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segunda-feira, 21 de setembro de 2020

FORTALECIMENTO MUSCULAR PARA A DANÇA DO VENTRE

A postagem de hoje foi uma sugestão da professora e bailarina Dih Raizel. Obrigada, Dih querida!

Já sabemos que a dança do ventre é uma atividade com inúmeros benefícios físicos, além dos mentais e emocionais. Porém, se a dança do ventre tem seus benefícios, isso não quer dizer que ela é uma modalidade 100% completa. Se quisermos a melhor condição possível para o nosso corpo, o ideal é complementar a dança com uma atividade de fortalecimento muscular. Esse fortalecimento tem por objetivo impedir lesões, que podem comprometer a saúde da bailarina, e até abreviar a sua carreira.

O trabalho de fortalecimento, além de ser benéfico aos músculos, tendões e articulações, também ajuda a proteger os ossos do corpo. Se a bailarina estiver com seus músculos fortalecidos, vai ter muito mais resistência para dançar. Sabem aquelas horas em que a gente fica só na meia ponta alta? Imaginem só se as nossas panturrilhas não aguentarem sustentar a nossa meia ponta, por falta de força muscular...

E quais atividades podem ajudar no fortalecimento dos nossos músculos? São várias: musculação, pilates, yoga, treinamento funcional, spinning, luta, crossfit, natação. Existe sempre uma modalidade que vai se encaixar nos seus gostos e objetivos, o importante é deixar o sedentarismo de lado e ter a iniciativa de fazer algo pela sua saúde.

Segundo o Blog Educação Física, o fortalecimento muscular proporciona os seguintes benefícios para o corpo:

“- Maior resistência;

- Aumento da massa magra;

- Melhora a postura;

- Melhora e protege as articulações;

- Melhora a estrutura óssea;

- Ossos mais resistentes;

- Aperfeiçoa o condicionamento físico;

- Estimula o funcionamento do metabolismo;

- Queima calorias e ajuda na redução de peso.”

No Blog da Treinus, eles citam outros dois benefícios:

“Equilíbrio

 Fortalecer os músculos pode trazer benefícios diretos em suas atividades cotidianas. Músculos fortes também melhoram o equilíbrio corporal, o que reduz o nível de quedas, por exemplo.

Questões crônicas

O fortalecimento muscular pode reduzir muitos sintomas como artrites e dores na coluna. Além disso inibe doenças cardíacas e até mesmo diabetes.”

Todos os benefícios acima citados serão extremamente úteis na sua dança. Qual bailarina não quer ter uma postura melhor, ou suas articulações protegidas? Que tal, então, traçar um objetivo, escolher a atividade complementar ideal e realizá-la? Com certeza, o nosso corpo vai agradecer!

 

Fontes:

https://blogeducacaofisica.com.br/fortalecimento-muscular/#:~:text=Modalidades%20que%20auxiliam%20o%20fortalecimento&text=A%20Muscula%C3%A7%C3%A3o%20contribui%20tanto%20para,de%20repeti%C3%A7%C3%B5es%20com%20menor%20carga.

https://www.treinus.com.br/blog/reforco-muscular-um-componente-importante-para-melhorar-o-rendimento-esportivo/

https://www.napontadope.com/fortalecimento-muscular-para-bailarinos/

 


 

 

  

sexta-feira, 18 de setembro de 2020

DANÇA DO VENTRE: MUITO CARO PARA MIM?

Esta postagem foi sugerida pela minha aluna Michelle Kayser, e eu simplesmente adorei a ideia. Obrigada, Michelle!

O assunto é o seguinte: para fazer aulas de dança do ventre, os custos são muito altos? Essa modalidade não é apenas para quem tem muito dinheiro? Vamos por partes.

Em primeiro lugar, muitas pessoas comparam, indevidamente, os custos de aulas de dança do ventre com o preço de uma academia de musculação. Na academia, você pode frequentar diversas vezes na semana, e as pessoas acham que aula de dança uma vez na semana (no máximo duas vezes), é muito caro, em comparação com a academia. Mas esse tipo de pensamento é um erro, porque são atividades completamente distintas, e as aulas de dança do ventre são um curso de formação. Se você estiver em uma escola séria de dança do ventre, verá que as alunas não podem fazer aula em qualquer turma que desejar, porque existem níveis de aprendizado. Existem alunas iniciantes, outras que já começaram há algum tempo e algumas bem avançadas. Se misturarmos as turmas, quem está iniciando vai desistir por não conseguir acompanhar, e quem já está em um nível avançado também vai desistir, porque não poderá aprender coisas novas. Existe mais uma diferença em relação à academia: nas aulas de dança do ventre, a professora usa uma metodologia de ensino, e está o tempo todo ensinando, observando e corrigindo as suas alunas. Então, repito – nunca compare os custos de academia com os da aula de dança.

Em segundo lugar, existem os benefícios que a dança traz para a nossa saúde, e isso não tem preço. Já falei sobre isso em diversas postagens. Esses benefícios fazem com que você economize dinheiro, com toda certeza. O que você prefere - gastar com remédios ou com aulas de dança? Então as aulas não são um custo, mas sim um investimento na sua saúde. Seguem abaixo alguns links de postagens sobre os benefícios da dança do ventre, vale a pena ler:

http://azizamahaila.blogspot.com/2020/05/beneficios-da-danca-do-ventre.html

http://azizamahaila.blogspot.com/2012/05/atividade-fisica-na-epoca-do-frio.html

http://azizamahaila.blogspot.com/2019/10/nota-este-texto-originalmente-foi.html

Em terceiro lugar, os custos para fazer aulas de dança do ventre são iguais, ou muitas vezes, menores que os de qualquer outra atividade. Se você só quer iniciar seus estudos, não vai precisar comprar roupas especiais, no máximo vai gastar com um xale de moedas para os quadris. Qualquer roupa normal de ginástica pode ser usada nas aulas de dança do ventre. Na sua maioria, as professoras de dança do ventre não exigem que as alunas façam aulas trajadas com trajes próprios para a dança do ventre.

Afinal, quando começam os gastos mais pesados? Geralmente, quando são feitas as apresentações. Os trajes de dança do ventre são feitos à mão, então não são muito baratos, mesmo assim, o bom senso pode ser usado: se você é iniciante, precisa mesmo comprar o traje mais caro de todos? Obviamente que não. Se para cada coreografia a sua escola pede um traje diferente, você precisa dançar em todas as coreografias do mesmo espetáculo? Claro que não.

Na minha escola, fazemos o seguinte: compramos um conjunto de top e cinturão em um tom neutro, e a cada espetáculo só vamos mudando as saias. Dessa forma, conseguimos usar o mesmo figurino por três ou quatro anos (e ninguém percebe). Outra alternativa, caso a sua escola não peça trajes iguais para todas as alunas, é comprar de quem está vendendo figurino usado. Existem muitos grupos nas redes sociais para esse fim. Você também pode aprender a bordar o seu próprio traje de dança.

Além dos figurinos de dança, existem os gastos extras com workshops, acessórios, festivais de dança. Se você quer se profissionalizar, recomendo fortemente os investimentos nos workshops. Aprendizado é uma coisa que nunca ninguém tira de você. Quanto aos acessórios, evite gastar rios de dinheiro com coisas que você não vai usar. Está fazendo a primeira aula, e já quer espada, todos os tipos de véu, etc. e tal? Respire e veja se, de fato, esses acessórios serão usados agora. Os festivais de dança também são excelentes investimentos, tanto para assistir e educar o seu gosto, quanto para fazer os workshops.

Agora, vamos às palavras da própria Michelle:

“Somos levadas a pensar que o que queremos para nós é supérfluo. Sempre priorizamos as vontades dos outros. Fomos educadas para servir. Mas um hobby como a prática semanal de futebol tem gastos próximos aos da dança. Uma escola de natação ou música também. Quem me fez pensar diferente, foi meu querido esposo. Quando citei os custos de figurinos e acessórios ele falou:

‘Gasto muito mais com meu esporte do que você gastaria com a dança. Não se preocupe, se eu gastar com meu esporte, então podemos gastar com sua dança.’

Ainda nas palavras da Michelle:

“Parece que as pessoas querem ouvir que gastamos verdadeiras fortunas para justificar o fato delas não se dedicarem a nada. Eu não deixo os comentários sobre a ‘fortuna’ que gasto comigo me afetarem. Não deixo que me façam sentir culpada ou egoísta, pois essa é só mais uma forma de reprimir as mulheres.”

Gente, não dá orgulho de ter uma aluna assim? Pois assim são as minhas alunas: mulheres trabalhadoras, que sabem o que querem e vão atrás. Que tal dançar e ser feliz, sem se sentir culpada?



 

 


domingo, 6 de setembro de 2020

DISTRIBUIÇÃO DE PESO E BASE DE PÉS

Esta postagem foi sugerida pela Camila Acosta. Ela pediu que eu falasse sobre a base dos pés e a distribuição do peso em movimentos simples e combinados. Vou falar primeiro sobre a distribuição do peso.

Na dança do ventre, as bases de apoio mais utilizadas são: os dois pés no chão, os dois pés em ½ ponta alta e a pose oriental. Quando os dois pés estão no chão, a distribuição do peso pode ocorrer das seguintes formas:

- nos dois pés, por igual;

- na lateral externa de um dos pés;

- na parte interna de um dos pés;

- nos dedos dos pés;

- nos calcanhares.

Um exemplo – se formos fazer um redondo horizontal no sentido horário com o quadril, o peso vai para a lateral externa do pé esquerdo, passa pelos dedos, depois para a lateral externa do pé direito e por último pelos calcanhares. Outro exemplo – para fazer um oito para cima, subindo os calcanhares, o peso vai para a lateral externa do pé direito, na subida do quadril ele vai para a ponta dos dedos e na descida do quadril ele transfere para o dedão.

Já se você estiver em ½ ponta alta, vai precisar usar a alternância de peso, se quiser fazer qualquer deslocamento ou movimentação com o quadril. Em ½ ponta alta, é impossível, por exemplo, fazer o twist, se as pontas dos dois pés estiverem no chão, sempre será preciso usar a alternância entre o pé direito e o esquerdo.

Na pose oriental, em que um pé serve de base e o outro está posicionado à frente em ½ ponta, o peso sempre vai estar na perna de base, nunca na perna da frente.

Agora vou falar sobre a questão da base de pés na dança. Um vídeo didático muito interessante que trata, entre outras coisas, das questões da base de apoio, é o DVD “Deslocamentos em cena”, da Mahaila El-Hewa. Neste DVD, ela fala sobre os movimentos em 1, 2, 3 e 4 apoios. Aconselho bastante o estudo deste DVD, que com certeza vai ajudar na sua dança. Vamos a um exemplo muito prático, utilizando a batida lateral de quadril, com os dois pés no chão:

- Em 1 apoio, você pisa à frente com perna direita, batendo quadril e em seguida pisa à frente com a outra perna, batendo quadril. Isso significa que para cada troca de peso, é feito um movimento de quadril.

- Em 2 apoios, você abre perna direita na lateral, batendo quadril e em seguida junta a perna esquerda, batendo quadril. Para finalizar o movimento, você vai precisar de duas trocas de peso.

- Em 3 apoios, você cruza perna direita atrás, batendo quadril, marca a perna esquerda no lugar, batendo quadril, volta com perna direita, batendo quadril. Ou seja, para fazer o movimento completo, vai fazer três trocas de peso, com três batidas de quadril.

- Em 4 apoios, você pisa com perna direita frente, marca esquerda, pisa com direita atrás, marca esquerda, tudo com batida de quadril. São quatro transferências de peso e quatro batidas.

Nos quatro exemplos acima, falei apenas de um movimento, a batida lateral de quadril. Agora imagine só se aplicarmos essas quatro bases para todos os outros movimentos! As possibilidades são infinitas. Por isso, volto a recomendar o DVD da Mahaila, é muito bom mesmo.

Na questão dos movimentos combinados, a Mahaila sugere também misturar movimentos diferentes na mesma base de pés. Vamos a um exemplo, feito em 3 apoios: cruza a perna esquerda à frente, batendo o quadril, e em seguida faz oito para baixo com quadril direito e depois com o quadril esquerdo. É uma sequência utilizando a base de 3 apoios, mas com dois passos diferentes, a batida lateral e o oito para baixo.

Espero que a postagem tenha sido útil. Fiquem à vontade para colocar seus comentários. Obrigada, Camila!

 

 

 

domingo, 30 de agosto de 2020

HOMENS QUE DANÇAM

O assunto de hoje foi sugerido pela minha aluna Michelle Kayser, e é sobre os homens que fazem dança do ventre. Nas palavras dela, Michelle:

“Os bailarinos são muitos respeitados no meio da dança, mas a maioria das pessoas tem uma ideia muito errada deles.”

“Sinto uma desinformação total sobre o que eles representam como desbravadores e como ajudaram a dança do ventre a evoluir.”

“Quebraram inúmeros tabus e trouxeram muitos movimentos novos. São uns maravilhosos!”

Eu concordo plenamente com a Michelle. Os bailarinos são maravilhosos, tanto dançando, quanto ensinando. Já assisti a diversas apresentações masculinas, fiz muitos workshops com professores do sexo masculino, e aprendi muito com eles. Mas antes de começarmos a nossa postagem, gostaria que vocês lessem a matéria cujo link segue abaixo, que é sobre o grande dançarino e coreógrafo Mahmoud Reda:

http://azizamahaila.blogspot.com/2019/11/a-importancia-de-mahmoud-reda-e-sua.html

Também achei um texto maravilhoso na página da Lulu from Brazil, o link segue aqui:

http://www.lulufrombrazil.com.br/homens-na-danca-oriental-verdades-e-mentiras-2/

Bem, já falei inúmeras vezes que ninguém sabe ao certo quando e onde exatamente a dança do ventre surgiu. Os europeus, quando chegaram ao Egito, acharam dançarinas “do ventre”. No final do século XVIII, as dançarinas ghawazee, que se apresentavam profissionalmente, foram expulsas do Cairo. No lugar delas, apareceram os homens dançarinos, eles eram conhecidos como “khawal”, no plural “khawalat”. Eles se vestiam como mulher, e dançavam no estilo ghawazee. Mais tarde, eles também foram impedidos de se apresentar. Aqui temos alguns registros fotográficos destes artistas:




Então, se formos falar em dança do ventre, nos primórdios de tudo podemos citar os khawalat. Nos anos 1950, temos Mahmoud Reda, que introduziu elementos de balé clássico e moderno no folclore egípcio. Quase todas as danças folclóricas egípcias, como nós as conhecemos nos palcos, têm forte influência do trabalho do Reda.

Eu penso que podemos dividir os dançarinos em três estilos básicos, sempre lembrando que alguns deles dominam mais de um estilo (por exemplo, o Tarik dança folclore e também estilo clássico):

1 ) Dançarinos de folclore árabe, como o precursor Mahmoud Reda. No Brasil, podemos citar Anthar Lacerda e Téo Versiani, que conhecem diversas danças folclóricas, e são excelentes professores, além de dançar muito bem. Abaixo seguem dois links de apresentação, o primeiro do Anthar e o segundo do Téo.

https://www.youtube.com/watch?v=u5SlYgViBT8

https://www.youtube.com/watch?v=pI6a_3V2Ag0

2 ) Dançarinos do estilo clássico, como Yamil Annum (Argentina) e Tarik (Brasil). A dança deles é fortemente baseada no balé clássico, e também em técnicas tais como os deslocamentos, chassés, giros, arabesques e braços grandiosos. Às vezes, eles podem colocar alguns elementos da dança do ventre (como, por exemplo, o básico egípcio), bem como técnicas do folclore árabe, se a música pedir.  O figurino utilizado por eles é geralmente composto de blusa bordada com brilhos, de mangas compridas, às vezes um colete bordado, calças e botas. São os príncipes da dança oriental! Abaixo seguem vídeos do Yamil e do Tarik.

https://www.youtube.com/watch?v=xLhu31bovJE

https://www.youtube.com/watch?v=uE_c2U03WTc

3 ) Dançarinos de bellydance, como por exemplo Igor Kischka (Brasil) e Rachid Alexander (nascido em Curaçao, atualmente radicado na Holanda). A dança executada por estes artistas é igual ao estilo feminino, com ondulações abdominais, shimmies, oitos, braços ondulatórios, em suma, tudo idêntico ao que nós, mulheres, fazemos. O figurino varia bastante, podem usar calça ou saia, usar colete curto ou não, com o ventre à mostra ou  não, etc. Vamos a dois vídeos do Igor e do Rachid:

https://www.youtube.com/watch?v=82jO6vMRtrA

https://www.youtube.com/watch?v=Y2fUbld3x9I

É claro que existem muitos outros artistas, citei apenas estes porque fica quase impossível falar de todos. Vou comentar agora sobre as frases da Michelle, que foram citadas no início da matéria. Em primeiro lugar, os bailarinos são muito respeitados por quem é da área (quem faz ou dá aulas de dança do ventre ou folclore árabe), mas o público leigo geralmente tem um certo preconceito em relação aos dançarinos homens. Esse preconceito quase não existe em relação aos bailarinos de folclore árabe, mas aparece quando se trata dos dançarinos do estilo clássico, e é especialmente forte no caso dos bailarinos bellydance.

Gente, vamos deixar uma coisa bem clara: o artista é uma pessoa que se expressa através da arte, e isso não tem nada a ver com sexo ou gênero. Se o bailarino quer se expressar através do estilo de dança do ventre considerado “feminino”, por que ele deveria ser impedido? É arte, e a arte independe de sexo.

A Michelle também falou sobre o papel de desbravadores desses artistas, especialmente os dos estilos clássico e bellydance. Vejam bem, a dança do ventre originalmente surgiu de uma dança local, e modificou-se com a introdução dos elementos do balé clássico. E o que veio a seguir? Foram acrescentados passos do balé moderno, jazz e outras danças. Tudo isso veio somar à dança do ventre. Eu já falei sobre isso em outra postagem: a dança do ventre é uma dança em eterna evolução.

Vamos ser gratos a esses artistas incríveis, que nos presenteiam com suas maravilhosas performances, e são mestres que tem muito a nos ensinar. Gostaria de pedir desculpas por não citar os inúmeros bailarinos que existem, mas realmente são muitos, e a gente sempre acaba esquecendo de algum. Quero também agradecer à minha aluna Michelle pela sugestão de assunto, e também à minha professora Linda Hathor, por me ajudar com a revisão desta postagem. Gratidão!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

segunda-feira, 24 de agosto de 2020

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

O ESTEREÓTIPO DA DANÇARINA COMO MULHER SEDUTORA

Hoje vou falar sobre um assunto muito importante, que envolve intenção, motivação e objetivos a curto e longo prazo. É sobre aquele estereótipo de que a dançarina do ventre é uma mulher sedutora e fatal. De acordo com o dicionário, a sedução pode ser definida como:

“1. Conjunto de qualidades e características que despertam simpatia, desejo, amor, interesse, etc.

2 . Capacidade ou processo de persuadir ou perverter.”

Quase sempre que alguma revista não especializada fala sobre a dança do ventre, ela é definida como “a dança mais sensual do planeta”. Vejam bem a situação, não é a dança mais sensual de uma cidade ou país, é do planeta inteiro! Não é sensualidade demais para uma dança? Neste caso, a dança do ventre é vinculada à atração sexual. Mas será que a dança do ventre é isso mesmo, ela deve ser utilizada para atrair alguém sexualmente? Particularmente, eu prefiro que a dança do ventre seja vinculada à ideia de encantar, de atrair pela beleza da dança. O que você prefere, seduzir com a sua dança, ou encantar?

Já falei bastante sobre a origem nebulosa da dança do ventre. Ninguém sabe ao certo quando nem onde surgiu, nem qual o objetivo dessa dança. Era religiosa, uma dança em honra à Deusa Mãe? Era uma forma de preparar o corpo para o parto? Era uma dança para celebrar as festas importantes? Não existem provas documentais sobre a origem da dança. De qualquer forma, quando os europeus chegaram ao Egito, viram danças diferentes de tudo que eles conheciam. Além de verem, eles também imaginaram muitas coisas, e essa imaginação nem sempre condizia com a realidade. Surgem aí os mitos da mulher oriental como exótica e sedutora, o mito das odaliscas, dos haréns, etc.

Você, que é aluna ou professora de dança do ventre, já deve ter passado por essa situação: quando diz que pratica essa arte, as outras pessoas arregalam os olhos, como se disse “Oh!”, como se estivessem na frente de uma mulher fatal. Isso não aconteceria, por exemplo, se você falasse que era praticante de danças gauchescas. Existe um estigma, um estereótipo das bailarinas de dança do ventre. Em alguns casos, esse estereótipo pode vir da sua própria forma de abordar o tema, senão vejamos:

Motivação - Quando você começou a fazer dança do ventre, a sua única intenção era seduzir um namorado ou marido? Veja bem, não estou julgando, só perguntando. Geralmente, a maioria das mulheres que começa a fazer a dança do ventre é porque se encantou com essa arte, mas de vez em quando alguma interessada vem com o intuito de seduzir o companheiro. Esse perfil de aluna não fica mais do que poucas aulas.

Intenção - Agora, se você começou a fazer aulas de dança do ventre para cuidar de seu corpo e sua mente, aumentar a sua autoestima, se conhecer melhor, está no caminho certo. Na minha opinião, devemos dançar para nós, não para agradar fulano, beltrano ou sicrano. Se você está fazendo aulas de dança para agradar o namorado/marido, e ele não gostar, você vai largar a dança, mesmo que estiver gostando? E no caso contrário, se o seu namorado/marido gosta, mas você odeia dançar, vai continuar com as aulas, apenas para agradá-lo? Faça as coisas porque você quer, senão não tem sentido.

A dança do ventre não é fórmula de sedução! Para isso, existem outras técnicas e outros cursos. Vale a pena lembrar a definição do que é dança do ventre, segundo a bailarina Níjme:

“A dança do ventre é a arte de dominar as partes do corpo separadamente ou em conjunto, transmitindo e expressando sentimentos em harmonia com a música oriental.”

Observem que a Níjme escreve “arte”, “sentimento”. Ela não escreve “sedução”.

Objetivos a curto e longo prazo - Se você está fazendo aulas pelos motivos certos e com as intenções certas, com certeza verá que a dança do ventre é uma arte, que requer estudo contínuo. Isso tem a ver com os objetivos a curto e longo prazo. Se você apenas quer aprender o básico, seus objetivos serão a curto prazo, mas seu aprendizado será pequeno. Porém, se quiser se aperfeiçoar nessa arte maravilhosa, terá que traçar objetivos a longo prazo, sabendo que terá que estudar sempre, pois sempre temos algo novo a aprender.

E daí, qual a sua opinião? Fique à vontade para postar seus comentários! E uma feliz (e encantadora) dança para todas nós! Que as bailarinas de dança do ventre continuem a encantar, alegrar e inspirar as pessoas de todo o mundo. Yalla!

 


 



sábado, 15 de agosto de 2020

OS INSTRUMENTOS ORIENTAIS E COMO INTERPRETÁ-LOS NA DANÇA

Nota: antes de ler o texto a seguir, é bom ler a postagem “Música modal – a base da música oriental”, cujo link segue abaixo.

http://azizamahaila.blogspot.com/2019/12/musica-modal-base-da-musica-oriental.html

Você conhece os instrumentos orientais? Consegue distinguir os sons deles na música? Sabe a diferença entre os instrumentos melódicos e os percussivos? E sabe dizer quais são os instrumentos orientais e quais os ocidentais? Acha que o assunto é importante, ou deixa passar batido? Pois vamos ver porque é tão crucial saber distinguir os instrumentos na música oriental.

Nós vivemos no Ocidente, e os países que ficam ao Leste são os países orientais. Entram nessa conta os países do Oriente Médio (do leste do Mar Mediterrâneo ao Golfo Pérsico), e também os países do Extremo Oriente (Rússia, China, as duas Coréias, Japão e Taiwan). No caso da dança do ventre, também conhecida como “dança oriental”, estamos falando das danças realizadas no Oriente Médio.

Antes de começar a falar dos instrumentos, vamos a três definições importantes, de acordo com o dicionário:

Ritmo – “sucessão de tempos fortes e fracos que se alternam com intervalos regulares.”

Melodia – “sequência de notas ou sons que se relacionam reciprocamente de modo a formar um todo harmônico; linha melódica.”

Harmonia – “quando duas ou mais notas de diferentes graus são tocadas ao mesmo tempo.” 

Vou explicar primeiro sobre os instrumentos, antes de falar sobre a interpretação. A dança do ventre, bem como as músicas do folclore árabe, se utiliza dos instrumentos:

A – Percussivos, tais como: derbake, dohola, duff, mazhar, riqq, snujs, tar, tabl baladi.

B – Melódicos e harmônicos, tais como: alaúde, kanoon, violino, acordeão, saxofone, teclado, semsemeyya, rababa, as diversas flautas (nay, salameyya, arghul, mizmar).

Também podemos fazer uma separação dos instrumentos de origem ocidental, que foram introduzidos na música árabe: violino, acordeão, teclado, saxofone. Essa introdução dos instrumentos ocidentais se deu na primeira metade do século XX, devido ao intercâmbio de culturas. 

CARACTERÍSTICAS E APARÊNCIA DOS INSTRUMENTOS

Instrumentos de percussão

Derbake: instrumento que marca o ritmo da música, em conjunto com o pandeiro. Seu corpo, originalmente, era feito de barro e era recoberto com pele animal. Atualmente, o corpo é de alumínio e a pele é sintética. O som é extraído quando o músico bate na pele esticada.

Dohola: é parecida com o derbake, mas é maior e mais larga, e produz um som mais grave. Também existem as feitas de barro com pele animal, e também as de alumínio com pele sintética.

Duff: tamborim de pele de cabra ou pele sintética.

Mazhar: pandeiro com 5 pares duplos de címbalos de latão ou bronze. É maior e mais alto do que o riqq. O som é extraído de duas formas, na batida da mão contra o couro e também nos címbalos.

Riqq: parecido com o mazhar, mas menor e mais baixo. O som é extraído da mesma forma que no mazhar. Até o século XX, o riqq era o único instrumento percussivo da música árabe, e depois disso os músicos acrescentaram o derbake para fazer a marcação dos ritmos.

Snujs: címbalos de latão, usados tanto pelos músicos quanto pelas bailarinas. Existem snujs de diversos tamanhos, com sons mais graves ou mais agudos. Geralmente as bailarinas usam os snujs menores.

Tabl baladi: tambor com pele de cabra nos dois lados, tocado por duas baquetas, uma fina e outra mais grossa. Este instrumento é muito usado nas danças folclóricas, tais como o saidi e o dabke.

Tar: é um pandeiro grande, em diversos tamanhos, o que dá diversas sonoridades ao instrumento. Alguns deles possuem cordas na parte interna do couro.

 Instrumentos melódicos (e também os harmônicos)

Quando as pessoas escrevem sobre a música oriental, geralmente dividem os instrumentos em percussivos e melódicos, mas vou fazer a distinção entre os instrumentos melódicos e os harmônicos, porque ambos os tipos são utilizados na música oriental. A diferença é que os melódicos só conseguem tocar uma nota por vez (exemplo: a flauta), enquanto os harmônicos tocam mais de uma nota (exemplo: acordeão). Os instrumentos orientais melódicos também podem ser divididos entre os de som contínuo (exemplos: flauta, violino) e os de som dedilhado (exemplos: alaúde, kanoon).

Acordeão: instrumento originário da Alemanha, muito utilizado no taqsim (solo melódico).

Alaúde: é um instrumento muito antigo, que deu origem ao alaúde medieval, que por sua vez deu origem ao violão. Segundo Khaled Emam, o alaúde existe desde o ano 2.350 a.C. Ele é o instrumento mais importante da música árabe tradicional. Tem um som grave, um pouco parecido com o de um contrabaixo.

Arghul: é uma clarineta dupla, feita de bambu. Existem em diferentes tamanhos e formatos, abaixo temos dois exemplos de arghul, o primeiro deles é conhecido com Mijwiz.



Kanoon: instrumento de cordas, com um som parecido com o de uma harpa. Tem formato de trapézio e é tocado na horizontal. É um instrumento muito antigo, segundo Khaled Emam ele foi descoberto há mais de 5 mil anos. Uma teoria diz que o kanoon deu origem ao piano.

Mizmar: é uma flauta com um som muito característico, parecido com o de uma corneta. É usada em músicas folclóricas, principalmente no saidi. Existem em três tamanhos, e cada um deles dá um som diferente.

Nay: de origem persa, é uma flauta de bambu de som muito suave, muito usada nas músicas clássicas (rotina oriental). A nay existe em nove tamanhos, cada um com seu som. Segundo Khaled Emam, “os arqueólogos encontraram evidências de sua presença no Egito Antigo do terceiro milênio a.C.”.

Rababa: violino espigão tocado em música folclórica, no Brasil ele deu origem à rabeca. O som é diferente do violino tradicional, é de uma sonoridade mais áspera.

Salameyya: flauta de bambu, também em diferentes tamanhos, usada em música folclórica.

Saxofone: instrumento de origem ocidental, inventado pelo belga Adolphe Sax. Existem saxofones em diversos modelos, cada um com seu som característico.

Semsemeyya: é uma lira composta de cinco a doze cordas, usada em música folclórica.

Teclado elétrico: ultimamente, os músicos estão utilizando o teclado na música oriental. Como é um instrumento muito versátil, pode reproduzir o som de vários instrumentos.

Violino: instrumento inventado no século XVI pelo italiano Gasparo de Salò. Porém, nos países orientais há muito tempo se utilizavam os instrumentos de cordas. Na música árabe, o violino é foi introduzido a partir do século XIX, e é muito utilizado nas rotinas orientais.


 COMO INTERPRETAR OS INSTRUMENTOS

Agora que você já sabe algo sobre os instrumentos, a aparência deles, o que é ritmo, melodia e harmonia, pode pesquisar (no YouTube) como é o som desses instrumentos. E como você vai utilizar esse conhecimento na sua dança? Não existem regras fixas e imutáveis, cada bailarina é livre para fazer suas escolhas, mas seguem algumas dicas (são opiniões minhas, e você é livre para não concordar com elas).

1 – Na música árabe, existem camadas de sons. A camada de baixo é o ritmo, que geralmente é marcado pelo derbake e pelo riqq. Os instrumentos melódicos fazem a camada de cima. Você precisa prestar atenção em qual instrumento está soando acima dos outros. É este instrumento que você vai acompanhar.

2 – Quando toda orquestra está tocando, com aquele som encorpado, é hora de deslocar no palco. Na maioria das vezes, o ritmo que está por baixo é rápido. São utilizados os chassês, giros, caminhadas, etc.

3 – Quando um instrumento está tocando um solo, o que é conhecido como taqsim, é hora de dançar no lugar.  Na maioria das vezes, o ritmo que está por baixo do solo melódico é lento. Neste momento, a bailarina vai dançar de acordo com o instrumento que está fazendo o solo.

4 – O comprimento da nota deve ser respeitado. Enquanto a nota estiver soando, você faz o movimento. Quando ela parar, o movimento termina. Do mesmo modo, as frases musicais devem ser respeitadas. Escute a música, e procure saber onde começam e onde terminam as frases musicais. Quando uma frase termina e começa outra, é bom mudar o movimento.

5 – Alguns instrumentos são utilizados para danças folclóricas, e aí você já tem uma dica de quais movimentos e sequências pode usar na sua dança. Um exemplo é o mizmar: quando você escutar o som dele, já sabe que é um saidi ou um dabke.

6 – O acordeão é muito utilizado nos taqsim baladi. Se você prestar atenção, verá que os baladis começam lentos, vão para o ritmo cadenciado e terminam acelerados. Na hora em que o acordeão estiver solando, você pode fazer os oitos, as ondulações, os redondos, em todas as suas variações.

7 – O alaúde tem um som mais encorpado e grave. Eu sempre digo às minhas alunas que, se o instrumento tem cordas e vibra, o nosso corpo deve vibrar também. E o que são as vibrações? Os tremidos, é claro. Faça shimmies bem soltos, acompanhando o som do alaúde.

8 - O derbake vai marcar os ritmos e fazer os floreios. Se apenas o derbake e o pandeiro estiverem tocando, você pode fazer todas as variações de batidas com  quadril, tronco, ombros, etc. Também pode utilizar os shimmies, se for isso que o derbake estiver pedindo. 

9 – O kanoon também é instrumento de cordas, mas seu som é mais suave e agudo que do alaúde. Os tremidos, então, são menores, mais suaves e controlados. Você pode, por exemplo, usar um shimmy de contração.

10 – A flauta nay tem, como eu disse anteriormente, um som muito suave. A flauta lembra ar, não lembra? Então eu sugiro movimentos com braços, mãos e ombros, sempre seguindo o som da flauta. Se a nota for longa, os movimentos são longos. Se a nota for curta, o movimento é pequeno. Preste atenção se a nota “sobe” ou “desce”. Você pode elevar os braços quando a nota “subir”, e abaixá-los quando ela “descer”.

11 – O solo de saxofone é usado em algumas músicas. Você pode fazer movimentações sinuosas e ondulatórias com tronco e quadril, acompanhando o som do saxofone.

12 – O violino é um instrumento que não vai transmitir a sensualidade de um saxofone nem a “moleza” de um acordeão, ele é mais suave. No solo de violino, você pode fazer movimentos com braços, tronco e quadril. Utilize os oitos, ondulações e redondos, em todas as suas variações. Além disso, se o violino fizer sons de vibração, você pode acrescentar os shimmies.

13 – Vamos supor que uma música que você está coreografando tem aquele famoso momento “pergunta e resposta”. Você sabe o que é isso? É muito comum no taqsim baladi. O acordeão toca (“pergunta”), em  seguida o derbake toca (“resposta”). Você vai fazer o mesmo movimento quando os dois instrumentos tocarem? Claro que não. Você pode, por exemplo, fazer oito para cima quando o acordeão tocar, e uma batida com o quadril quando o derbake tocar.

14 – Uma dica que aparentemente não tem nada a ver com nosso assunto, mas que é vital: estude ritmos. Isso vai ajudar enormemente na sua dança. De acordo com o ritmo, você já saberá quais movimentos e sequências devem (ou não) ser usados. Se você conhecer os ritmos e os instrumentos, já terá um conhecimento extenso, e seu corpo vai responder melhor.

15 - Você deve ter percebido que eu falei quase que apenas nos instrumentos melódicos, e apenas de um instrumento de percussão, o derbake. É que é mais fácil e instintivo executar movimentos que a percussão "pede", enquanto que a leitura dos instrumentos melódicos é mais desafiadora. De qualquer forma, lembre de uma regra: não faça movimentos de batida se um instrumento melódico (exemplo: uma flauta) estiver solando. Da mesma maneira, não faça movimentos fluidos se um instrumento de percussão estiver solando. 

16 - Para finalizar: na dança do ventre, precisamos seguir a música. Não é a música que nos segue, e sim o contrário. Se a música estiver falando "A" e nosso corpo estiver falando "B", vai dar uma confusão na cabeça de quem estiver nos assistindo. 

Gostou da postagem? Tem algum comentário para fazer? Fique à vontade. E uma feliz dança para todos nós!

 

Fontes utilizadas:

“Música egípcia – apreciação e prática para bailarinas de dança oriental”, George Dimitri Sawa, Editora Kaleidoscópio de Ideias, 2015.

 “Música árabe – expressividade e sutileza”, Marcia Dib, Edição do autor, 2013.

“Os pilares da profissionalização em dança do ventre”, volume II – Música, Dramaticidade e Expressão, Brysa Mahaila, Editora Kaleidoscópio de Ideias, 2017.

“Egito – tradição e arte”, Khaled Emam, Editora Viseu, 2018.