“Nos
países árabes onde a religião ortodoxa, também chamada de Islã, prevalece sobre
o Estado, as apresentações de bailarinas em público são proibidas. As mulheres
são obrigadas a se vestirem de pesados mantos por cima de suas roupas, deixando
apenas os olhos à mostra quando saem à rua. No Afeganistão, por exemplo, até os
olhos ficam escondidos sob pesadas vestimentas, denominadas ‘burqas’. Quem
ousar desrespeitar a lei, e sair à rua com o rosto à mostra, pode ser duramente
penalizado, com açoites em público ou apedrejamento.
Bailarinas
não são bem vistas e nem bem vindas nestes lugares. O governo religioso
extremista acredita que tudo o que desvie os olhos e o pensamento do homem para
Alah (Deus), deve ser eliminado.”
(Patrícia
Bencardini, “Dança do Ventre – Ciência e Arte”, página 50. Editora Baraúna, São
Paulo/SP, 2009).
Segundo
Wendy Bonaventura, em seu livro “Serpent of Nile”, na época da expedição
napoleônica pelo Egito, existiam dois tipos de dançarina: as awalim (“mulheres
versadas em artes”) e as ghawazee (de origem cigana). Tanto as awalim quanto as
ghawazee viviam de suas apresentações, cantando e dançando, mas as awalim
tinham prestígio, ao contrário das ghawazee, que eram artistas de rua. Eu não
tenho o livro da Wendy Bonaventura, mas na página 32 do seu livro “Os pilares
da profissionalização em dança do ventre”, volume I, Brysa Mahaila fala sobre
um trecho do livro da Wendy:
“Em
determinado momento, os generais de Napoleão, temendo que a distração
ocasionada pelas mulheres atrapalhasse o descanso dos soldados, decretaram que
as dançarinas seriam severamente punidas se não se afastassem das barracas do
exército. Em represália ao desacato, muitas foram decapitadas e tiveram seus
corpos jogados ao Nilo.”
No
mesmo livro, páginas 32 a 33, Brysa Mahaila diz:
“As
dançarinas foram punidas também quando Mohammed Ali, em 1799, tomou o poder com
o firme propósito de modernizar o Egito. Ele contava com a ajuda dos aliados
europeus e, em função disso, sofreu pressões religiosas que o levaram a proibir
a dança em vias públicas, banindo as dançarinas do Cairo. No entanto, as
awalim, como sinal do prestígio de que gozavam, puderam ali permanecer. Com o
banimento das dançarinas de rua, surgiram homens disfarçados de bailarinas,
chamados de khawals. Muitos deles vinham da Turquia e faziam muito sucesso, até
mais do que as ghawazee, com shows exóticos e cheios de malícia. Em 1866, as
ghawazee foram autorizadas a voltar ao Cairo.”
Além
das histórias citadas acima, sabemos de diversas bailarinas que foram proibidas
e/ou estigmatizadas por fazerem dança do ventre como, por exemplo, Badia
Masabni. Ainda hoje – estamos em 2019 -, a grande maioria das profissionais que
dançam nos países árabes são de origem estrangeira. E nos países ocidentais? A
situação pode não ser tão extrema quanto nos países de religião islâmica, mas
mesmo assim as bailarinas enfrentam muitos preconceitos, senão vejamos:
-
Falou “dança do ventre”? A grande maioria das pessoas associa com “dança de
sedução”. Tenho escola há doze anos, e durante todo esse tempo, tentei explicar
às pessoas que dança do ventre não é dança de sedução, é uma arte. De vez em
quando, dá um desânimo, mas eu persisto.
-
A bailarina é contratada para dançar em evento? Sempre tem uma mulher beliscando ou tapando
os olhos do marido. Gente, ninguém está aí para seduzir
marido de ninguém, não. A intenção da bailarina é dançar e trazer alegria à
festa.
-
Algumas pessoas muito religiosas acham que a dança do ventre é pecaminosa. Eu
rejeito essa ideia preconceituosa, pois toda dança é uma celebração da vida. E a
dança do ventre é uma celebração da vida, do nascimento, do parto. Isso pode
ser pecado?
-
E quando a família ou o marido (ou namorado) são empecilhos? Familiares que não
apoiam? Maridos/namorados ciumentos ou que não compreendem que aulas e ensaios
são necessários? Que não dão apoio na hora da apresentação, quando a aluna está
mais nervosa?
Embora
existam todos esses dificultadores externos, é bom lembrar que a dança faz bem
para nós. Sua família, marido/namorado não te apoiam? A religião é contra?
Deixe a cara feia desse povo para lá, dance e seja feliz! Você só precisa
agradar a você mesma. Beijos e boa dança para todas nós!

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