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sexta-feira, 19 de março de 2021

O QUE É DRT?

A matéria de hoje foi sugerida pela Dominique de Miranda Lourenço, que me pediu para falar sobre DRT. Obrigada pela sugestão, Dominique!

A palavra DRT tem dois significados:

1 - Delegacia Regional de Trabalho.

2 – Documento de registro técnico.

O DRT é destinado aos artistas e técnicos em espetáculos de diversões, conforme a lei 6.533/78. Separei dois artigos dessa lei:

Art . 6º - O exercício das profissões de Artista e de Técnico em Espetáculos de Diversões requer prévio registro na Delegacia Regional do Trabalho do Ministério do Trabalho, o qual terá validade em todo o território nacional.

Art 7º - Para registro do Artista ou do Técnico em Espetáculos de Diversões, é necessário a apresentação de:

I - diploma de curso superior de Diretor de Teatro, Coreógrafo, Professor de Arte Dramática, ou outros cursos semelhantes, reconhecidos na forma da Lei; ou

II - diploma ou certificado correspondentes às habilitações profissionais de 2º Grau de Ator, Contra-regra, Cenotécnico, Sonoplasta, ou outras semelhantes, reconhecidas na forma da Lei; ou 

III - atestado de capacitação profissional fornecido pelo Sindicato representativo das categorias  profissionais e, subsidiariamente, pela Federação respectiva.

Então, pela lei, o artista precisa ter registro profissional para poder atuar. Essa certificação pode ser através de diploma de curso superior na área ou de autorização do sindicato. Na nossa área de atuação, a dança, somos representados pelo SATED – Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos e Diversões. Em Curitiba/PR, o SATED fica localizado na Rua Treze de Maio, 644, centro.

Especificamente no caso da dança do ventre, são poucas as professoras que possuem diploma de curso superior em dança, geralmente as pessoas aprendem a modalidade em escolas de dança e algumas se tornam professoras após alguns anos de estudos. Nesse caso, você vai precisar de certificados que comprovem os cursos que você já fez. Ah, você estudou dança do ventre apenas por uns seis meses e nunca fez nenhum workshop? Aí fica difícil. Lembre-se de que para ser uma profissional da dança do ventre são necessários, no mínimo, três anos de estudos regulares.

A propósito, o que é ser profissional em dança do ventre? É quem dança mediante cachê, e também quem dá aulas de dança. Se você apenas faz aulas de dança, não é obrigada a ter registro profissional, obviamente. E qual é o risco de atuar como dançarina ou professora de dança sem o registro profissional? É que a pessoa ou a escola podem ser denunciadas. Além disso, algumas instituições exigem o DRT de seus profissionais contratados.

De tempos em tempos, o SATED abre inscrições para quem quer tirar o registro profissional. Para isso, é bom ficar atenta, pois eles não vão ligar para você para avisar – rs. Com as inscrições abertas, confira a documentação solicitada pelo SATED, valor das taxas, etc. 

Com toda a documentação em mãos e as taxas pagas, você terá que se apresentar para uma banca, que é composta por profissionais do balé e talvez algum(a) profissional da dança do ventre. Se você for aprovada, vai receber uma carteirinha com a expressão “dançarina”, pois a carteira de bailarina é apenas para quem faz balé. 

Algumas dicas:

- Algumas bancas vão pedir uma coreografia, mas em alguns estados as bancas pedem improviso. Veja qual é a exigência da banca.

- Em hipótese alguma chegue atrasada no dia do exame.

- No dia anterior, confira tudo o que irá usar - traje de dança, bijuterias, acessórios (como, por exemplo, véu), e não esqueça os alfinetes.

- Não se intimide com o olhar (geralmente sério) da banca examinadora. Mantenha a tranquilidade, para não prejudicar a sua apresentação.

- Tente não dançar apenas olhando para a banca, faça as mudanças de direção, utilize todo o espaço cênico, não se esqueça dos deslocamentos.

Você fez todo o processo e não foi aprovada? Não desista, tente novamente, e tente descobrir quais pontos da sua dança podem ser melhorados. Você passou? Parabéns! Mas isso quer dizer que você é uma excelente dançarina? Não necessariamente. Lembre-se sempre de que a dança requer aprendizado contínuo e aulas regulares com alguém que tenha mais conhecimentos que você - por três motivos:

- ninguém sabe tudo sobre a dança;

- a dança evolui, então quem não continua a estudar vai ficar estagnado;

- é sempre bom ter alguém para nos tirar da nossa zona de conforto e nos desafiar a melhorar nossos pontos fracos na dança.

Espero que esta postagem tenha sido útil, e desejo a todos uma feliz dança! Para finalizar, recomendo o excelente vídeo da Nilza Leão, cujo link segue abaixo:

Nilza Leão:

https://www.youtube.com/watch?v=5H_sQxSHLgs

Fontes utilizadas:

http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l6533.htm

https://www.satedpr.org.br/

https://www.mundodadanca.art.br/2012/11/drt-voce-quer-ser-um-profissional-na.html#:~:text=Ter%20um%20DRT%2C%20como%20a,preparado%20para%20atuar%20na%20%C3%A1rea.

https://www.centraldancadoventre.com.br/publicacoes/artigos/26/quer-viver-da-danca-saiba-como-se-profissionalizar/17188?fb_comment_id=779302875455254_974299745955565

https://breakingworld.com.br/2020/06/30/2020-06-30-preciso-tirar-o-drt-e-agora/

http://dancadoventre-estudos.blogspot.com/2012/06/ter-o-drt-faz-de-voce-profissional.html

https://www.youtube.com/watch?v=5H_sQxSHLgs

 

 

 

 

 

  

terça-feira, 16 de março de 2021

SOBRE AS AULAS ON-LINE

Olá! A postagem de hoje foi sugerida pela Luiza Sabchuk, que me pergunta “como ter um melhor aproveitamento das aulas on-line”.

Como todo mundo sabe, desde que a Covid-19 se espalhou pelo mundo, muitas atividades estão sendo feitas de forma on-line: trabalho, estudo, atividades físicas, apresentações artísticas, etc. Na nossa área em particular, que é o ensino de dança, houve uma mudança drástica na forma de ensinar.

É lógico que tanto a professora quanto a aluna preferem as aulas presenciais! É mais fácil de corrigir a aluna, é mais fácil de tirar dúvidas, não tem problemas de conexão... Só que, no “novo normal”, algumas coisas precisaram passar por uma adaptação, então o ensino on-line é uma ótima chance de começar (ou continuar) os seus estudos na dança. Ainda bem que existe a tecnologia para nos salvar nessas horas. 

E o que essa nova forma de aprender vai exigir do aluno?

1º Um local com espaço suficiente para se mexer. Não precisa ser um espaço muito amplo, mas também não pode ser tão apertado de forma que você não consiga fazer nenhuma das atividades;

2º Uma boa conexão com a Internet, para evitar as quedas e os travamentos do sistema;

3º Se possível, um notebook, pois fica mais fácil de visualizar a professora. Se você não tiver notebook, pode ser utilizado o celular, mas não se esqueça de carregar a bateria do celular antes da aula. Também é muito útil ter um daqueles tripés para celular, nem que seja daqueles baratinhos;

3º Conhecimento básico do sistema que será utilizado para as aulas online. Geralmente, são programas fáceis de utilizar;

4º Assiduidade e pontualidade – da mesma forma que na aula presencial. Embora, neste momento, você não saia da sua casa para fazer aula na escola de dança, é necessário que continue com sua rotina de estudos, mesmo que seja à distância;

5º Força de vontade, foco, disciplina e resiliência – como em tudo na vida;

6º Para fixar melhor os conhecimentos adquiridos na aula online, é muito válido se utilizar de anotações (no caderno ou no computador), bem como filmar as sequências que foram ensinadas.

7º Evite distrações durante a aula. Explique aos familiares que este momento é para o seu aprendizado, e não deve ser interrompido. Da mesma forma, não fique checando as redes sociais durante a aula, tenha foco no que está sendo ensinado pela professora.

8º Tire as dúvidas com a professora, na hora da aula. Provavelmente, a ferramenta utilizada terá um chat para qualquer coisa que você precise comentar.

9º Tenha consciência de que a dança é uma grande aliada neste momento de pandemia, para lidar com o stress causado pelo confinamento, bem como com as angústias geradas pela pandemia.

10º Por fim, saiba que tudo isso vai passar.

Se cuide, use máscara, lave as mãos, faça o isolamento social – e não deixe de fazer suas aulas de dança on-line. 







domingo, 14 de março de 2021

AS MÃOS NA DANÇA DO VENTRE

A matéria de hoje foi uma sugestão da minha aluna Rayse – ela me pediu para falar sobre movimentos com as mãos na dança do ventre.

Historicamente falando, na origem da dança do ventre, os braços eram bem simples e estáticos, e a dança era espontânea e não coreografada. Se você assistir no YouTube  os vídeos mais antigos que existem, da bailarina Little Egypt, verá que não existia movimentação de braços, eles ficavam semiabertos por quase todo tempo. E também pode assistir aos vídeos das Irmãs Mazin, que também são dançarinas ghawazee e usam os braços da mesma forma. O foco da dança delas está nos quadris e as mãos são utilizadas para tocar os snujs.

Isso começou a mudar com Badia Masabni, que fez diversas mudanças em seus espetáculos no Casino Badia. Ela contratou coreógrafos russos, que introduziram elementos do balé clássico na dança do ventre. É nessa época que surgem os braços abertos na altura dos ombros, os braços no alto e os braços de serpente.

Em seguida, vem a Era de Ouro da dança do ventre, quando surgem as grandes dançarinas, tais como Tahia Carioca, Samia Gamal e muitas outras estrelas. Os movimentos de braços de Samia Gamal, inclusive, são considerados referência por muitas dançarinas, até os dias de hoje.

E para que servem os braços e mãos na dança do ventre? A minha professora, Linda Hathor, diz que os braços são condutores de emoção. Através dos movimentos das mãos e braços, a bailarina se comunica com o público, conta uma estória, interpreta os sentimentos da música.

A bailarina Brysa Mahaila escreveu, à página 55 do seu livro:

“Os movimentos das mãos promovem o acabamento da dança e conferem delicadeza à bailarina quando bem executados, mas podem, claro, comprometer negativamente toda estética da dança se estiverem sem vida e em desarmonia. A mão da bailarina de dança do ventre é bem característica, podendo variar de acordo com o estilo de dança (clássica ou folclórica), como também pela personalidade de quem dança.”

Vocês já repararam como os movimentos das mãos das bailarinas de dança do ventre são suaves e ondulatórios? Mesmo que os quadris estejam se movimentando de forma extremamente rápida, os braços são lentos, e isso tem muito a ver com a questão da dissociação corporal, que é uma das principais características da dança do ventre. Haja coordenação motora para isso!

Os braços podem ser usados como uma moldura para o nosso corpo, bem como podem se movimentar durante a dança. De uma forma bem básica, vou enumerar alguns movimentos que podem ser feitos com os membros superiores:

Ombros – rotação para trás ou para frente, com apenas um dos ombros, ou com os dois ombros, de forma alternada.

Braços – serpente alternada, desenhos circulares ou de infinito com os braços, subidas e descidas dos braços, impulso com os braços para executar os giros, poses com os braços, cruzar ou abrir  os braços, etc.

Mãos – ondulação, rotação com os punhos, apontar com a mão para determinada direção, posicionar a mão em alguma parte do corpo, etc.

Os movimentos com os braços podem se originar a partir de um impulso dos ombros, dos cotovelos ou dos punhos. Eu sempre digo para as minhas alunas imaginar a seguinte situação: pense que vocês são umas marionetes, com cordinhas nos ombros, cotovelos e punhos. Para determinado movimento, vocês vão acionar a cordinha do cotovelo, em outro movimento pode ser que vocês usem a cordinha do punho, e assim por diante.

Você quer saber mais? Então, por gentileza, leia o meu texto "Movimentos desafiadores - parte 2", cujo link segue abaixo:

http://azizamahaila.blogspot.com/2020/11/movimentos-desafiadores-parte-2.html


 

Fontes utilizadas para esta matéria:

Brysa Mahaila, “Os pilares da profissionalização em dança do ventre”, volume III – Corporeidade, técnica e carreira. São Paulo, Kaleidoscópio de Ideias, 2018.

https://lulushangrilahouse.blogspot.com/2012/03/os-bracos-na-danca-muito-mais-do-que.html

https://grupokaliladv.wordpress.com/para-estudo/maos-e-bracos/

  

terça-feira, 9 de março de 2021

FARIDA FAHMY - A GRANDE DAMA DA DANÇA

Hoje vou falar sobre uma grande dançarina – Farida Fahmy, a primeira bailarina da Trupe Reda. Por gentileza, para começar, leia a postagem abaixo:

http://azizamahaila.blogspot.com/2019/11/a-importancia-de-mahmoud-reda-e-sua.html

Nascida em 1940 no Egito, Farida foi - junto com Mahmoud Reda e Ali Reda – uma das figuras principais da Trupe Reda. Era filha de pai egípcio e mãe britânica, e desde criança quis ser bailarina:

“De alguma maneira eu sabia que seria bailarina, desde que tinha 7 anos. Eu não entendia o que era a dança e o seu contexto social no Egito. Nesse tempo a dança não era arte, os egípcios tinham uma relação de amor e ódio com a dança, havia uma ambivalência a respeito da dança e eu não sabia nada disso, eu só queria dançar. “

Farida Fahmy e suas irmãs tiveram sorte de ter um pai que incentivou as filhas nas atividades artísticas e esportivas. Nesta época (anos 1950), havia um preconceito no Egito em relação às dançarinas, e foi isso que Farida quis dizer com a expressão “nesse tempo a dança não era arte”. Ela estudou balé clássico, e com 19 anos passou a integrar a Trupe Reda.  

Segundo a bailarina Brysa Mahaila, à página 71 de seu livro “Os pilares da profissionalização em dança do ventre”, volume I:

“A The Reda Troup, fundada em 1959 por Mahmoud Reda, foi a primeira companhia de dança folclórica egípcia. The Reda Troup, no início, era composta por quinze bailarinos. Ela chegou a ter mais de 150 membros, incluindo bailarinos, músicos e técnicos. Essa companhia apresentou mais de 300 shows e participou de dois filmes musicais: Mid year vacation e Love in Elkarnak. Muitos membros da companhia de Reda tornaram-se famosos, como os professores mestres Raqia Hassan, Momo Kadous, Mo Geddawi e Yousry Sharif.

A lendária Farida Fahmy foi co-fundadora e primeira dançarina da Reda Troup. Por 25 anos, teve a sua história vinculada a essa companhia de dança folclórica. Ela atuou no papel principal da trupe e elevou a dança ao patamar de fina arte. O estilo, a elegância e a graça originais ainda inspiram gerações de dançarinos que acompanham as suas audiências e apresentações no Egito e no exterior. A dedicação, disciplina e o compromisso serviram de exemplo a bailarinos que integraram a companhia posteriormente.”

Além de bailarina, a partir de 1970 ela também assumiu a função de figurinista do grupo. Vale a pena lembrar que, além do trabalho de pesquisa das danças folclóricas, também era necessário uma pesquisa dos trajes apropriados às danças em questão. A respeito do trabalho como figurinista, existe um texto da própria Farida, cujo link segue abaixo:

http://www.faridafahmy.com/costumes.html

No link acima, consta este desenho de alguns figurinos criados por ela:



Ainda segundo a bailarina Brysa Mahaila, à página 72 do seu livro:

“Junto a Reda, Farida Fahmy viajou por mais de 60 países, atuou em festivais internacionais de dança nos quais a trupe foi premiada. A bailarina dançou para chefes de estado, inúmeras vezes, no Egito e no exterior. Ela estrelou inúmeros filmes egípcios e em dois grandes musicais dirigidos por seu último marido, Ali Reda, e Mahmoud Reda. Farida continuou sempre aperfeiçoando seus conhecimentos, formou-se Bacharel em Artes na Literatura Inglesa, na Universidade do Cairo, em 1967, e em Etnologia da Dança, na Universidade de Los Angeles. O status social, a carreira artística e as realizações acadêmicas realçam a grandeza de Farida, considerada uma das maiores bailarinas de seu tempo.

Financiada pelo governo egípcio por ser encarada como representante do folclore egípcio tanto no nível da música como da dança, a Reda Troup viaja por todo o país, a fim de, após investigar e analisar as danças folclóricas, organizar tournée mundiais para promover essas danças como arte digna de respeito. Mahmoud Reda sempre ressaltou que as suas danças eram inspiradas no folclore, mas, através do público, descobriu que elas, apesar de serem adaptações, não foram descaracterizadas, pois o povo via-se (sentia-se representado) no palco.”

Aqui, uma foto belíssima de Mahmoud Reda e Farida Fahmy:

Em 1983, Farida encerrou a carreira de bailarina. Existe uma entrevista ela, que está disponível da internet, e vale muito a pena ler! Ela dá várias dicas de elementos importantes na dança do ventre. O link da entrevista segue abaixo:

http://www.faridafahmy.com/EgyptianDance.html

Nessa entrevista, a Farida diz uma coisa muito bacana:

“Cada passo deve ter o seu valor... o público sente e entende isso.”


Fontes de pesquisa utilizadas:

Brysa Mahaila, “Os pilares da profissionalização em dança do ventre” – volume I, História e folclore. Kaleidoscópio de Ideias, São Paulo, 2016.

https://www.shainanur.com.br/farida-fahmy

http://www.faridafahmy.com/

https://blognuriyahabdo.wordpress.com/2011/04/11/farida-fahmy-bailarina-lendaria/

https://lisdecastro.wordpress.com/2012/07/15/egito-a-era-de-ouro-parte-7/

https://lisdecastro.wordpress.com/2018/03/21/conta-farida/

 

 

 

  

sábado, 6 de março de 2021

QUANDO O PÚBLICO É HOSTIL

Esta postagem foi sugerida pela Cláudia Futz, que perguntou:

“O que fazer quando o público não interage com a dançarina? Quando é hostil?”

Qual bailarina nunca passou por uma situação dessas, não é mesmo? Quem faz dança do ventre sabe que muitas pessoas têm uma ideia equivocada sobre a nossa arte. Pode ser uma mulher ciumenta, insegura ou com baixa autoestima. Pode ser um homem que acha que a dançarina está ali para se oferecer para ele. Ou pode ser apenas uma pessoa de mal com a vida. Os únicos seres maravilhosos que sempre amam uma apresentação de dança do ventre são as crianças. Elas não têm preconceitos, para elas a dança é um momento de alegria, de surpresa, de beleza – e elas estão certíssimas.

Para desenvolver esta postagem, vou usar o livro “Direção e preparação artística”, de Jorge Sabongi, inclusive peço desculpas por tantas citações do livro, mas é que as palavras que ele contém são perfeitas para o tema. Vou começar com a página 31:

“Primeiramente é essencial que tenhamos a humildade necessária para respeitar a percepção do espectador. Para a nossa própria autoestima, é preciso ter em mente que nunca iremos agradar 100% dos presentes. Sempre existirão aqueles que, de alguma forma, são dominados por perturbações internas que vêm de longe – frustrações, solidão, desespero, uma gama de variáveis que podem influir no humor daquele que assiste.”

Para quem não lembra, Jorge Sabongi fundou em 1982 a Casa de Chá Khan el Khalili, em São Paulo, e foi seu proprietário até o ano de 2019, se não me engano. São quase 40 anos de experiência com o público! Na Khan el Khalili, o público ia para assistir as apresentações de dança do ventre, além de provar comidas deliciosas. A respeito de públicos difíceis, o Jorge Sabongi escreve, na página 32:

“Uma vez li a frase ‘a maioria das pessoas está morta’ e fiquei impressionado com isso. Procurei encontrar a verdade dessas palavras e os motivos pelos quais foram escritas. Comecei a reparar no comportamento das pessoas e notei que, em muitos casos, existia uma ausência de espírito. Olhar vago e opaco, sorriso quase inexistente. Pessoas que, aparentemente, estão desconectadas do mundo e desiludidas de suas ações e da beleza das coisas que as rodeiam. Infelizmente, esta é uma tendência dos tempos atuais: más influências, preocupações, depressão.

Muitas vezes o artista depara-se com pessoas assim. A primeira impressão da bailarina é pessoal: ela acha que não está agradando como artista. Não se deixe desapontar, pois, na verdade, dificilmente você irá agradar alguém que apresente o quadro descrito acima. Neste caso, o ideal é procurar um vetor onde a energia seja mais favorável à sua atuação.”

Então, a sugestão do Jorge Sabongi é esta: se você está dançando e alguém fechou a cara para você, vá em direção a outra pessoa com um semblante mais agradável e acessível. Não perca seu tempo tentando agradar quem não merece seu esforço. Eu sei que é triste, porque o artista quer a aprovação e o aplauso do público, mas às vezes algumas pessoas podem ser mesquinhas.

O Jorge Sabongi dá mais algumas dicas para lidar com o público: ter postura e elegância; olhar para os espectadores, mas evitar fixar o olhar por muito tempo em determinada pessoa; desenvolver a presença de cena; não ter medo do palco.

Na página 135, ele fala sobre os riscos de se dançar em lugares que não são próprios para apresentações de dança do ventre:

“Existem muitos lugares que se determinam apresentar espetáculos de dança oriental e não oferecem a menor condição de atmosfera para que a bailarina possa atuar com a qualidade que lhe é devida.

Frequentemente contratantes desorientados e sem noção artística entusiasmam-se em introduzir a dança como variedade em seus eventos.

Assim, temos um show caricato, superficial, no qual o que predomina é, mais uma vez, a figura da mulher como objeto de consumo. Pode parecer exagero, mas é a pura realidade. A verdade é que para termos um show de dança árabe, é necessário criar uma atmosfera árabe com todos os requintes que o façam resplandecer: palacianos ou não. O que não tem sentido é estabelecer-se apresentações em lugares inóspitos: uma danceteria, supermercado, churrascaria, lugares onde as pessoas vivenciam outra realidade. Neste caso, o desconforto aparece tanto para a bailarina quanto para o público que talvez nem esteja tão disposto assim a assumir outro clima.”

Gente, eu já caí em todas essas ciladas! (risos). Mas vou ser sincera: após um ano de pandemia, ou seja, mais de um ano sem apresentações ao vivo, chego a ter saudade dessas arapucas (risos). Agora, falando sério – como é gratificante quando, durante uma apresentação em que você se entrega totalmente ao público, você sente aquela troca de energia maravilhosa! É uma coisa inexplicável, que só quem é artista sabe como é.

Outra coisa muito importante – apenas você sabe quanto tempo e dinheiro já investiu na dança. São anos de dedicação, e para quem quer se profissionalizar, os gastos são inúmeros. Para quem nunca fez nada, é muito fácil criticar e virar a cara na hora em que a bailarina está dançando. Mas a crítica dessas pessoas é válida? Pense nisso. Se você sabe que é uma boa dançarina, ignore as caras feias que poderão aparecer. Se ainda está no meio do caminho, continue a estudar, e procure avaliação de profissionais da área, para ver quais são os pontos a melhorar. Não se deixe abater por quem apenas sabe criticar, mas não entende nada de dança do ventre. Um abraço, e feliz dança para todos nós!

P.S.: recomendo muito a leitura do livro "Direção e preparação artística", dos autores Jorge Sabongi e Débora Sabongi, publicado pelos autores na cidade de São Paulo, no ano de 2010. Vale a pena!



 

 

 

 

 

 

sexta-feira, 5 de março de 2021

OS ACESSÓRIOS NA DANÇA

Esta postagem foi sugerida pela professora Camila Nickel. Ela me pediu para falar sobre os acessórios utilizados na dança do ventre e no folclore, quais são os típicos da dança egípcia e quais são típicos dos outros países. Antes de falar sobre cada acessório, coloquei algumas fotos que tirei da internet.

VÉU - O acessório mais utilizado é o véu, em suas diversas formas. Eu já fiz uma postagem sobre o assunto, e peço que você acesse a matéria abaixo, é bem esclarecedora:

http://azizamahaila.blogspot.com/2019/12/tipos-de-veus-usados-na-danca-do-ventre.html

ESPADA - Eu também já fiz uma matéria sobre a história da dança da espada, o link segue abaixo:

http://azizamahaila.blogspot.com/2020/06/a-origem-da-danca-da-espada.html


SNUJS E PANDEIRO - Quando os europeus chegaram ao Egito, encontraram duas classes de dançarinas: as Ghawazee (ciganas) e as Almeh (mulheres cultas). Existem ilustrações dessas dançarinas, e geralmente elas estão com snujs ou pandeiro nas mãos. Os snjus podem ser utilizados na dança Baladi, na dança Ghawazee e até na dança Khawleya! A respeito dos snujs, achei um texto muito interessante:

https://bellydanceart.blogspot.com/2014/09/snujs.html



CANDELABRO, TAÇAS E BANDEJA - Em uma das minhas postagens intitulada “Dançarinas precursoras”, eu escrevi sobre a dançarina Shafiqa El-Copta, nascida em 1851 no Egito. Ela foi uma dançarina famosa, proprietária de casa de shows, e se notabilizou por introduzir elementos de equilíbrio à dança, como o candelabro e a bandeja. Segundo a bailarina Brysa Mahaila, a dança do candelabro pode ter dado origem à dança com as taças. Ainda com referência à dança com a bandeja, podemos citar a dança da bandeja marroquina, que provavelmente surgiu nos cafés do Marrocos no século 19.

PUNHAL - Segundo a bailarina Brysa Mahaila, o uso do punhal é originário das tradições ciganas, mas não existem informações precisas a respeito da origem. O punhal também é utilizado na dança Khawleya, que é a dança das ciganas iraquianas. A professora Nilza Leão diz que não existe uma dança do punhal propriamente dita, mas que esse acessório pode ser usado em determinados momentos da dança – como acontece, por exemplo, na dança Khawleya, quando a bailarina pode, ou não, usar o punhal durante a sua performance.

INFLUÊNCIA DE MAHMOUD REDA

Agora, vou começar a falar das danças folclóricas que, de uma forma ou outra, tiveram influência do trabalho do coreógrafo Mahmoud Reda – inclusive algumas dessas danças são criação dele, no seu trabalho de dança-teatro. 

BASTÃO - Originária do Tahtib, a dança Saidi pode ser executada com um ou dois bastões. A respeito dessa dança, favor ler a postagem abaixo:

http://azizamahaila.blogspot.com/2019/10/danca-saidi.html

As bailarinas Luciana Midlej e Melinda James dizem que existem danças com o bastão em todo o mundo árabe. Eu já vi um Dabke sendo dançado com bastão, e ele também já foi utilizado pela bailarina Fifi Abdo na dança Baladi, assim como era usado na dança Ghawazee pelas Irmãs Mazin.  

JARRO E FLORES - A dança com o jarro e a dança com as flores originaram-se dos povos camponeses do Egito, o povo Falahi. O jarro simboliza a importância da água para o povo egípcio, mas também existem danças com o jarro em outros países, como a Tunísia, a Líbia e o Marrocos. A professora Nilza Leão diz que a dança com o jarro egípcia tem uma conotação completamente diferente das outras danças com o jarro, com a dança tunisiana, por exemplo.

REDE E COLHERES – no Egito, na região do Canal de Suez, surgiu uma dança chamada Mambouty, que foi levada aos palcos pela Trupe Reda. Nessa dança, pode ou não ser utilizada uma rede. Também podem ser usadas as colheres, para fazer as marcações de ritmo. Na Turquia, também existe uma dança com as colheres, mas ela é completamente diferente do Mambouty.  

Espero que a pergunta da professora Camila Nickel tenha sido respondida. Gostaria de lembrar que não sou dona da verdade, e pode acontecer de alguma informação não estar cem por cento correta. Abaixo, deixo o link de um vídeo da professora Nilza Leão, que achei muito interessante e esclarecedor, sobre o uso de alguns acessórios na dança.

https://www.youtube.com/watch?v=jcrazjwF0aI

 

Fontes utilizadas:

“Os pilares da profissionalização em dança do ventre”, volume I – História e folclore. Brysa Mahaila, Editora Kaleidoscópio de Ideias, São Paulo, 2016.

“Folclore árabe – cultura, arte e dança”, volume I. Luciana Midlej e Melinda James, Editora Kaleidoscópio de Ideias, 2017.

Nilza Leão: https://www.youtube.com/watch?v=jcrazjwF0aI

  

terça-feira, 2 de março de 2021

O USO DO ABEY

A postagem de hoje é decorrente de uma dúvida da Cláudia Futz, que pergunta:

“Após uma apresentação, a bailarina pode retornar ao salão com o figurino ou deve estar sempre com o abey?”

Para quem não sabe, o abey é uma capa que serve para cobrir o corpo da bailarina, por dois motivos: não deixar os braços e o tronco da dançarina à mostra, e também para não tirar a surpresa do traje de dança. Segue abaixo uma foto de um abey, que tirei da internet:


O abey pode ser comprado pela internet, ou você pode pedir a uma costureira para fazer. Pode ser utilizado qualquer tecido, o importante é que ele não seja transparente. Acabamentos bordados e pedrarias podem ser usados, a critério da bailarina. Existem as opções de abey com ou sem capuz (o capuz é útil, porque protege os nossos cabelos, caso o tempo esteja um pouco úmido).

Agora, vou responder à pergunta da Cláudia (sempre ressaltando que eu não sou dona da verdade, estou dando a minha opinião, e as pessoas são livres para concordar ou não): vamos supor que você seja contratada para dançar em uma festa de aniversário, de casamento, ou mesmo um evento empresarial. Se não for possível se trocar no lugar da festa, você já chegará trajada, é lógico – mas com o abey cobrindo seu corpo.

Na hora de dançar, você entra sem o abey, e faz sua apresentação. Evite entrar com o abey, tirar ele na frente do público, e em seguida dançar (dá uma impressão de striptease - rs). Existem duas possibilidades após a apresentação, e elas devem ser combinadas antes com o contratante:

1 – saída “à francesa”, ou seja, você dança e vai embora;

2 – após a apresentação, você coloca o seu abey e vai tirar fotos com as pessoas. No momento da foto, caso seja solicitado, você pode tirar o seu abey, mas se permanecer na festa, esteja sempre com o corpo coberto.

Um exemplo: há alguns anos, eu organizava jantares árabes em um restaurante da minha cidade. As bailarinas – tanto as alunas quanto as convidadas – chamavam seus amigos e parentes para prestigiarem a apresentação. Após as danças, vinha o jantar, e como as alunas circulavam pelo salão, elas colocavam o abey por cima do traje de dança.

E se a apresentação acontecer em um teatro? Enquanto a dançarina estiver no palco ou nos bastidores, não existe necessidade de colocar o abey. Porém, se ela precisar sair do teatro, é preciso vestir o abey. Um exemplo: a minha professora faz um festival em um shopping de Curitiba. O teatro do shopping fica ao lado da praça de alimentação. Neste caso, se a dançarina estiver trajada, indo em direção ao teatro, ou saindo do teatro, o uso do abey é necessário.

É sempre bom lembrar que a dança do ventre é uma modalidade que sofre de preconceito por parte da nossa sociedade. Algumas pessoas vêm as bailarinas de dança do ventre como mulheres cujo único objetivo na vida é seduzir os homens (e nada mais falso que isso, não é mesmo?). Se tiver mulher ciumenta por perto, a coisa fica pior. Para evitar situações desagradáveis, usem o abey, e na hora de dançar, mostrem todo o esplendor da sua roupa... e da sua dança. 

Espero que a pergunta tenha sido respondida, Cláudia. E aí, leitor, você gostou desta postagem? Ou não concorda? Fique à vontade para colocar o seu comentário, todas as opiniões são bemvindas. Um grande abraço, e uma feliz dança para todos!