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sábado, 8 de agosto de 2020

O HARÉM NO IMAGINÁRIO OCIDENTAL

Quando falamos em harém, o que geralmente vem à nossa cabeça? Um lugar luxuoso, cheio de mulheres nuas ou seminuas, em pose lânguidas, não é mesmo? Algo parecido com as imagens abaixo:

"The harem on the terrace”, Jean-Léon Gérôme

“La dance au harem”, Edouard Richter

"Mulheres de Argel", Eugène Delacroix


As obras acima têm alguns elementos em comum:

- em geral, apenas mulheres são retratadas;

- os homens, quando aparecem, são os famosos eunucos, os guardiões do harém;

- não são retratadas crianças;

- algumas das mulheres dançam ou tocam algum instrumento;

- as mulheres da casa estão à toa, como se não tivessem nada para fazer;

- quando alguma mulher aparece trabalhando, é por ser escrava.

- e o mais importante – todas essas obras foram pintadas por homens ocidentais.

Será que tudo isso estava certo? O que era, realmente, um harém? A expressão harém tem origem na palavra árabe “haram”, que significa “proibido”. O harém era a área da casa cujo acesso era proibido aos visitantes, e reservada às mulheres e crianças. Na arquitetura árabe, é muito comum o uso do pátio interno, que serve para a entrada de luz e ar nas residências, e também ajuda a minimizar o calor. Esse pátio tinha uma fonte de água, e lugares com sombra para as pessoas. Vejamos um exemplo:

(Pátio interno de uma residência)

O dicionário define harém como:

1.  Conjunto de aposentos independentes, na casa de um sultão (‘príncipe’) muçulmano, destinado à habitação das mulheres.

2.   Grupo constituído por esposas, concubinas, parentes femininas e criadas que habitam o harém.

Se o harém era interditado aos não-residentes, como os pintores ocidentais teriam acesso a ele? É óbvio que eles não tinham, então usavam e abusavam da imaginação. Além disso, muitos desses artistas nem conheciam o Oriente. Jean-Auguste Dominique Ingres, por exemplo, viveu apenas em França e Itália, jamais conheceu qualquer país muçulmano. É bom lembrar que estamos falando de arte, e o artista pode usar a liberdade de se expressar como bem queira – mas isso não quer dizer que o harém que eles imaginavam era verdadeiro.

Tudo isso tem a ver com o Orientalismo, que segundo a Wikipedia é:

“... um termo polissêmico utilizado tanto para definir os estudos orientais – ou seja, o estudo das civilizações orientais atuais ou históricas, especialmente do Oriente Médio e, em menor medida, do Extremo Oriente – como para designar a representação, imitação ou mistificação, segundo uma visão eurocêntrica, de determinados aspectos das culturas orientais, por parte de escritores e artistas plásticos ocidentais, que acabaram por convertê-los em estereótipos.”

Quero ressaltar esta frase: “que acabaram por convertê-los em estereótipos”. Um exemplo: o estereótipo do Oriente exótico, diferente, sensual. Outro exemplo: o estereótipo da mulher árabe, cuja única função era dar prazer ao seu esposo ou senhor. Mais um: o mito da odalisca. 

O Orientalismo tinha como premissa o fato de que os orientais eram inferiores aos ocidentais, e que o Ocidente tinha o direito de dominar o Oriente (coisa que eles de fato fizeram, e tentam fazer até hoje). É lógico que essa ideia é completamente ilógica e imoral, pois não existem povos melhores ou piores que os outros.

Retornando aos haréns: eles não existiram apenas nos povos muçulmanos, mas em diversas civilizações. O harém está diretamente ligado à poligamia (união de um indivíduo, geralmente homem, com mais de uma pessoa, geralmente mulher). Nos países islâmicos, o homem pode ter até quatro esposas, desde que possa sustentá-las. No caso dos grandes haréns dos sultões, era para eles uma questão de dinheiro, poder e prestígio mostrar que possuíam e podiam manter muitas mulheres.

Como era a posição das mulheres no harém? A mais importante de todas era a mãe do sultão, em seguida vinham as esposas oficiais, depois as concubinas e, por último, as odaliscas (que eram as escravas). No harém também ficavam as parentes do sexo feminino, bem como as crianças. Todas essas mulheres (esposas, concubinas e odaliscas) eram mantidas em isolamento, e ficavam à disposição do sultão. O harém era um local de dominação masculina, e as mulheres lutavam entre si para garantir uma melhor posição para si e para seus filhos.

Existia a possibilidade de mobilidade social dentro do harém, por exemplo, uma odalisca poderia se tornar concubina. Quando vemos as obras que retratam o harém, notaremos que as odaliscas quase sempre estão nuas e sem fazer nada (na vida real, elas eram escravizadas e serviam às esposas e concubinas).

“Odalisque with slave”, Jean-Paul Frandrin

“La grande odalisque”, Jean-Auguste Dominique Ingres

A propósito: você sabia que a escravidão começou com a escravidão feminina, inicialmente? É que era mais fácil escravizar uma mulher do que um homem, devido às discrepâncias de força física entre um homem e uma mulher. Pois bem, os haréns eram abastecidos com escravas dos povos conquistados pelo sultão.

Gostou da postagem? Pois então assista ao vídeo cujo link está abaixo, é bem interessante!

https://www.youtube.com/watch?v=lt2i5xF5fxE

 

2 comentários:

Fran disse...

Muito interessante!

Aziza Mahaila disse...

Pois é mesmo fascinante, não é, Fran? E você assistiu ao vídeo? É muito legal, explica muita coisa.