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sábado, 6 de março de 2021

QUANDO O PÚBLICO É HOSTIL

Esta postagem foi sugerida pela Cláudia Futz, que perguntou:

“O que fazer quando o público não interage com a dançarina? Quando é hostil?”

Qual bailarina nunca passou por uma situação dessas, não é mesmo? Quem faz dança do ventre sabe que muitas pessoas têm uma ideia equivocada sobre a nossa arte. Pode ser uma mulher ciumenta, insegura ou com baixa autoestima. Pode ser um homem que acha que a dançarina está ali para se oferecer para ele. Ou pode ser apenas uma pessoa de mal com a vida. Os únicos seres maravilhosos que sempre amam uma apresentação de dança do ventre são as crianças. Elas não têm preconceitos, para elas a dança é um momento de alegria, de surpresa, de beleza – e elas estão certíssimas.

Para desenvolver esta postagem, vou usar o livro “Direção e preparação artística”, de Jorge Sabongi, inclusive peço desculpas por tantas citações do livro, mas é que as palavras que ele contém são perfeitas para o tema. Vou começar com a página 31:

“Primeiramente é essencial que tenhamos a humildade necessária para respeitar a percepção do espectador. Para a nossa própria autoestima, é preciso ter em mente que nunca iremos agradar 100% dos presentes. Sempre existirão aqueles que, de alguma forma, são dominados por perturbações internas que vêm de longe – frustrações, solidão, desespero, uma gama de variáveis que podem influir no humor daquele que assiste.”

Para quem não lembra, Jorge Sabongi fundou em 1982 a Casa de Chá Khan el Khalili, em São Paulo, e foi seu proprietário até o ano de 2019, se não me engano. São quase 40 anos de experiência com o público! Na Khan el Khalili, o público ia para assistir as apresentações de dança do ventre, além de provar comidas deliciosas. A respeito de públicos difíceis, o Jorge Sabongi escreve, na página 32:

“Uma vez li a frase ‘a maioria das pessoas está morta’ e fiquei impressionado com isso. Procurei encontrar a verdade dessas palavras e os motivos pelos quais foram escritas. Comecei a reparar no comportamento das pessoas e notei que, em muitos casos, existia uma ausência de espírito. Olhar vago e opaco, sorriso quase inexistente. Pessoas que, aparentemente, estão desconectadas do mundo e desiludidas de suas ações e da beleza das coisas que as rodeiam. Infelizmente, esta é uma tendência dos tempos atuais: más influências, preocupações, depressão.

Muitas vezes o artista depara-se com pessoas assim. A primeira impressão da bailarina é pessoal: ela acha que não está agradando como artista. Não se deixe desapontar, pois, na verdade, dificilmente você irá agradar alguém que apresente o quadro descrito acima. Neste caso, o ideal é procurar um vetor onde a energia seja mais favorável à sua atuação.”

Então, a sugestão do Jorge Sabongi é esta: se você está dançando e alguém fechou a cara para você, vá em direção a outra pessoa com um semblante mais agradável e acessível. Não perca seu tempo tentando agradar quem não merece seu esforço. Eu sei que é triste, porque o artista quer a aprovação e o aplauso do público, mas às vezes algumas pessoas podem ser mesquinhas.

O Jorge Sabongi dá mais algumas dicas para lidar com o público: ter postura e elegância; olhar para os espectadores, mas evitar fixar o olhar por muito tempo em determinada pessoa; desenvolver a presença de cena; não ter medo do palco.

Na página 135, ele fala sobre os riscos de se dançar em lugares que não são próprios para apresentações de dança do ventre:

“Existem muitos lugares que se determinam apresentar espetáculos de dança oriental e não oferecem a menor condição de atmosfera para que a bailarina possa atuar com a qualidade que lhe é devida.

Frequentemente contratantes desorientados e sem noção artística entusiasmam-se em introduzir a dança como variedade em seus eventos.

Assim, temos um show caricato, superficial, no qual o que predomina é, mais uma vez, a figura da mulher como objeto de consumo. Pode parecer exagero, mas é a pura realidade. A verdade é que para termos um show de dança árabe, é necessário criar uma atmosfera árabe com todos os requintes que o façam resplandecer: palacianos ou não. O que não tem sentido é estabelecer-se apresentações em lugares inóspitos: uma danceteria, supermercado, churrascaria, lugares onde as pessoas vivenciam outra realidade. Neste caso, o desconforto aparece tanto para a bailarina quanto para o público que talvez nem esteja tão disposto assim a assumir outro clima.”

Gente, eu já caí em todas essas ciladas! (risos). Mas vou ser sincera: após um ano de pandemia, ou seja, mais de um ano sem apresentações ao vivo, chego a ter saudade dessas arapucas (risos). Agora, falando sério – como é gratificante quando, durante uma apresentação em que você se entrega totalmente ao público, você sente aquela troca de energia maravilhosa! É uma coisa inexplicável, que só quem é artista sabe como é.

Outra coisa muito importante – apenas você sabe quanto tempo e dinheiro já investiu na dança. São anos de dedicação, e para quem quer se profissionalizar, os gastos são inúmeros. Para quem nunca fez nada, é muito fácil criticar e virar a cara na hora em que a bailarina está dançando. Mas a crítica dessas pessoas é válida? Pense nisso. Se você sabe que é uma boa dançarina, ignore as caras feias que poderão aparecer. Se ainda está no meio do caminho, continue a estudar, e procure avaliação de profissionais da área, para ver quais são os pontos a melhorar. Não se deixe abater por quem apenas sabe criticar, mas não entende nada de dança do ventre. Um abraço, e feliz dança para todos nós!

P.S.: recomendo muito a leitura do livro "Direção e preparação artística", dos autores Jorge Sabongi e Débora Sabongi, publicado pelos autores na cidade de São Paulo, no ano de 2010. Vale a pena!



 

 

 

 

 

 

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