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terça-feira, 28 de julho de 2020

A INFLUÊNCIA DOS ÁRABES NA NOSSA CULTURA


Nota: antes de ler a postagem abaixo, favor ler o texto “Não se estuda a civilização sem topar com árabes”, que também está no meu blog.

Você faz ideia da influência dos povos orientais na cultura brasileira? Pensa que não existe nada de influência? Pois você está enganado, quer ver?

Na região onde ficam atualmente o Egito, a Síria, o Iraque, o Líbano, etc., existiram muitas civilizações antigas e com alto grau de desenvolvimento. Povos como os que viviam na região da Mesopotâmia (entre os rios Tigre e Eufrates), os persas, os fenícios, os antigos egípcios... Vejamos algumas das contribuições deles, que foram usadas ou são utilizadas até hoje.


    (Mapa da Mesopotâmia)

Na nossa escrita: no ano 2.000 a.C, no Egito, já surgiu um primeiro alfabeto, que evoluiu para o alfabeto fenício (esses dois alfabetos não tinham vogais, apenas consoantes). Os fenícios eram mercadores que viviam no atual Líbano e que viajam por todo o Mar Mediterrâneo, e acabaram espalhando seu alfabeto por toda a região. Os gregos apenas pegaram o alfabeto fenício e acrescentaram as vogais, e dele surgiram os alfabetos europeus. O alfabeto latino (que nós usamos) é uma das variações do alfabeto grego.

A nossa “descoberta”: somos um País que foi colonizado pelos portugueses, que aqui chegaram em 1.500. Um dos instrumentos utilizados pelos navegadores portugueses era o astrolábio, que tinha sido imaginado pelos gregos, criado pelos árabes e aperfeiçoado por um judeu chamado Abraão Zacuto. No site do Festival da Cultura Árabe, eles escrevem que:

“Durante a Idade Média, a Europa deixou um pouco de lado uma série de estudos e tratados científicos produzidos na Grécia Antiga. Os árabes recuperaram esse conhecimento e aperfeiçoaram cálculos, teses e técnicas. Foi o que aconteceu com o astrolábio. Os cientistas árabes utilizaram as teorias gregas e montaram equipamentos que podiam medir a posição do Sol, das estrelas, as horas do dia... A novidade serviu para vários objetivos: com o astrolábio, era possível melhorar a navegação, calcular com maior exatidão a orientação em relação a Meca e os horários e oração do Islã.”

                           (Astrolábio)

Na matemática: você sabia que um dos três povos que conceberam a noção de zero eram os babilônios, que viviam na região mesopotâmica? Os outros dois povos eram os hindus e os maias. Nós utilizamos o sistema decimal, então devemos a esses povos a possibilidade de ter o número zero para os nossos cálculos. E a contagem do tempo, é feita em contagem de 60, não é mesmo? Dessa forma, 60 segundos são iguais a um minutos, e 60 minutos são iguais a uma hora. Pois bem, esse é o sistema sexagimal, que foi criado pelos assírios, que viviam onde ficam atualmente a Síria e o Iraque.

Na herança cultural dos portugueses: basicamente, o Brasil foi formado por três povos: os indígenas, os portugueses e os negros. Esses três povos deram suas contribuições e formaram a nossa cultura, mas a influência portuguesa foi maior, pois Portugal dominou os indígenas e os negros. Tanto isso é verdade que a nossa língua oficial é o português. Acontece que os portugueses, bem como os espanhóis, também foram dominados pelos povos árabes, que eram conhecidos como mouros. Em 711, os mouros iniciam a invasão da Península Ibérica, área que engloba Portugal e Espanha, e que nessa época era dominada pelos visigodos. Segundo o historiador espanhol José Manuel González Vesga, autor de “Breve História de Espanha”:

“Quando chegaram à Espanha, os árabes encontraram o reino visigodo no caos. Entre 707 e 709, houve uma seca sem precedentes, que arrasou as colheitas e espalhou a fome. Além disso, a enorme colônia judaica estava sendo perseguida. Assim, camponeses e judeus receberam os mouros de braços abertos”.
(Fonte: Aventuras na História)

    (A invasão moura)

Os portugueses e os espanhóis pertenciam à religião católica, e os mouros eram muçulmanos. Mesmo sendo de outra religião, os mouros eram bem mais tolerantes em matéria de religião do que os católicos. Vale a pena lembrar que essa era a época da Inquisição, em que os chamados “hereges” eram queimados vivos. Na época da invasão moura, os judeus tiveram um melhor tratamento, devido a essa tolerância religiosa dos mouros.

Por centenas de anos, os portugueses e espanhóis tentaram se libertar, mas os mouros só foram definitivamente expulsos em 1492. Foram quase 800 anos de ocupação, e é claro que isso deixou uma enorme influência na cultura ibérica. O domínio muçulmano “deixou um grande legado, no qual se destaca a introdução de novas técnicas e novas culturas, como sistemas de irrigação (azenhas e noras), introdução de plantas (limoeiro, laranjeira, alfarrobeira, amendoeira e provavelmente o arroz). No domínio da ciência são valiosos os conhecimentos transmitidos: matemática, astronomia e náutica, para além do enriquecimento que os conquistadores proporcionaram à língua peninsular, com vários novos vocábulos.”
(Fonte: Info Escola)

Na língua portuguesa: segundo o Dicionário Houaiss, na língua portuguesa existem aproximadamente 700 palavras de origem árabe. Você sabia que “al” em árabe é o artigo “o”, “a”? Pois bem, muitas das palavras em português que começam com "a" ou "al" são de origem árabe. Exemplos: açúcar, alcaide, almirante, açafrão, alface, acelga, azeitona, azulejo, alfazema, alcachofra, alfarrábio, álgebra, álcool. Outras palavras: chafariz, lima, limão, laranja, cenoura, elixir, xarope, zero...
(Fontes: Wikipedia e Mundo Lusíada)

Na arquitetura colonial: quando os portugueses colonizaram o Brasil, trouxeram para cá o seu conhecimento de construção, que se utilizava de muitas técnicas árabes. Essas técnicas eram ideias para o clima quente do Brasil, segundo Maria Heloísa Paes de Souza:

“Essas soluções foram inspiradas naquelas já utilizadas em outras cidades do mundo islâmico e consistiram no uso de pequenas aberturas com elementos vazados, como o muxarabi, facilitando a entrada de luz e ar; pátios internos com fonte de água, com as mesmas funções hidrotérmicas encontradas nas casas orientais; paredes de taipa e adobe, espessas para isolamento do calor; coberturas com telhas (telhado mourisco) e terraços (açoteias), que eram aproveitados para usos domésticos, sobretudo no verão; revestimento em azulejo e caiação.”

 Atualmente, no Brasil quase todas as casas ainda usam azulejo, um elemento que já era utilizado no Antigo Egito e na Mesopotâmia! Abaixo, uma foto de alguns sobrados de São Luís do Maranhão, que em 1997 teve parte de seu casario declarado Patrimônio Mundial da Humanidade:


Na música: a música árabe teve grande influência na música do nordeste brasileiro. O lamento nordestino veio do mawal, que é o lamento árabe. Aliás, o lamento árabe também deu origem ao fado em Portugal e ao flamenco na Espanha. O repente nordestino também tem origem árabe, o zajal. Além disso, alguns instrumentos árabes foram modificados no Brasil, e se tornaram a base da música nordestina. Exemplos: a rabeca é originária do rebab, o pandeiro veio do riqq, e a zabumba surgiu do davul. Além dos instrumentos utilizados no Nordeste, houve influência árabe por toda a música brasileira. Você sabia que o alaúde, instrumento árabe de cordas, deu origem ao violão e à viola caipira? Esses dois instrumentos são tocados no Brasil inteiro.

“Outro elemento árabe onipresente na música nordestina e brasileira de uma forma geral que chegou até nós via Península Ibérica é o pandeiro. Redondo ou retangular, geralmente tocado por mulheres, o pandeiro, adufe ou tamboril é imprescindível nos cantos e danças mouros. Pero Vaz de Caminha já fazia referência a esses instrumentos na sua “Carta do Achamento” ao rei de Portugal em 1500, tocados pelos marinheiros ao chegarem nas praias de Porto Seguro e encontrarem os primeiros indígenas.”
(Fonte: Overmundo)            
                                  
    (Adufe)

Além disso, segundo o Instituto da Cultura Árabe:

“Os ritmos orientais chegaram ao Nordeste por vários meios e um deles foi pelos escravos islâmicos que promoveram a Revolta dos Malês, na Bahia, no século 19. Vieram também pela Europa, que já estava influenciada pelos árabes dominantes da Península Ibérica na Idade Média.”

Na dança: algumas danças nordestinas, como o côco e o baião usam ritmos de origem árabe. E voltando a falar dos escravos malês, que eram da religião muçulmana, uma teoria diz que após a Revolta dos Malês, alguns deles teriam fugido para o Rio de Janeiro, e se instalado nos morros cariocas. Esses negros teriam, utilizando o adufe (pandeiro) e outros instrumentos percussivos de origem africana, ajudado a criar o samba. E qual é a dança mais brasileira de todas? O samba, é claro!

Então, toda vez que você usar a palavra “açúcar”, colocar azulejos novos na sua casa, dançar um samba ou um baião, comprar laranjas ou limões, contar os 60 minutos que formam um hora, lembre-se: devemos muitos aos povos orientais.


Fontes:

Wikipedia




1981 -










terça-feira, 21 de julho de 2020

A HISTÓRIA DA DANÇA DO VENTRE NO BRASIL


Esta postagem foi inspirada por uma dúvida da minha aluna Eliane Kreusch. Ela me enviou um vídeo da novela “O Clone”, perguntando se a bailarina era a  Shahrazad, e se de fato era ela quem tinha trazido a dança do ventre para o Brasil. Como base para esta postagem, vou me utilizar de uma palestra proferida pela querida Shalimar Mattar em 2009, bem como outras fontes.

Segundo Shalimar, a primeira apresentação de dança do ventre no Brasil foi em 1954, em São Paulo. A dançarina tinha 14 anos, era bailarina clássica e seu nome era Zuleika Pinho. Até a década de 1970, foi a única bailarina de dança do ventre no Brasil. A própria Zuleika disse:

“Me perguntaram se poderia apresentar uma dança oriental, não tinha ideia do que era, mas aceitei.”

No volume I de seu livro “Os pilares da profissionalização em dança do ventre”, na página 57, a bailarina Brysa Mahaila fala sobre a Zuleika:

“Outra bailarina, Zuleika Pinho apresentou-se com a dança do ventre em 1954, aos 14 anos, no clube Holms, em São Paulo, e foi reconhecida como ‘rainha da dança do ventre’ pelos principais jornais da época.”



                                             (Zuleika Pinho)

Embora Zuleika Pinho tenha feito a primeira dança no Brasil, a maioria das fontes cita a Shahrazad como a pioneira da dança no país. Ela dançava desde criança, veio para o Brasil em 1957, mas aqui ela só voltou a dançar profissionalmente em 1979. Criou sua própria metodologia de ensino e lançou diversos livros sobre o assunto.

Na página 57 do seu livro, Brysa Mahaila diz:

“A bailarina palestina Shahrazad, Shahid Sharkey, que chegou ao Brasil em 1957, é considerada uma das precursoras da dança do ventre. Ela se apresentou em um programa de televisão nacional com sucesso. Os espectadores puderam, então, entrar em contato com a arte de uma cultura tão distante e milenar como a do Egito. Shahrazad, falecida em 2014, foi a pioneira da dança do ventre no Brasil, deixando um importante legado para essa dança e suas sucessoras.”


                               
Em sua palestra, Shalimar Mattar disse que, na década de 1970, começaram a surgir as casas de show e restaurantes árabes. Faziam shows com música ao vivo, e só depois surgiram os LPs. Eram três dançarinas: Rita Bianchi, Aziza (era a chacrete Deisi Cristal) e Magda. A professora Samira Samia, mãe da Shalimar, e a Scherazade vieram um pouco depois.

Na Central Dança do Ventre, fala-se sobre essas bailarinas:

“Um pouco depois, na década de 80, surgiram as primeiras bailarinas de Dança do Ventre brasileiras, que podem ser consideradas como a primeira geração de bailarinas no Brasil. Foram elas: Shahrazad, Samira, Rita, Selma, Mileidy e Zeina.

No site de Vitor Abud Hiar, ele cita as seguintes bailarinas:

“A primeira geração de bailarinas árabes do Brasil, segundo consta nos registros históricos, surgiu somente na década dos anos 70, e era formada por: Shahrazad Sharkey (pioneira, que trouxe a arte técnica para o Brasil), Mileidy, Rita, Selma, Samira, Aziza, Sandra, Magda, Vera e Zeina, todas importantes precursoras na difusão da Dança do Ventre neste país.”

Então, são essas as precursoras (em ordem alfabética, para facilitar): Aziza, Magda, Mileidy, Rita, Samira, Sandra, Selma, Shahrazad, Vera e Zeina.

Shalimar disse que sua mãe Samira foi a primeira professora do Brasil, depois a Shahrazad começou a dar aulas também, tudo isso na década de 1980. Quando a Casa de Chá Khan el Khalili foi aberta, Samira foi a primeira professora da casa.

No livro “Direção e preparação artística”, de Jorge Sabongi e Débora Sabongi, na página 17, eles falam sobre os primórdios:

“À frente de uma casa temática, a Khan el Khalili – Casa de Chá Egípcia, desde 1982, tive a oportunidade de conviver com centenas de bailarinas (dança do ventre – belly dance), acompanhando muitas desde o início de suas carreiras.

Por volta do início da década de 1980, a dança do ventre praticamente não existia no Brasil. As pouquíssimas bailarinas geralmente se apresentavam para um público estritamente árabe. O aprendizado dessas profissionais se limitava ao que assistiam em filmes e na própria intuição. Os movimentos não tinham uma técnica apurada. Utilizavam a dança de forma comercial e faziam aparições em dois restaurantes, Bier Maza e Porta Aberta, considerados reduto de famílias árabes na Cidade de São Paulo.”

Outro restaurante dessa época, citado no livro da Brysa Mahaila, é o Semíramis, também em São Paulo. Não achei imagens dos restaurantes Bier Maza, Porta Aberta e Semíramis, pois eles não existem mais. Abaixo, tem uma foto do interior da Khan el Khalili, um lugar maravilhoso para conhecer.



Na página 56 do livro “Direção e preparação artística”, Jorge Sabongi diz que:

“Naquela época, não existia muita disponibilidade de músicas árabes, mas eu havia constituído um bom acervo, contando com a preciosa colaboração de um amigo, piloto de aviação, que me trazia long-plays da Europa e EUA.”

Bem diferente de hoje, que podemos baixar músicas com toda facilidade, não é mesmo? A bailarina Brysa Mahaila fala sobre as dificuldades desse período, também na página 57 de seu livro:

“Mesmo no centro do país, nos anos 1980, era difícil conseguir informações precisas a respeito do assunto para realizar um trabalho mais profissional em dança do ventre. Não existiam publicações em língua portuguesa, e vídeos e músicas gravadas para shows e aulas eram escassos. A maioria das bailarinas que se arriscavam nesse mercado era de amadoras com poucas informações para realizarem um bom trabalho em dança do ventre, contanto somente com o contato de alguns músicos árabes que as ajudavam.”

Segundo a Central Dança do Ventre, o primeiro livro brasileiro sobre o assunto foi escrito pela bailarina Málika em 1998, com o título “Dança do ventre – uma arte milenar”. Observação: eu ainda acho que existem pouquíssimos livros em língua portuguesa sobre a dança do ventre, o que é muito triste.

O primeiro DVD didático nacional foi feito pela Lulu from Brazil (anteriormente, Lulu Sabongi), em 1993. A Lulu estudou com Shahrazad, e a partir de 1985 passou a se apresentar na Khan el Khalili. Precisamos valorizar muito o trabalho da Lulu, pois com seus diversos DVDs didáticos, bem como seu trabalho de professora na Khan el Khalili, ela formou muitas alunas. Eu pessoalmente, estudei muito com os DVDs da Lulu.

                             (Lulu)

A Shalimar também falou que as bailarinas do Brasil não tinham conhecimento técnico, e que isso só aconteceu quando a grande bailarina norte-americana Tamalyn Dallal esteve por algum tempo em São Paulo. Foi feito um vídeo didático com aulas da Tamalyn, mas aparentemente esse vídeo não foi lançado.

No seu livro, Brysa Mahaila cita outros três fatos importantes para a difusão da dança do ventre no Brasil:

- O músico sírio Tony Mouzayek e seus irmãos, que vieram para o Brasil na década de 1970 e a partir do final da década de 1990, começaram a gravar CDs com música árabe.

- Os grandes festivais, tais como Mercado Persa e Festival Luxor, que começaram a surgir entre 1990 e 2000. O Mercado Persa, inclusive, é um dos maiores festivais de dança do ventre do mundo.

- A novela “O Clone”, de 2002, que fez com que muitas mulheres começassem a praticar a dança do ventre, bem como possibilitou a diversos músicos e bailarinas que mostrassem a sua arte, em horário nobre da televisão. A bailarina Claudia Cenci foi a responsável por coreografar as atrizes e os atores da novela.

Achei uma foto do volume I do selo “Belly Dance Orient”, da família Mouzayek. À direita, eu vejo a Claudia Cenci, mas não sei quem é a bailarina loira à esquerda. Se alguém souber, por favor me avise. Nota: o José Haroldo descobriu o nome da bailarina, é Amar. Obrigada pela ajuda!


Atualmente, existem inúmeras bailarinas e bailarinos de dança do ventre no nosso país, e muitos deles são inclusive reconhecidos internacionalmente. O Brasil é um dos países com mais praticantes dessa modalidade no mundo. Embora seja um nicho sem patrocínio oficial, é um mercado em expansão, dando emprego a diversos profissionais, e possibilitando aos seus praticantes que tenham saúde física e mental.

E aí, gostou da postagem? Se quiser saber mais, acesse os quatro links que coloquei abaixo. São bem legais! 


Fontes consultadas:

- Palestra feita por Shalimar Mattar em 06/06/2009.

- Os pilares da profissionalização em dança do ventre”, volume I, Brysa Mahaila, Kaleidoscópio de Ideias, São Paulo, 2016.

- Direção e preparação artística”, Jorge Sabongi e Débora Sabongi, Ed. dos Autores, São Paulo, 2010.






terça-feira, 14 de julho de 2020

LITTLE EGYPT


Hoje vou falar sobre uma personagem interessantíssima, conhecida como Little Egypt. Será que ela existiu de fato? Será que era uma pessoa, ou mais de uma? Existem mais dúvidas que certezas sobre este assunto, pois são muitos os relatos divergentes.

A Exposição Universal de 1889, em Paris, foi feita para celebrar os 100 anos da Revolução Francesa, e durou seis meses, sendo frequentada por cerca de 28 milhões de pessoas. Para a exposição, foram construídas a Torre Eiffel e gigantescos pavilhões. Em um desses pavilhões, foi construída uma “Rua do Cairo”, onde os frequentadores puderam ver, pela primeira vez, uma apresentação de dança do ventre. Separei duas imagens da exposição: 

    (vista geral da Exposição Universal de 1889)

                  (a Rua do Cairo, na Exposição Universal de 1889)

Também existe um vídeo super interessante sobre a exposição, abaixo tem o link do vídeo, vale a pena assistir:


Um desses visitantes da feira foi o americano Solomon Bloom (1870-1949), um empresário do ramo do entretenimento. Na Exposição Universal, ele se encantou com a “Vila Argelina”, que ficava ao lado da “Rua do Cairo”. Como sabia que os americanos jamais tinham assistido a apresentações como essas, e que pagariam muito para ver, Sol Bloom fez um contrato de exclusividade com os argelinos, para apresentações nas Américas. Em 1892, as dançarinas (mas não os músicos) foram a Chicago, e se apresentaram no Press Club. Como os músicos não estavam presentes, Sol Bloom criou uma música com ares orientais, conhecida como “The snake charmer song”. Com certeza, você conhece essa música, cujo link segue abaixo:


Em 1893, a Feira Mundial de Chicago foi organizada para comemorar os 400 anos do descobrimento das Américas por Cristóvão Colombo, e também durou seis meses. Sol Bloom se tornou o gerente da área de diversões da feira, que era conhecida como “Midway Plaisance”, e também conseguiu incluir os seus artistas argelinos. Achei quatro fotos dessa época, uma de visão geral da feira, uma da Rua do Cairo, e duas de dançarinas:

    (vista geral da Feira Mundial de Chicago)

                    (a Rua do Cairo, na Feira Mundial de Chicago)

    (Dançarina e músicos)

                                 (Dançarina)

Donna Carlton, pesquisadora sobre o assunto, e autora do livro “Looking for Little Egypt”, acredita que:

“... houve tentativas sinceras de apresentar essa dança em pelo menos três exibições da Midway Plaisance”.

De acordo com o site “Friends of the White City”:

“Entre os artistas, estavam dançarinos ghawazi do Egito, membros do grupo étnico Ouled Nail da Argélia e dançarinos engeng de estilo turco, conhecidos por girar com lenços e castanholas nas danças da corte do Império Otomano.”

Essas castanholas citadas no texto acima são os snujs, é claro. Nas duas fotos de dançarinas da Feira de Chicago, repare que elas estão com os snujs nas mãos. Ainda sobre a Feira, existia a “Vila Argelina”, a “Rua do Cairo” e também uma vila turca. Em todas elas, se apresentavam shows de dança do ventre, com diversas bailarinas.

Bem, para Sol Bloom, o que interessava era dinheiro, e de fato a área conhecida como Midway Plaisance foi a mais lucrativa da feira. Mais de 27 milhões de pessoas viram as atrações do evento. Quanto mais publicidade fosse feita sobre a dança do ventre, melhor, mesmo que essa publicidade viesse através de um pouco de escândalo. Para a época, a dança do ventre era muito escandalosa, devido aos trajes (as mulheres ocidentais se vestiam da cabeça aos pés, e as bailarinas tinham abdômen e braços descobertos) e também pelas movimentações de quadris e abdominais. Como disse o próprio Sol Bloom, 60 anos após a feira:

“Quando o público soube que a tradução literal era ‘dança do ventre’, eles concluíram deliciosamente que deve ser mesquinho e imoral. As multidões chegaram. Eu tinha uma mina de ouro.”

E a Little Egypt, era ou não uma das dançarinas da feira? Existem controvérsias. Segundo o site “The National Night Stick", não é verdade que ela se apresentou na Feira Mundial de Chicago:

“Por anos depois, os veteranos de Chicago juraram que viram Little Egypt dançar na feira, mas embora a Exposição Colombiana do Mundo tivesse uma abundância de dançarinas do ventre, nenhuma delas se apresentou com o nome de Little Egypt. Em sua autobiografia de 1948, Sol Bloom disse:
‘Eu nego enfaticamente que tive alguma coisa a ver com uma artista feminina conhecida profissionalmente como Little Egypt. Em nenhum momento da feira de Chicago esse personagem apareceu no meio do caminho.’
Esse fato foi confirmado por pesquisadores que se debruçaram sobre programas, propagandas, críticas e outros documentos da feira e não encontraram nenhuma menção a Little Egypt.”

Tendo ou não dançado na feira, de qualquer forma, nos anos seguintes apareceram algumas dançarinas que assumiram o nome Little Egypt, e diversas fontes associam a dança que elas faziam à dança burlesca, que é algo bem diferente da dança do ventre. As três Little Egypt mais constantemente citadas são:

1 ) Farida Mazar Spyropoulos (nascida na Síria em 1871-1937), que também usava o nome artístico de Fátima. Ela afirmava ser a Little Egypt original, e também que havia dançado na Feira de Chicago. Em 1933, ela dançou em outra Feira de Chicago, aos 62 anos de idade. Abaixo está a imagem do jornal que fala sobre a sua morte, e as palavras de Farida: “Quando eu dançava, eu nunca estava quase nua. Minha dança nunca era vulgar ou chocante. Eu nunca me rebaixei como dançarina”.

                             (jornal anunciando a morte de Farida)

2 ) Fátima Djemille (1890-1921), sobre esta dançarina, não achei dados suficientes, e ainda existe uma pequena confusão: ela se chama Fátima Djemille, e a Farida também usava o nome artístico de Fátima. A Fátima Djemelli é conhecida como tendo sido filmada por Thomas Edison. No catálogo de filmes de Edison, o filme está assim resumido: “Um personagem bem conhecido, em uma dança que criou uma excitação considerável quando foi apresentada pela primeira vez na América”. Estes são os links dos vídeos feitos por Thomas Edison, embora não se tenha certeza absoluta de que a dançarina era Fátima Djemille (inclusive porque os filmes estão com data de 1896, e aparentemente Fátima Djemille nasceu em 1890, ou seja, ela teria seis anos de idade no filme!):


 
3 ) Ashea Wabe, cujo nome verdadeiro era Catherine Devine (1871-1908), ficou famosa por ter dançado em uma despedida de solteiro. O fato gerou escândalo na época pela denúncia de que ela iria dançar nua para os homens dessa festa. A polícia invadiu o local, mas não achou a dançarina. De qualquer forma, houve um processo, e Ashea Wabe conseguiu o que queria – fazer sucesso. Ela fez diversos shows de dança do ventre pelo país, e ficou rica. Morreu em 1908, em seu apartamento em Nova Iorque, por asfixia a gás. A respeito dessa festa, existe uma reportagem do New York Journal, que trata do processo. A mulher de vestido listrado é Ashea Wabe:

                   (o processo sobre a despedida de solteiro)

Quem quer que tenha sido a verdadeira Little Egypt, a questão é que ela se tornou um símbolo da dança do ventre nos Estados Unidos. Existe uma imagem bem famosa de Little Egypt, mas existem divergências, já que algumas fontes dizem que era de Farida Mazar Spyropoulos, e outras que era de Ashea Wabe:
                                                      (imagem de Little Egypt)

E aí, gostaram da postagem? Espero que sim. Eu, particularmente, gostei bastante de pesquisar sobre o assunto. E até a próxima!


Fontes consultadas:













terça-feira, 7 de julho de 2020

O ESTILO GREGO - ORIGENS


Esta é mais uma postagem sugerida pela professora Camila Nickel, e juro que não é um assunto fácil  de pesquisar, por dois motivos:

1 - Falta de informações (nenhum dos livros que tenho cita esse estilo de dança, e tive que me limitar a pesquisas na internet).

 2 – Quando a gente acha uma informação na internet, já é a cópia de um texto anterior. E o mais grave é que as pessoas vão copiando o texto e não citam a fonte.

Além do mais, eu sou sincera em dizer que não sei nada sobre a dança do ventre grega, pois é um estilo que poucas pessoas executam no Brasil. A maior referência que temos no Brasil é a bailarina Cristina Antoniadis. Ela tem um blog, cujo endereço é cristina.antoniadis.blogspot.com. Lá, vocês vão achar muitas informações detalhadas sobre a dança do ventre grega.

Antes de falarmos sobre o assunto, peço que leiam a postagem “Diferenças entre os estilos egípcio e turco”, de 10 de junho de 2020. Vocês verão que existe muita similaridade entre os estilos turco e grego. Vamos a um pouquinho de História e Geografia, para começar:

Neste primeiro mapa, vocês verão que tanto o Egito quanto os países árabes (prováveis berços da dança do ventre) são banhados pelo Mar Mediterrâneo:


No segundo mapa, veremos a Grécia, que está localizada à esquerda da Turquia, sendo também banhada pelo Mar Mediterrâneo:


Dá para constatar que é tudo muito próximo, e essa proximidade facilitou o intercâmbio comercial e cultural, desde a Antiguidade. Segundo Cristina Antoniadis:

“A troca cultural entre gregos e árabes é também algo milenar, os gregos sempre tiveram grande fascínio pelo Oriente, tanto que levou Alexandre, o Grande até a Índia, e é muito comum nas letras de músicas gregas serem mencionadas as belezas e riquezas do povo árabe. Desde a antiguidade a Grécia importava cantoras do Egito, pois eram consideradas as melhores vozes, faziam comércio com os Fenícios e adotaram seu alfabeto, estudavam o povo persa, podemos dizer que naquela época havia uma real globalização cultural e o que conhecemos hoje por cultura helênica, na verdade é a intersecção da cultura grega clássica com a cultura oriental.”

Os gregos davam valor às artes, e amavam a música e a dança. No seu texto “Árabes e gregos – a semelhança não é mera coincidência”, Cristina Antoniadis fala sobre as semelhanças entre as culturas árabe e grega, e escreve:

“Sendo assim, eu concluo que o que realmente une esses povos são fatores culturais, principalmente a música e a dança. A música árabe, assim como os cantos dos ritos islâmicos, tiveram sua raiz e grande influência da música bizantina, cuja origem é helênica. Não há diferença entre a música clássica árabe e a música clássica grega. São os mesmos instrumentos, os mesmos ritmos, os mesmos modos. Algumas danças de roda são idênticas, sem contar a dança do ventre, que também faz parte da cultura grega.”

Em 1453, a cidade de Constantinopla (atual Istambul, na Turquia) foi invadida pelos turcos otomanos. Essa data também simboliza o fim da Idade Média (476 a 1453) e o início da Idade Moderna (1453 a 1789). A partir deste momento, os turcos otomanos começam o seu domínio na Grécia, que tentou por diversas vezes se libertar, só vindo a ter êxito em 1922, após a Guerra Greco-Turca (1919-1922). Essa guerra foi marcada por muitas atrocidades. No ano seguinte, a Turquia teve suas fronteiras demarcadas, que são as mesmas de hoje. Os gregos, em sua maioria, eram cristãos ortodoxos, e os turcos geralmente eram muçulmanos. Alguns gregos viviam onde hoje é a Turquia, e alguns turcos viviam na parte pertencente à Grécia. Segundo a Wikipedia:

“O fim da guerra ficou ainda marcado pela primeira transferência populacional compulsiva em larga escala do século XX, que envolveu a troca entre os cidadãos cristãos da Turquia (na sua maioria gregos ortodoxos) e os muçulmanos da Grécia, acordada em conversações paralelas às que desembocaram no Tratado de Lausana. As deportações em massa e fugas de populações gregas da Anatólia e de turcas da Grécia já tinham começado antes da Primeira Guerra Mundial e intensificaram-se durante a Guerra Greco-Turca. Calcula-se que cerca de 2 milhões de pessoas foram deslocadas das suas terras ancentrais – um milhão e meio de gregos e turcos cristãos da Anatólia e meio milhão de turcos e gregos muçulmanos da Grécia.”

Atualmente, esse é o mapa da Grécia e de parte da Turquia:

Esses gregos expulsos da região da Anatólia - que passara a ser parte da Turquia moderna - levaram a sua herança musical para a Grécia. Essas pessoas sofreram muito, tanto devido à guerra que culminou com a sua expulsão, quanto pelas situações precárias que encontraram na Grécia. Por isso, suas músicas eram muito tristes, porque falavam sobre as dificuldades pelas quais estavam passando. Segundo o site “Mundo da Dança”, a música grega misturava os sons gregos, turcos, armênios e árabes. Surge o estilo chamado Tsifteteli (existem outras formas de grafia), que pode ser definido como:

1 ) a dança do ventre grega;
2 ) uma dança de casal;
3) uma dança de grupo.

Sobre o Tsifteteli como dança do ventre, Cristina Antoniadis escreve:

“O estilo grego de Dança Oriental se difere do egípcio e do árabe em diversos aspectos. O principal deles está na ênfase em movimentos pélvicos e na postura da bailarina que executa a dança quase inteira numa posição com um leve cambrê e a pélvis à frente. Os oitos e redondos são muito comuns também e são executados com um “arrastamento” dos pés com os calcanhares bem apoiados no chão. Outra característica muito comum é a acentuação das batidas quase sempre para cima e também a dança executada no chão.”

Se lembrarmos dos estilos turco e libanês, veremos que eles também utilizam o cambrê e a projeção da pélvis. O estilo turco também tem como característica a marcação para cima com os quadris. No blog da Isis Zahara, ela diz que o estilo grego utiliza os ritmos Maksum, Malfuf e Tsifteteli, e tem como características:

“Os movimentos característicos do estilo grego, além da influência folclórica, são os oitos e ondulações como redondos e camelos, giros cuja intenção parte de um redondo grande, belly rolls (ondulações abdominais), suave shimmy de busto. Braços em postura Alladin (uma das mãos pousa sobre a cabeça enquanto a outra mantém-se alongada na lateral).”

Segundo Cristina Antoniadis, a música clássica grega também se vale dos instrumentos utilizados na música clássica árabe, tais como o kanoon, o duff, o violino... A grande diferença no som da música grega é que eles usam o bouzouki, um instrumento da família do alaúde. O som do bouzouki dá uma sonoridade bem distinta à música grega, e é bem fácil distinguir o som desse instrumento.


No tocante à dança do ventre grega, uma referência famosa é a bailarina Boubouka Pappas, que fez muito sucesso entre os anos 1950 e 1970. No Youtube, você encontra alguns vídeos dela, já que ela participou de vários filmes. Ela tem um controle absoluto dos quadris e as ondulações abdominais dela são simplesmente fantásticas! Só que o estilo é um pouquinho chocante (pernas muitos abertas, seios muito expostos, etc.). Mesmo assim, fiquei encantada com essa bailarina que eu não conhecia.

                                (Boubouka)

E isso foi tudo que consegui descobrir a respeito do estilo grego. Espero que a postagem tenha sido útil. Se alguém tiver mais informações sobre esse assunto, e puder compartilhar, agradeço de coração. Para finalizar, separei os links de dois vídeos para vocês assistirem, um da bailarina Athena Najat, ou da Natasa:

Fontes: