) e o específico (a ser feito em seguida). No site wikiHow, eles explicam detalhadamente, e com imagens, quais são os exercícios de aquecimento que podem ser feitos antes da dança. O endereço do link é:


Na dança do ventre, existe uma técnica que é ótima para aquecer: fazer shimmy. Se você fizer shimmy, sem parar, por uns 5 a 10 minutos, pode ter certeza  que vai aquecer e até suar.

O alongamento deve ser feito após o aquecimento, e serve para esticar as fibras musculares, com consequente aumento da flexibilidade. Com uma maior flexibilidade, diminuem as chances de lesões. O ideal seria que todas as pessoas fizessem alongamento diariamente, de forma a impedir que o corpo fique “travado”. No  site wikiHow, também tem uma explicação bem detalhada sobre exercícios de alongamento:


No alongamento, devemos movimentar os músculos do pescoço, braços, coluna, quadris, pernas. Esses grupos musculares devem ser alongados para todos os lados: frente-atrás-direita-esquerda. Após o aquecimento e o alongamento, podemos começar a dançar. Concluída a atividade  física, faz-se um relaxamento, para que o corpo compreenda que é hora de descansar.

Em relação à nossa dança, geralmente não fazemos movimentos muito bruscos e nem de impacto. Existem alguns movimentos, tais como a queda turca, que eu nem me atrevo a fazer, e muito menos ensinar. É possível fazer uma dança muito bonita, sem grandes malabarismos e movimentos de impacto. Se você conhece e sabe executar a técnica da dança do ventre, respeitando a música, já está no caminho certo. Porém, se você quer  fazer uma apresentação com quedas, cambrês violentos, jogadas fortes com a cabeça, reflita:

1º, o seu corpo tem condições de fazer esse tipo de movimento?

2º, existe uma forma de fazer o movimento sem se machucar?

É bom estar consciente que a repetição de alguns movimentos podem nos machucar, e que isso pode até prejudicar a nossa dança no futuro. Espero que a postagem tenha sido útil. Se cuidem, para que nunca precisem parar de dançar por causa de  algum movimento brusco ou mal executado. Abraço a todos!


Fontes:



sexta-feira, 12 de junho de 2020

MINHAS BAILARINAS PREFERIDAS


Hoje eu vou falar sobre as minhas bailarinas preferidas da Era de Ouro da dança do ventre: Tahia Carioca e Nagwa Fouad. Existem diversas dançarinas atuais que são maravilhosas, mas as bailarinas antigas são uma referência muito importante para todas nós. O critério desta postagem é puramente afetivo: eu simplesmente adoro as duas!

TAHIA CARIOCA nasceu no Egito em 1919, com o nome de Badaweya Mohamed Kareem Al Nirani. Tahia queria ser dançarina, mas como sua família não deixava, ela foi para o Cairo, onde estudou dança na escola Ivanova.



Na década de 1930, ela conheceu Badia Masabni, a proprietária do Casino Opera. Badia treinou-a e no início colocou-a como dançarina do coro, mas mais tarde ela se tornou solista. No Casino de Badia, executavam-se diversas danças, não apenas a dança oriental, e Tahia aprendeu o samba, vindo daí o nome “Carioca”.

Ela atuou em 120 filmes egípcios, e para nossa sorte existem muitos registros da sua dança. Era uma artista completa: dançava, cantava e atuava. Foi muito famosa na sua época, e até hoje é considerada uma das maiores bailarinas de todos os tempos. A partir de 1963, dedicou-se ao teatro. Teve uma vida pessoal agitada: casou-se 14 vezes, envolveu-se em protestos políticos, foi presa, converteu-se ao Islamismo. Faleceu em 1999.

Segundo o blog Cadernos de Dança, a dança dela é delicada e graciosa, e tem as seguintes características técnicas:

“Tahia Carioca utilizava passos pequenos, sem as marcações fortes que estamos acostumadas a ver nas bailarinas modernas. O material de estudo desta bailarina é de relativo fácil acesso, já que participou de inúmeros filmes e muitos são encontrados na internet.
Trabalhava oitos e camelos, além de meia lua para frente com o quadril. Os braços ficam posicionados na altura do busto ou juntos, acima da cabeça – nunca extremamente alongados, sempre em uma posição bastante natural. Um detalhe interessante: usava variações de altura, explorando muito as alternâncias de plano (baixo e médio) com o recurso de flexão de joelhos.
Desta forma, sua dança não fica apenas concentrada na altura dos quadris, como é comum ver por aí.”
  


Por que eu adoro a Tahia: além de sua dança ser linda e impecável, eu acho a expressão dela de uma doçura incrível. A Tahia era extremamente feminina, e tinha um olhar meio tímido que me encanta. Era também uma mulher belíssima.

NAGWA FOUAD também era egípcia e nasceu em 1943, com o nome de Awatef Mohammed El Agamy. Aos 16 já dançava em festas de família, e sua carreira vai das décadas de 50 a 90. Estudou na Mazloum Dance School e dançou no grupo de folclore ocidental National Dance Troupe. Nagwa dançava não apenas dança do ventre e folclore árabe, mas também balé, jazz e dança contemporânea, e usava seus conhecimentos nessas danças para fazer fusões muito criativas.  



Assim como Tahia Carioca, era uma artista de múltiplos talentos: dançava, cantava e atuava, e existem diversos vídeos seus no Youtube. Participou de mais de 350 filmes, e também foi produtora de cinema. Tinha sua banda e grupo próprio, todos da melhor qualidade, e eles excursionam pelo Egito, mostrando a sua arte. Além disso, Nagwa Fouad se apresentou na Europa, Estados Unidos e Ásia e fundou uma escola de dança do ventre em Nova Iorque. 

Segundo o blog da Shaina Nur, sua dança caracterizava-se pela:

“... postura alongada, embora com braços relaxados e como prefere as ondulações como oitos e redondos emendados com pivôs. Apesar disso, quando utiliza batidas prefere fazê-las com muita intensidade.”



Por que eu adoro a Nagwa: ela era uma mulher lindíssima, carismática, empoderada e quando dançava mostrava o seu sorriso mais alegre. Eu acho as apresentações dela muito glamurosas, era a bailarina que “chegava para brilhar”.

E quanto a você, quais são as suas bailarinas preferidas?

 .
Fontes:

“Os pilares da profissionalização em dança do ventre”, volume I, História e Folclore, Brysa Mahaila, São Paulo, Editora Kaleidoscópio de Ideias, 2016.


quarta-feira, 10 de junho de 2020

DIFERENÇAS ENTRE OS ESTILOS EGÍPCIO E TURCO


A postagem abaixo foi uma ideia da Professora Camila Nickel. Obrigada pela sugestão, Camila!

Estilo egípcio

Como já disse em outros textos neste blog, não se sabe quando nem onde a dança do ventre surgiu. Quando os franceses chegaram ao Egito em 1798, encontraram as Ghawazee e as Awalim, então presume-se que o berço da dança do ventre foi o Egito.

Com a chegada dos franceses e, mais tarde, dos ingleses, essas dançarinas começaram a se apresentar para os estrangeiros e para os egípcios abastados. Uma das pessoas mais importantes para a dança do ventre, entre os anos 1926 e 1950, foi Badia Masabni. Ela teve várias casas de espetáculo, com diversas bailarinas famosas no seu grupo.

Como forma de atrair o público mais refinado e exigente, Badia fez diversas inovações, como a introdução do balé clássico, o uso dos deslocamentos e das danças coreografadas. Esta época é conhecida como a Era de Ouro da dança do ventre, e surgem as bailarinas que são referência até hoje: Tahia Carioca, Naima Akef, Samia Gamal, Nagwa Fouad, Fifi Abdo, Souhair Zaki e muitas outras.

Surge então o chamado estilo egípcio, que se caracteriza pela precisão de movimentos, postura elegante, excelente controle do quadril, braços suaves, influência do balé clássico, poucos deslocamentos, ênfase na interpretação da música. O estilo egípcio é a grande referência em dança do ventre, e bailarinas do mundo todo vão ao Egito para estudar e se aperfeiçoar. De acordo com a bailarina Brysa Mahaila, na página 102 do livro “Os pilares da profissionalização em dança do ventre – volume I – História e folclore”:

“O estilo egípcio é marcado pela interpretação e pela delicadeza de suas bailarinas. Os movimentos da dança e a expressão representam as letras ou a sonoridade da música, transmitindo diferentes sentimentos de forma muito fiel e, portanto, intensa. A técnica é executada com grande precisão: a bailarina movimenta de forma impecável o quadril, executa linhas sinuosas e tremidos sem esforço, fazendo o espectador acreditar na facilidade e naturalidade de cada expressão corporal. Entre as bailarinas da atualidade genuinamente egípcias em sua técnica e expressividade estão: Lucy, Dina, Randa Kamel, Dandash, Aziza, para citar algumas em plena atividade, gozando de sucesso.”


                             (Randa Kamel)


Estilo turco

Antes de falar sobre o estilo turco, é bom explicar que a Turquia foi fundada em 1922 na Anatólia, uma região originalmente ocupada pelos gregos. Os turcos eram muçulmanos, e muitos gregos, que eram geralmente cristãos ortodoxos, foram embora devido às perseguições religiosas. Mesmo assim, alguns ficaram, e influenciaram os turcos, conforme escreveu a bailarina Cris Antoniadis:

"A Turquia sucedeu o Império Otomano, que por sua vez sucedeu o apogeu cultural do Império Árabe, um período de grande produção cultural chamado a idade de ouro, ocorrido entre os séculos VII e XII, e também o Império Bizantino, cuja altura era a intersecção entre as culturas gregas da antiguidade clássica e as culturas orientais. Aspectos da cultura musical e da dança destes povos foram absorvidos pelos turcos e esse grande caldeirão que inclui em boa parte a cultura helênica e a árabe e também aspectos das culturas persas e mongóis deram origem ao que denominamos hoje de cultura turca."

O estilo turco utiliza os mesmos passos e técnicas do estilo egípcio, mas sofreu  a  influência de danças folclóricas turcas, inclusive das danças das ciganas da Turquia. Muitas bailarinas turcas têm origem cigana. Segundo Brysa Mahaila, à página 103 do livro já citado acima:

“O atual estilo turco de dança do ventre é muito mais alegre e expansivo. Alguns nomes conhecidos entre as bailarinas da Turquia são Nesrin Topkapi, Princess Banu, Sema Yildiz, Asena e Didem, esta última a mais famosa da atualidade.”


                                            (Didem)

O estilo turco é mais forte e enérgico, com marcações para cima do quadril. Como no estilo libanês, a bailarina turca tem o tronco um pouco inclinado para trás, com projeção do quadril à frente. São usados movimentos mais fortes, como os cambrês e a queda turca. Também são feitas as movimentações no chão (floor work). Existem dois ritmos que são bastante utilizados neste estilo: Chifiteteli e Karsilama. Toda bailarina turca precisa dominar a arte de dançar tocando snujs. No blogspot Jami Princess, achei uma coisa bem interessante:

“A maneira de tocar os snujs no estilo turco é diferente do estilo árabe. Por exemplo, o padrão mais básico é contado entre: 1-2-3; no estilo árabe, se você estiver certo, seguirá este padrão: direita-esquerda-direita. No estilo turco, esse padrão é usado: direita-direita-esquerda. Talvez neste padrão simples, a diferença seja pequena, mas há um impacto definido ao jogar com padrões maias complicados.”

E quanto a nós, qual é o nosso estilo? Eu penso que somos a soma de todos os nossos estudos. As nossas maiores influências foram os nossos professores de aulas regulares, que por sua vez também foram influenciados pelos seus mestres. Em seguida, estão os nossos estudos extras, feitos em workshops com outros dançarinos, e também com vídeos didáticos e livros. A partir daí, vamos formando nosso estilo próprio. O importante é que continuemos sempre a estudar, para que a nossa dança (seja ela influenciada pelo estilo egípcio, turco, americano, libanês, argentino, etc.), seja cada vez mais pessoal, evitando os rótulos e as cópias. Dance e seja feliz!


Fontes:

“Os pilares da profissionalização em dança do ventre – volume I – História e folclore”, Brysa Mahaila, São Paulo, Editora Kaleidoscópio de Ideias, 2016.

sábado, 6 de junho de 2020

A DANÇA APÓS OS 40


Esta postagem foi sugerida pela Paula Oliveira e pela Simone Ferreira. Obrigada, meninas!

O tema de hoje tem a ver comigo, pois comecei a fazer dança do ventre quando estava prestes a fazer 35 anos. Atualmente, estou com 52 anos, e posso dizer que a dança do ventre é para mulheres de qualquer idade.

Existe um preconceito muito grande em relação à idade em que começamos um novo aprendizado. Por que isso acontece? É que, geralmente, as crianças têm muita facilidade para aprender, e os adultos têm menos. Se quisermos, por exemplo, que os nossos filhos sejam exímios músicos ou dançarinos, é conveniente que eles comecem a tomar lições cedo. O cérebro das crianças é uma verdadeira esponja, que absorve o conhecimento rapidamente.

Infelizmente, a maioria das pessoas em nosso país não teve essa oportunidade na infância. As minhas alunas, em sua maioria, nunca fizeram aulas de dança. Algumas delas são adolescentes, mas a maior parte tem 30, 40 e até 50 anos. As mais velhas sempre me perguntam, antes de começar a fazer aulas, se irão aprender a dançar. 

A respeito disso, é conveniente dividir as dançarinas em quatro grupos:

- Quem dança apenas por hobby, para diminuir o stress diário ou apenas para se divertir. Essas bailarinas irão se beneficiar com todas as vantagens da dança do ventre, com toda certeza. A dança faz bem.

- As bailarinas amadoras, que podem (ou não) participar dos espetáculos da escola. Elas terão os benefícios, e também uma dose de desafio na vida, principalmente se participarem das apresentações.

- As profissionais (quem dança profissionalmente, professoras, coreógrafas, etc.). São bem exigidas, tanto no físico, quanto na técnica e no conhecimento teórico. Encaram diversos desafios, e isso se traduz em um grande crescimento pessoal. Embora a grande maioria dos estabelecimentos comerciais que apresentam dança do ventre optem por escolher mulheres jovens, ainda assim é possível dançar profissionalmente, em festivais, espetáculos, mostras folclóricas, etc. Inclusive hoje já existem categorias por faixa etária, como é feito no Mercado Persa.

- As bailarinas com carreira no exterior. Aqui já é um pouco complicado para quem inicia tarde na dança, porque os contratantes escolhem dançarinas talentosas, com no máximo 29, 30 anos de idade. Só que difícil não quer dizer impossível. Quem sabe um dia alguma mulher mais velha não surja e inicie uma carreira internacional de sucesso? Quem sabe algum contratante não quebre esse paradigma? 

A minha escola foi fundada em 2007, ou seja, há 13 anos. Nesses anos, pude observar mulheres mais velhas com excelente flexibilidade, coordenação motora e com facilidade de aprendizado. E, às vezes, alunas mais jovens com dificuldades. É tudo muito pessoal, depende muito de cada aluna. Além disso, é interessante salientar que atualmente, uma mulher com 40, 50 anos, está na flor da idade. Não é como antigamente, quando uma mulher com 40 anos já era considerada uma pessoa idosa. 

No fim das contas, o que vai determinar o sucesso do aprendizado é a soma de 5 fatores: persistência, dedicação, foco, resiliência e determinação. São poucas crianças que possuem todos esses requisitos, e é por isso que muitas delas desistem das aulas de dança, música, etc. Já uma pessoa adulta tem mais chance de ser bem sucedida e aprender, se realmente quiser.

Para finalizar, peço que você leia o texto “Benefícios da dança do ventre”, que postei em 26 de maio de 2020. No texto, você verá que, independente da idade, toda mulher terá muitas vantagens em praticar dança do ventre. E lembre-se de duas coisas: 

1ª, Nunca é tarde para realizar um sonho.
2ª, Você não deve satisfação a ninguém, só a você mesma. 

Dance e seja feliz!






segunda-feira, 1 de junho de 2020

OS GIROS NA DANÇA DO VENTRE


Esta postagem foi solicitada pela Camila Acosta Gonçalves, e é sobre um elemento muito importante em todas as danças: o giro. Em um DVD da Lulu Hartenbach, ela dizia que os dois assuntos mais temidos na dança do ventre são os giros e os shimmies. E por que os giros são tão temidos? Basicamente, porque é uma questão de equilíbrio e foco. Muitas pessoas, principalmente quem tem labirintite, fica com tonturas durante o giro. Mas o giro é técnica, e como técnica, pode ser aprendido.

Se o mundo fosse um lugar ideal, toda bellydancer teria estudado balé clássico na infância. Como isso geralmente não acontece, o ideal seria combinar aulas de dança do ventre e de balé. Se não isso for possível, é necessário estudar bastante para aprimorar a dança. Pela minha experiência pessoal (tanto de bailarina quanto de professora), posso dizer com certeza que giro é treino, e vai ficando cada vez mais fácil, quanto mais se treina.

Em primeiro lugar, uma pergunta: por que girar? Os giros são utilizados para várias coisas - deslocar no espaço, dar dinamismo à dança, mudar direções e unir movimentos. Imagine uma apresentação de dança do ventre em que a bailarina ficasse o tempo todo de frente para o público. Talvez ficasse um pouco maçante, não é mesmo? A segunda pergunta é: quando girar? Na maioria das vezes, giramos durante os momentos acelerados, mas os giros podem ser feitos a qualquer momento, desde que combinem com a música, é claro.

Para começar a explicação da técnica de giro, vamos falar de FOCO. Se você tiver um espelho em casa, treine o foco desta forma: olhe para o espelho, fixando os seus olhos. Em seguida, vá girando pela sua direita, mas mantenha a cabeça fixa no espelho. Quando o seu corpo estiver de costas, volte a cabeça antes do corpo e continue a girar, sempre buscando os seus olhos no espelho. A cabeça é sempre a última a sair e a primeira a chegar. Faça o mesmo girando pela esquerda. Esse giro é no eixo, ou seja, o seu corpo gira em um ponto fixo. Caso você não tenha espelho, marque um ponto na parede e faça foco nesse ponto (você também pode fixar o olhar em um objeto, na mão, no cotovelo ou no ombro). Caso você ainda não saiba girar, vá por partes. Primeiro, gire com os pés no chão, com pausa a cada giro. Depois, vá aumentando a quantidade de giros, sem fazer pausas. Por fim, faça o giro em ½ ponta alta.

Quando o giro é feito em ½ ponta alta, começa uma nova dificuldade, que é manter o EQUILÍBRIO. Para isso, mantenha os quadris encaixados, abdômen contraído, coluna reta e joelhos mais alongados. Evite a oscilação de altura durante os giros, e lembre sempre de fazer foco, para não ficar tonta. Segundo Jorge e Débora Sabongi, na página 150 do livro “Direção e preparação artística”, entre as diversas dificuldades técnicas estão os:

“Problemas no eixo de equilíbrio, acarretando giros imperfeitos e deslocamentos desgovernados.”

Na página 151, eles dão algumas dicas para alinhar postura e movimentos, entre elas consta essa:

“Treine giros para manter seu equilíbrio. Nada pior que desabar na frente do público por não ter conseguido sustentar o equilíbrio...”

Os giros podem ser feitos em DIFERENTES NÍVEIS: com os pés no chão, em ½ ponta alta ou, em alguns casos, fazendo pliê com os joelhos. Os giros também podem ser NO EIXO ou COM DESLOCAMENTO. Além disso, podem ser feitos com 1, 2, 3 ou 4 transferências de peso, neste caso pratique com os pés no chão e usando o impulso do tronco e  dos braços:

- Giro em 4 apoios – abre a perna direita, junta a perna esquerda com o corpo de costas, abre novamente a perna direita, virando de frente, junta a perna esquerda. Repete toda a sequência para o lado esquerdo.
- Giros em 3 apoios – abre a perna direita, junta a perna esquerda com o corpo de costas, continua o giro na perna esquerda, de frente abre perna direita e termina com perna esquerda alongada na lateral. Repete toda a sequência para o lado esquerdo.
- Giro em 2 apoios – abre a perna direita, girando sobre ela, de frente junta a perna esquerda. Repete toda a sequência para o lado esquerdo.
- Giro em 2 apoios – abre a perna direita e gira sobre ela, com a perna esquerda alongada e sem peso. Repete o giro para o lado esquerdo. Este é o giro mais difícil, pois não pode haver troca de peso. Para começar, faça ½ giro, e só depois vá para o giro completo.

Outra variação interessante com os pés no chão é o giro cruzado, que pode partir da posição em dois apoios ou da pose oriental. Pode ser feito tanto cruzando pela frente quanto por trás, sempre com o quadril bem encaixado. Se você estiver com os dois pés no chão, cruze a perna direita pela frente e gire no sentido anti-horário, com uma pequena liberação do calcanhar esquerdo e a aproximação do calcanhar direito no solo, terminando com os dois pés alinhados. Faça isso para o outro lado. Se você cruzar a perna direita atrás, o giro será horário. Depois, faça também para a esquerda, cruzando a perna esquerda atrás. Quando tiver bastante segurança no giro cruzado, acrescente a subida da perna dobrada à frente, cruze e gire. Ou então levante a ponta de um pé, desenhe um círculo com o pé,  da frente para os fundos, cruze atrás e gire.

Um giro muito característico da dança do ventre é o hélice. Para começar, treine ele com os pés no chão. O tronco é ligeiramente inclinado para frente. A mão direita começa na diagonal alta, enquanto a mão esquerda posiciona na diagonal baixa. Vá virando pela esquerda, ao mesmo tempo em que fecha a costela do lado direito, descendo a mão direita, e abre a costela do lado esquerdo, subindo a mão esquerda, fica de costas e continua o giro pela esquerda, terminando de frente, com a mão direita na diagonal alta e a mão esquerda na diagonal baixa. Faça toda a sequência para o lado direito, desta vez a mão mais alta é a esquerda. Depois de treinar bastante, faça em ½ ponta alta. Este giro é mais complicado, pois a inclinação do tronco dificulta ainda mais no equilíbrio, mas é um giro muito bonito, especialmente quando é feito com véu.

Espero que este texto tenha sido útil, qualquer pergunta adicional estou à disposição. Um abraço, e uma feliz dança a todas!


Fontes:

“Direção e preparação artística”, Jorge Sabongi e Débora Sabongi, Edição dos autores, 2010.
“Glossário da Dança do Ventre”, Suheil, Editora Kaleidoscópio de Ideias.
“Os pilares da profissionalização em Dança do Ventre”, volume III, Brysa Mahaila, Editora Kaleidoscópio de Ideias, 2018.