Hoje vou falar sobre uma
personagem interessantíssima, conhecida como Little Egypt. Será que ela existiu
de fato? Será que era uma pessoa, ou mais de uma? Existem mais dúvidas que
certezas sobre este assunto, pois são muitos os relatos divergentes.
A Exposição Universal de
1889, em Paris, foi feita para celebrar os 100 anos da Revolução Francesa, e
durou seis meses, sendo frequentada por cerca de 28 milhões de pessoas. Para a
exposição, foram construídas a Torre Eiffel e gigantescos pavilhões. Em um
desses pavilhões, foi construída uma “Rua do Cairo”, onde os frequentadores
puderam ver, pela primeira vez, uma apresentação de dança do ventre. Separei
duas imagens da exposição:
(vista geral da Exposição Universal de 1889)
(a Rua do Cairo, na Exposição Universal de 1889)
Também existe um vídeo super interessante sobre a exposição, abaixo tem o link do vídeo, vale a pena assistir:
Um desses visitantes da
feira foi o americano Solomon Bloom (1870-1949), um empresário do ramo do
entretenimento. Na Exposição Universal, ele se encantou com a “Vila Argelina”,
que ficava ao lado da “Rua do Cairo”. Como sabia que os americanos jamais tinham
assistido a apresentações como essas, e que pagariam muito para ver, Sol Bloom
fez um contrato de exclusividade com os argelinos, para apresentações nas
Américas. Em 1892, as dançarinas (mas não os músicos) foram a Chicago, e se
apresentaram no Press Club. Como os músicos não estavam presentes, Sol Bloom
criou uma música com ares orientais, conhecida como “The snake charmer song”.
Com certeza, você conhece essa música, cujo link segue abaixo:
Em 1893, a Feira Mundial de
Chicago foi organizada para comemorar os 400 anos do descobrimento das Américas
por Cristóvão Colombo, e também durou seis meses. Sol Bloom se tornou o gerente
da área de diversões da feira, que era conhecida como “Midway Plaisance”, e também
conseguiu incluir os seus artistas argelinos. Achei quatro fotos dessa época,
uma de visão geral da feira, uma da Rua do Cairo, e duas de dançarinas:
(vista geral da Feira Mundial de Chicago)
(a Rua do Cairo, na Feira Mundial de Chicago)
(Dançarina e músicos)
(Dançarina)
Donna Carlton, pesquisadora
sobre o assunto, e autora do livro “Looking for Little Egypt”, acredita que:
“... houve tentativas
sinceras de apresentar essa dança em pelo menos três exibições da Midway
Plaisance”.
De acordo com o site
“Friends of the White City”:
“Entre os artistas, estavam
dançarinos ghawazi do Egito, membros do grupo étnico Ouled Nail da Argélia e
dançarinos engeng de estilo turco, conhecidos por girar com lenços e
castanholas nas danças da corte do Império Otomano.”
Essas castanholas citadas no
texto acima são os snujs, é claro. Nas duas fotos de dançarinas da Feira de
Chicago, repare que elas estão com os snujs nas mãos. Ainda sobre a Feira,
existia a “Vila Argelina”, a “Rua do Cairo” e também uma vila turca. Em todas
elas, se apresentavam shows de dança do ventre, com diversas bailarinas.
Bem, para Sol Bloom, o que
interessava era dinheiro, e de fato a área conhecida como Midway Plaisance foi
a mais lucrativa da feira. Mais de 27 milhões de pessoas viram as atrações do
evento. Quanto mais publicidade fosse feita sobre a dança do ventre, melhor,
mesmo que essa publicidade viesse através de um pouco de escândalo. Para a
época, a dança do ventre era muito escandalosa, devido aos trajes (as mulheres
ocidentais se vestiam da cabeça aos pés, e as bailarinas tinham abdômen e
braços descobertos) e também pelas movimentações de quadris e abdominais. Como
disse o próprio Sol Bloom, 60 anos após a feira:
“Quando o público soube que
a tradução literal era ‘dança do ventre’, eles concluíram deliciosamente que
deve ser mesquinho e imoral. As multidões chegaram. Eu tinha uma mina de ouro.”
E a Little Egypt, era ou não
uma das dançarinas da feira? Existem controvérsias. Segundo o site “The
National Night Stick", não é verdade que ela se apresentou na Feira Mundial de
Chicago:
“Por anos depois, os
veteranos de Chicago juraram que viram Little Egypt dançar na feira, mas embora
a Exposição Colombiana do Mundo tivesse uma abundância de dançarinas do ventre,
nenhuma delas se apresentou com o nome de Little Egypt. Em sua autobiografia de
1948, Sol Bloom disse:
‘Eu nego enfaticamente que
tive alguma coisa a ver com uma artista feminina conhecida profissionalmente
como Little Egypt. Em nenhum momento da feira de Chicago esse personagem
apareceu no meio do caminho.’
Esse fato foi confirmado por
pesquisadores que se debruçaram sobre programas, propagandas, críticas e outros
documentos da feira e não encontraram nenhuma menção a Little Egypt.”
Tendo ou não dançado na
feira, de qualquer forma, nos anos seguintes apareceram algumas dançarinas que
assumiram o nome Little Egypt, e diversas fontes associam a dança que elas
faziam à dança burlesca, que é algo bem diferente da dança do ventre. As três Little
Egypt mais constantemente citadas são:
1 ) Farida Mazar Spyropoulos
(nascida na Síria em 1871-1937), que também usava o nome artístico de Fátima.
Ela afirmava ser a Little Egypt original, e também que havia dançado na Feira
de Chicago. Em 1933, ela dançou em outra Feira de Chicago, aos 62 anos de
idade. Abaixo está a imagem do jornal que fala sobre a sua morte, e as palavras
de Farida: “Quando eu dançava, eu nunca estava quase nua. Minha dança nunca era
vulgar ou chocante. Eu nunca me rebaixei como dançarina”.
(jornal anunciando a morte de Farida)
2 ) Fátima Djemille (1890-1921), sobre esta dançarina, não achei dados suficientes, e ainda existe uma pequena confusão: ela se chama Fátima Djemille, e a Farida também usava o nome artístico de Fátima. A Fátima Djemelli é conhecida como tendo sido filmada por Thomas Edison. No catálogo de filmes de Edison, o filme está assim resumido: “Um
personagem bem conhecido, em uma dança que criou uma excitação considerável
quando foi apresentada pela primeira vez na América”. Estes são os links dos
vídeos feitos por Thomas Edison, embora não se tenha certeza absoluta de que a
dançarina era Fátima Djemille (inclusive porque os filmes estão com data de
1896, e aparentemente Fátima Djemille nasceu em 1890, ou seja, ela teria seis
anos de idade no filme!):
3 ) Ashea Wabe, cujo nome
verdadeiro era Catherine Devine (1871-1908), ficou famosa por ter dançado em
uma despedida de solteiro. O fato gerou escândalo na época pela denúncia de que
ela iria dançar nua para os homens dessa festa. A polícia invadiu o local, mas
não achou a dançarina. De qualquer forma, houve um processo, e Ashea Wabe
conseguiu o que queria – fazer sucesso. Ela fez diversos shows de dança do
ventre pelo país, e ficou rica. Morreu em 1908, em seu apartamento em Nova
Iorque, por asfixia a gás. A respeito dessa festa, existe uma reportagem do New
York Journal, que trata do processo. A mulher de vestido listrado é Ashea Wabe:
(o processo sobre a despedida de solteiro)
Quem quer que tenha sido a
verdadeira Little Egypt, a questão é que ela se tornou um símbolo da dança do
ventre nos Estados Unidos. Existe uma imagem bem famosa de Little Egypt, mas existem divergências, já que algumas fontes dizem que era de Farida Mazar Spyropoulos, e outras que era de
Ashea Wabe:
(imagem de Little Egypt)
E aí, gostaram da postagem?
Espero que sim. Eu, particularmente, gostei bastante de pesquisar sobre o
assunto. E até a próxima!
Fontes consultadas:









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