Nota: antes de ler o texto a seguir, é bom ler a postagem “Música modal – a base da música oriental”, cujo link segue abaixo.
http://azizamahaila.blogspot.com/2019/12/musica-modal-base-da-musica-oriental.html
Você conhece os instrumentos
orientais? Consegue distinguir os sons deles na música? Sabe a diferença entre
os instrumentos melódicos e os percussivos? E sabe dizer quais são os
instrumentos orientais e quais os ocidentais? Acha que o assunto é importante,
ou deixa passar batido? Pois vamos ver porque é tão crucial saber distinguir os
instrumentos na música oriental.
Nós vivemos no Ocidente, e os países que ficam ao Leste são os países orientais. Entram nessa conta os países do Oriente Médio (do leste do Mar Mediterrâneo ao Golfo Pérsico), e também os países do Extremo Oriente (Rússia, China, as duas Coréias, Japão e Taiwan). No caso da dança do ventre, também conhecida como “dança oriental”, estamos falando das danças realizadas no Oriente Médio.
Antes de começar a falar dos
instrumentos, vamos a três definições importantes, de acordo com o dicionário:
Ritmo
– “sucessão
de tempos fortes e fracos que se alternam com intervalos regulares.”
Melodia
– “sequência
de notas ou sons que se relacionam reciprocamente de modo a formar um todo
harmônico; linha melódica.”
Harmonia – “quando duas ou mais notas de diferentes graus são tocadas ao mesmo tempo.”
Vou explicar primeiro sobre
os instrumentos, antes de falar sobre a interpretação. A dança do ventre, bem
como as músicas do folclore árabe, se utiliza dos instrumentos:
A
– Percussivos, tais como: derbake, dohola, duff, mazhar,
riqq, snujs, tar, tabl baladi.
B
– Melódicos e harmônicos, tais como: alaúde, kanoon, violino,
acordeão, saxofone, teclado, semsemeyya, rababa, as diversas flautas (nay,
salameyya, arghul, mizmar).
Também podemos fazer uma separação dos instrumentos de origem ocidental, que foram introduzidos na música árabe: violino, acordeão, teclado, saxofone. Essa introdução dos instrumentos ocidentais se deu na primeira metade do século XX, devido ao intercâmbio de culturas.
CARACTERÍSTICAS E APARÊNCIA DOS INSTRUMENTOS
Instrumentos
de percussão
Derbake: instrumento
que marca o ritmo da música, em conjunto com o pandeiro. Seu corpo,
originalmente, era feito de barro e era recoberto com pele animal. Atualmente,
o corpo é de alumínio e a pele é sintética. O som é extraído quando o músico
bate na pele esticada.
Dohola: é parecida com o derbake, mas é maior e mais larga, e produz um som mais grave. Também existem as feitas de barro com pele animal, e também as de alumínio com pele sintética.
Duff: tamborim de pele de cabra ou pele sintética.
Mazhar: pandeiro com 5 pares duplos de címbalos de latão ou bronze. É maior e mais alto do que o riqq. O som é extraído de duas formas, na batida da mão contra o couro e também nos címbalos.
Riqq: parecido com o mazhar, mas menor e mais baixo. O som é extraído da mesma forma que no mazhar. Até o século XX, o riqq era o único instrumento percussivo da música árabe, e depois disso os músicos acrescentaram o derbake para fazer a marcação dos ritmos.
Snujs: címbalos de latão, usados tanto pelos músicos quanto pelas bailarinas. Existem snujs de diversos tamanhos, com sons mais graves ou mais agudos. Geralmente as bailarinas usam os snujs menores.
Tabl baladi: tambor com pele de cabra nos dois lados, tocado por duas baquetas, uma fina e outra mais grossa. Este instrumento é muito usado nas danças folclóricas, tais como o saidi e o dabke.
Tar: é um pandeiro grande, em diversos tamanhos, o que dá diversas sonoridades ao instrumento. Alguns deles possuem cordas na parte interna do couro.
Instrumentos melódicos (e também os harmônicos)
Quando as pessoas escrevem
sobre a música oriental, geralmente dividem os instrumentos em percussivos e
melódicos, mas vou fazer a distinção entre os instrumentos melódicos e os
harmônicos, porque ambos os tipos são utilizados na música oriental. A
diferença é que os melódicos só conseguem tocar uma nota por vez (exemplo: a
flauta), enquanto os harmônicos tocam mais de uma nota (exemplo: acordeão). Os
instrumentos orientais melódicos também podem ser divididos entre os de som
contínuo (exemplos: flauta, violino) e os de som dedilhado (exemplos: alaúde,
kanoon).
Acordeão: instrumento originário da Alemanha, muito utilizado no taqsim (solo melódico).
Alaúde: é um instrumento muito antigo, que deu origem ao alaúde medieval, que por sua vez deu origem ao violão. Segundo Khaled Emam, o alaúde existe desde o ano 2.350 a.C. Ele é o instrumento mais importante da música árabe tradicional. Tem um som grave, um pouco parecido com o de um contrabaixo.
Arghul: é uma clarineta dupla, feita de bambu. Existem em diferentes tamanhos e formatos, abaixo temos dois exemplos de arghul, o primeiro deles é conhecido com Mijwiz.
Kanoon: instrumento de cordas, com um som parecido com o de uma harpa. Tem formato de trapézio e é tocado na horizontal. É um instrumento muito antigo, segundo Khaled Emam ele foi descoberto há mais de 5 mil anos. Uma teoria diz que o kanoon deu origem ao piano.
Mizmar: é uma flauta com um som muito característico, parecido com o de uma corneta. É usada em músicas folclóricas, principalmente no saidi. Existem em três tamanhos, e cada um deles dá um som diferente.
Nay:
de
origem persa, é uma flauta de bambu de som muito suave, muito usada nas músicas
clássicas (rotina oriental). A nay existe em nove tamanhos, cada um com seu
som. Segundo Khaled Emam, “os arqueólogos encontraram evidências de sua
presença no Egito Antigo do terceiro milênio a.C.”.
Rababa: violino espigão tocado em música folclórica, no Brasil ele deu origem à rabeca. O som é diferente do violino tradicional, é de uma sonoridade mais áspera.
Salameyya: flauta de bambu, também em diferentes tamanhos, usada em música folclórica.
Saxofone: instrumento de origem ocidental, inventado pelo belga Adolphe Sax. Existem saxofones em diversos modelos, cada um com seu som característico.
Semsemeyya: é uma lira composta de cinco a doze cordas, usada em música folclórica.
Teclado elétrico: ultimamente, os músicos estão utilizando o teclado na música oriental. Como é um instrumento muito versátil, pode reproduzir o som de vários instrumentos.
Violino: instrumento inventado no século XVI pelo italiano Gasparo de Salò. Porém, nos países orientais há muito tempo se utilizavam os instrumentos de cordas. Na música árabe, o violino é foi introduzido a partir do século XIX, e é muito utilizado nas rotinas orientais.
COMO INTERPRETAR OS INSTRUMENTOS
Agora que você já sabe algo
sobre os instrumentos, a aparência deles, o que é ritmo, melodia e harmonia,
pode pesquisar (no YouTube) como é o som desses instrumentos. E como você vai
utilizar esse conhecimento na sua dança? Não existem regras fixas e imutáveis,
cada bailarina é livre para fazer suas escolhas, mas seguem algumas dicas (são
opiniões minhas, e você é livre para não concordar com elas).
1 – Na música árabe, existem
camadas de sons. A camada de baixo é o ritmo, que geralmente é marcado pelo
derbake e pelo riqq. Os instrumentos melódicos fazem a camada de cima. Você
precisa prestar atenção em qual instrumento está soando acima dos outros. É
este instrumento que você vai acompanhar.
2 – Quando toda orquestra
está tocando, com aquele som encorpado, é hora de deslocar no palco. Na maioria
das vezes, o ritmo que está por baixo é rápido. São utilizados os chassês,
giros, caminhadas, etc.
3 – Quando um instrumento
está tocando um solo, o que é conhecido como taqsim, é hora de dançar no lugar.
Na maioria das vezes, o ritmo que está por
baixo do solo melódico é lento. Neste momento, a bailarina vai dançar de acordo
com o instrumento que está fazendo o solo.
4 – O comprimento da nota
deve ser respeitado. Enquanto a nota estiver soando, você faz o movimento.
Quando ela parar, o movimento termina. Do mesmo modo, as frases musicais devem
ser respeitadas. Escute a música, e procure saber onde começam e onde terminam
as frases musicais. Quando uma frase termina e começa outra, é bom mudar o movimento.
5 – Alguns instrumentos são
utilizados para danças folclóricas, e aí você já tem uma dica de quais
movimentos e sequências pode usar na sua dança. Um exemplo é o mizmar: quando
você escutar o som dele, já sabe que é um saidi ou um dabke.
6 – O acordeão é muito
utilizado nos taqsim baladi. Se você prestar atenção, verá que os baladis
começam lentos, vão para o ritmo cadenciado e terminam acelerados. Na hora em
que o acordeão estiver solando, você pode fazer os oitos, as ondulações, os
redondos, em todas as suas variações.
7 – O alaúde tem um som mais
encorpado e grave. Eu sempre digo às minhas alunas que, se o instrumento tem
cordas e vibra, o nosso corpo deve vibrar também. E o que são as vibrações? Os
tremidos, é claro. Faça shimmies bem soltos, acompanhando o som do alaúde.
8 - O derbake vai marcar os ritmos e fazer os floreios. Se apenas o derbake e o pandeiro estiverem tocando, você pode fazer todas as variações de batidas com quadril, tronco, ombros, etc. Também pode utilizar os shimmies, se for isso que o derbake estiver pedindo.
9 – O kanoon também é
instrumento de cordas, mas seu som é mais suave e agudo que do alaúde. Os
tremidos, então, são menores, mais suaves e controlados. Você pode, por
exemplo, usar um shimmy de contração.
10 – A flauta nay tem, como
eu disse anteriormente, um som muito suave. A flauta lembra ar, não lembra?
Então eu sugiro movimentos com braços, mãos e ombros, sempre seguindo o som da
flauta. Se a nota for longa, os movimentos são longos. Se a nota for curta, o
movimento é pequeno. Preste atenção se a nota “sobe” ou “desce”. Você pode elevar
os braços quando a nota “subir”, e abaixá-los quando ela “descer”.
11 – O solo de saxofone é
usado em algumas músicas. Você pode fazer movimentações sinuosas e ondulatórias
com tronco e quadril, acompanhando o som do saxofone.
12 – O violino é um
instrumento que não vai transmitir a sensualidade de um saxofone nem a “moleza”
de um acordeão, ele é mais suave. No solo de violino, você pode fazer
movimentos com braços, tronco e quadril. Utilize os oitos, ondulações e
redondos, em todas as suas variações. Além disso, se o violino fizer sons de
vibração, você pode acrescentar os shimmies.
13 – Vamos supor que uma
música que você está coreografando tem aquele famoso momento “pergunta e
resposta”. Você sabe o que é isso? É muito comum no taqsim baladi. O acordeão
toca (“pergunta”), em seguida o derbake toca
(“resposta”). Você vai fazer o mesmo movimento quando os dois instrumentos
tocarem? Claro que não. Você pode, por exemplo, fazer oito para cima quando o
acordeão tocar, e uma batida com o quadril quando o derbake tocar.
14 – Uma dica que
aparentemente não tem nada a ver com nosso assunto, mas que é vital: estude
ritmos. Isso vai ajudar enormemente na sua dança. De acordo com o ritmo, você
já saberá quais movimentos e sequências devem (ou não) ser usados. Se você
conhecer os ritmos e os instrumentos, já terá um conhecimento extenso, e seu corpo vai responder melhor.
15 - Você deve ter percebido que eu falei quase que apenas nos instrumentos melódicos, e apenas de um instrumento de percussão, o derbake. É que é mais fácil e instintivo executar movimentos que a percussão "pede", enquanto que a leitura dos instrumentos melódicos é mais desafiadora. De qualquer forma, lembre de uma regra: não faça movimentos de batida se um instrumento melódico (exemplo: uma flauta) estiver solando. Da mesma maneira, não faça movimentos fluidos se um instrumento de percussão estiver solando.
16 - Para finalizar: na dança do ventre, precisamos seguir a música. Não é a música que nos segue, e sim o contrário. Se a música estiver falando "A" e nosso corpo estiver falando "B", vai dar uma confusão na cabeça de quem estiver nos assistindo.
Gostou da postagem? Tem
algum comentário para fazer? Fique à vontade. E uma feliz dança para todos nós!
Fontes utilizadas:
“Música egípcia – apreciação
e prática para bailarinas de dança oriental”, George Dimitri Sawa, Editora
Kaleidoscópio de Ideias, 2015.
“Música árabe – expressividade e sutileza”,
Marcia Dib, Edição do autor, 2013.
“Os pilares da
profissionalização em dança do ventre”, volume II – Música, Dramaticidade e
Expressão, Brysa Mahaila, Editora Kaleidoscópio de Ideias, 2017.





















Nenhum comentário:
Postar um comentário